23.5 C
Brasília
quarta-feira, 4 novembro 2026

© AP Photo / Jorge Saenz

Itaipu se tornou outra frente na disputa de influência na América Latina, avaliam especialistas

RT – Anunciada durante a visita a Assunção de Christopher Landau, número dois do Departamento de Estado e ferrenho crítico de autoridades da República brasileira, um acordo entre Washington e Assunção para o uso da energia de Itaipu vem dentro de um contexto mais amplo em que se destacam também a cooperação militar e questões securitárias.

No final de outubro, foi anunciado pelo Departamento de Estado norte-americano que a empresas estadunidense Crusoe, que desenvolve infraestrutura para inteligência artificial, e a paraguaia Araico, desenvolvedora de projetos de energia e infraestrutura, firmaram um contrato para a construção de um data center no país, que se aproveitará da energia gerada pela Usina Binacional de Itaipu.
O projeto terá como foco atender clientes de serviços de computação em nuvem norte-americanos e da América Latina.
O movimento reacende o debate sobre o avanço dos interesses estadunidenses sobre recursos estratégicos da região, como energia, minerais críticos e petróleo. Diante da participação brasileira na administração de Itaipu, além da vitória de Lula nas eleições, o Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, discute até que ponto o acordo pode sinalizar uma nova ofensiva dos EUA na América Latina.
Mundioka #1001 - Sputnik Brasil, 1920, 03.11.2026

Mundioka

A Casa Branca quer beber da energia de Itaipu?

Camilo Carneiro, professor de relações internacionais e geopolítica da Universidade Federal de Goiás (UFG), lembra que a aproximação entre Washington e Assunção não se restringe à dimensão econômica, mas também envolve uma ampliação da presença militar dos Estados Unidos no país sul-americano.
Ele destaca dois mecanismos de cooperação firmados entre os governos: o acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA, na sigla em inglês) e a iniciativa Escudo das Américas, a aliança de Washington com países latino-americanos para o combate ao narcotráfico.
O SOFA estabelece condições para a atuação de militares e funcionários vinculados aos Estados Unidos em território paraguaio. Um dos pontos mais preocupantes é a previsão de que eventuais crimes cometidos por integrantes desse contingente sejam julgados nos EUA, e não no Paraguai. Para o professor, a presença dos estadunidenses no país vizinho também representa uma preocupação para o Brasil, especialmente pela proximidade geográfica com a fronteira brasileira.
Em relação ao acordo envolvendo Itaipu, o especialista pondera que o projeto de infraestrutura para computação em nuvem prevê apenas o uso da parcela produzida que cabe ao Paraguai.
Segundo o Tratado de Itaipu, Brasil e Paraguai têm direito à metade da energia produzida pela usina binacional. Entretanto, como Assunção historicamente não consome toda a sua parcela, Brasília tem preferência na aquisição da energia excedente. “Os data centers vão usar apenas esse 50% que são do Paraguai, não a nossa parte”, ressalta.
Vista da fronteira com Ponta Porã, no Brasil, em Pedro Juan Caballero, Paraguai - Sputnik Brasil, 1920, 01.11.2026

Panorama internacional

Mídia: buscas sobre imigração para o Paraguai disparam 1.700% após eleições

Caso Assunção passe a destinar toda a energia excedente aos data centers, Brasília precisará buscar outras fontes para compensar a redução, diz Carneiro.
“Se o Paraguai vender toda a energia excedente para o data center, a gente vai ficar sem uma parcela importante da energia elétrica que o Brasil consome. Vamos ter que encontrar outra alternativa, outras fontes de energia para substituir essa que vem do Paraguai.”
O professor também chama atenção para o calendário das negociações entre os dois países. Em 2027, Brasil e Paraguai deverão renegociar a tarifa da energia de Itaipu, e o novo empreendimento pode fortalecer a posição de Assunção nas tratativas. A possibilidade de destinar a eletricidade a um grande projeto de infraestrutura tecnológica oferece ao governo paraguaio uma alternativa comercial e, consequentemente, maior poder de barganha diante do Brasil.

“Vão fazer um leilão da nova tarifa de energia. Isso vai ser um trunfo nas mangas do governo paraguaio para negociar o preço maior que eles conseguirem em relação ao que o Brasil paga pela energia comprada que pertence ao Paraguai.”

