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quarta-feira, 4 novembro 2026

Razões da vitória no segundo turno

© Paulo Pinto/Agência Brasil

Emiliano José

Ainda de ressaca, tal a alegria pela vitória do Dia 25 de Outubro, dia a entrar no calendário nacional pelo simbolismo. O povo brasileiro realizou o milagre, barrou a volta da barbárie, experimentada entre 2019 e 2023, cujo desastre maior, genocídio, foi a morte de 700 mil pessoas, boa parte das quais em decorrência da política negacionista do ex-presidente golpista, agora preso em razão do crime golpista de 8 de Janeiro de 2023. 

Celebrar, celebrar, celebrar tal vitória. Prometi em capítulos anteriores refletir um pouco sobre a relação entre o presidente Lula e o povo brasileiro, entre massas e lideranças, e é chegada a hora de ir aos finalmente quanto a tal questão. 

Digo “povo brasileiro” tentando encontrar um termo a unificar tantas vontades daquele segundo turno, embora, do meu ponto de vista, tal conceito ganha pouca dimensão se pensamos nas classes sociais, na luta de classes, compreensão a ganhar mais e mais consistência a partir de Marx. 

Povo brasileiro, na minha compreensão, nesse segundo turno, agrupou muitas classes sociais, cada uma talvez com algum motivo particular para ir às ruas, a encontrar, no entanto, uma razão especial: barrar o fascismo, frear a inevitável decapitação de direitos. 

A vitória do segundo turno deve-se a variados fatores. Importante juntá-los, não desprezar nenhum, mas tentar encontrar a razão fundamental a nos levar à vitória. 

A primeira delas, a intensa, inédita mobilização do nosso povo, provocada, estimulada logo nas primeiras horas do dia seguinte ao primeiro turno, por surpreendente e ampla movimentação estudantil, a nos recordar de tantas outras mobilizações, de modo especial a de 1968. 

Aqueles primeiros movimentos acordaram nossa gente, aguçaram o espírito, corações e mentes das pessoas em cada canto desse País, saudável balbúrdia a chegar a cada recanto brasileiro. Diria ser tal mobilização o elemento fundamental para a vitória. Sem ela, não venceríamos. 

Como provocação, diria ter sido o medo um elemento propulsor de tais mobilizações. Todas, todos sabiam qual o significado de uma quadrilha, de uma organização miliciana assumir a presidência da República. O país se veria tomado pelo crime organizado, embalado pelo ódio fascista encarnado no bolsonarismo, e no horizonte de um governo assim, a supressão de todos os direitos, a atingir sobretudo os de baixo, classe média incluída. 

Medo ou a consciência política aflorando, sobretudo diante de um primeiro turno com o candidato fascista um pouco à frente. Uma movimentação pluriclassista nitidamente espontânea, sem direção partidária propriamente. Os partidos, quem sabe até positivamente, foram arrastados pelas massas populares. Certamente, tirarão lições proveitosas dessa notável virada, fruto do milagre da ação política. 

Creio necessário, e não me estenderei quanto a outros fatores, fundamental destacar o papel do deputado André Janones, personifico porque não há como não fazê-lo, na atitude de fazer nossa campanha chegar ao novo milênio, ao mundo digital, deixar o analógico de lado, ao menos nessa conjuntura decisiva para nossa história. 

Reunir numa assembleia permanente mais de 10 milhões de pessoas incrivelmente ativas garantiu o rumo apontado pelas ruas, assegurou a vitória. 

Muita gente, face ao clima de ódio, de intolerância, de antipetismo raivoso, criado pelo bolsonarismo-fascismo, argumentou com insistência: vencer não era pelo Lula, nem pelo governo hegemonizado pelo PT. Era por um tanto de outras ponderáveis razões, especialmente as relativas à supressão de direitos, cujas consequências desabariam sobre a cabeça de milhões. Compreendia esse tipo de argumentação, coisa da política, mas ela me incomodava. 

Vencer era também pelo Lula, pensava. 

Não por ser partidário de qualquer samba-exaltação, nenhum culto ao mito, status já alcançado pelo presidente. Era também por Lula porque somente ele, com o particular, especial, singular carisma dele poderia nos levar àquela majestosa vitória. 

Os homens fazem a história, e alguns, a fazem de modo mais decisivo, mesmo contidos pelas circunstâncias, como nos ensina o velho Marx. Lula, já por mais de cinco décadas, marca a história do Brasil, e está se consolidando, com este quarto mandato, e não apenas por ele, como a principal figura política da nossa história. 

Tal papel se agigantou quando assumiu pela primeira vez a presidência da República, em 2003, e construiu, afrontando muitos obstáculos, uma nova hegemonia, calcada em reformas voltadas a melhorar a vida da classe trabalhadora, especialmente dos mais pobres. 

Dois bem-sucedidos mandatos, dois de Dilma Rousseff, o segundo atropelado por um golpe, e veio então a perseguição, 580 dias passados na prisão, o retorno, a vitória de 2022 por sobre o presidente golpista, hoje preso. E agora, essa fantástica virada, a coroar tal trajetória. 

Creio ser necessário, a partir da constatação dessa trajetória, discutir então a relação entre tal liderança e as massas, entre esse dirigente político e a população mobilizada nesse segundo turno. Tais mobilizações somente ocorreram porque havia uma liderança a gozar da confiança das maiorias, dos milhões a inundar a rua de alegria, de disposição de luta, de sonhos. 

Aquelas milhões de pessoas não tinham dúvidas sobre o presidente, sabiam da personalidade dele, incapaz de renegar raízes, deixar de cumprir compromissos. Confiavam no presidente Lula, e no Lula nascido no Nordeste, no menino a sentir fome, criado por mãe, do operário, líder de tantas greves. 

Essas mesmas pessoas jamais o abandonaram. Nem na primeira prisão, em 1980, nem depois, na segunda, recente, quando o golpismo se abateu sobre ele com gosto de gás. 

Viram-no voltar à presidência, iniciar a reconstrução do Brasil devastado pelo bolsonarismo, e não pretendiam dar passos atrás, perder direitos e a chance de outro governo sob a direção dele. 

Portanto, tal mobilização, tão densa, tão gigantesca, tão decisiva aconteceu também e quem sabe principalmente por conta dessa extraordinária figura da vida política brasileira. A população reconheceu nele, e já tem tempo, a liderança em quem podia confiar. Jamais se arrependeu. Então, foi também por Lula, sim. 

#vidamorte 

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