Alternativas de energia

Somando à análise, Lucas Kerr, professor do Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (PPG-ICAL) da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), lembra que as possibilidades de exportação de eletricidade do Paraguai são limitadas pela infraestrutura de transmissão existente, que conecta o país principalmente ao Brasil e à Argentina.
Nesse contexto, a manutenção do fornecimento paraguaio é relevante para a segurança energética brasileira.
“A gente tem essa preocupação de que o Paraguai continue sendo um fornecedor importante de eletricidade para o Brasil.”
Em relaçâo ao novo empreendimento, Kerr destaca que a mudança também pode representar um dilema econômico para o governo paraguaio. Embora o consumo interno da eletricidade possa favorecer o desenvolvimento de atividades econômicas no país, a redução das exportações significaria abrir mão de uma fonte histórica de receitas.
“Deixar de exportar para consumir dentro do país, por um lado, pode ser problemático, embora em curto prazo pareça interessante.”
Painéis solares instalados na cobertura de um prédio Ministério de Minas e Energia em Brasília em 2016 - Sputnik Brasil, 1920, 01.10.2026

Notícias do Brasil

Plano prevê dobrar oferta de energia até 2055 e ampliar participação de fontes renováveis no Brasil

Por outro lado, o professor ressalta que a redução gradual do excedente paraguaio é uma tendência que o Brasil precisará enfrentar, independentemente do acordo com as empresas estadunidenses. Projeções de crescimento econômico, urbanização e industrialização indicam que o Paraguai poderá consumir toda a sua parcela de Itaipu nas próximas duas ou três décadas, deixando de ter eletricidade excedente para vender ao mercado brasileiro.
Diante dessa perspectiva, o professor defende que o Brasil comece a planejar alternativas para preservar sua segurança energética no médio e longo prazo, incluindo a construção de novas hidrelétricas em território nacional e o desenvolvimento de empreendimentos binacionais com outros países vizinhos.
“Tem vários lugares onde dá para construir hidrelétricas binacionais também e pensar justamente na construção dessas novas hidrelétricas para garantir nossa segurança energética no médio e longo prazo.”
Vale destacar que hidrelétricas têm uma vantagem em relação a outras fontes renováveis, como a solar e a eólica, por permitirem o armazenamento de água para a geração de eletricidade conforme a demanda. Nesse sentido, a estratégia brasileira deve combinar maior autonomia energética com o fortalecimento da cooperação regional.

Urânio e minerais críticos na mira dos EUA

Além da hidroeletricidade, Kerr chama atenção para o interesse de Washington nas reservas de urânio e em outros minerais estratégicos do Paraguai.
O país possui reservas significativas do elemento radioativo, cuja exploração ainda ocorre de maneira pontual e em escala reduzida diante do potencial identificado, e de outros minerais críticos, como o titânio, que podem abastecer diferentes setores industriais e tecnológicos.
Nesse sentido, os anúncios de investimento e cooperação com os Estados Unidos precisam ser compreendidos em um contexto mais amplo de disputa por influência na América Latina, especialmente diante da aproximação de países da região com potências como Rússia e China.
O professor lembra que o Paraguai vinha mantendo tratativas para desenvolver projetos de cooperação nuclear com Moscou, inclusive por meio da estatal russa Rosatom em 2017. As negociações envolviam não apenas a exploração de urânio, mas também possibilidades de colaboração em pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e medicina nuclear. Portanto, a oferta estadunidense de cooperação nessa área pode ter como objetivo dificultar o avanço da presença russa no setor nuclear paraguaio.
Kerr acrescenta que a movimentação de Washington também deve ser observada diante do avanço chinês na cooperação internacional em energia nuclear. Enquanto a Rússia tem priorizado iniciativas relacionadas à medicina nuclear, à pesquisa científica e ao desenvolvimento tecnológico, a China também amplia sua atuação no setor energético.

“Essa entrada da Rússia em mercados nucleares da América Latina alertou, digamos assim, nos EUA a necessidade de rever essa prática por parte dos Estados Unidos para conseguir continuar competindo na América Latina, mesmo com essas potências emergentes ou reemergentes, como a Rússia e a China.”

ÚLTIMAS NOTÍCIAS