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domingo, 3 março, 2024

Zelensky perde apoio popular e pode ser substituído em prol de processo de paz

© AP Photo / Evan Vucci

Sputnik – Pesquisas de opinião mostram desgaste de Zelensky entre população ucraniana, enquanto autoridades ocidentais debatem a substituição do líder ucraniano. A Sputnik Brasil conversou com especialistas para saber como o autoritarismo e a visão irrealista sobre o campo de batalha podem levar ao fim da presidência de Zelensky.

Após o fracasso da contraofensiva ucraniana e de uma viagem com poucos resultados aos EUA, o presidente da Ucrânia, Vladimir Zelensky, enfrenta dificuldades para se manter no poder. Nesta segunda-feira, o Serviço de Inteligência Externa da Rússia (SVR) informou que uma eventual substituição do líder ucraniano já é debatida por autoridades no Ocidente.
Dentre os nomes aventados pelas autoridades ocidentais, segundo as informações da inteligência russa, estão o do chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Valery Zaluzhny, do chefe da Direção Principal de Inteligência (GUR, na sigla em ucraniano), Kirill Budanov, e do chefe do gabinete presidencial, Andrei Yermak.
Mas não é só o apoio ocidental a Zelensky que se encontra em franco declínio. A população ucraniana também expressa perda de confiança na autoridade de seu presidente.
Recente pesquisa de opinião publicada pela revista The Economist aponta que Zelensky, celebrado no Ocidente como unificador da nação ucraniana perante o esforço de guerra, mingua somente 32% de apoio popular. Outras figuras de relevância gozam de larga vantagem sobre Zelensky, como o chefe das Forças Armadas Zaluzhny, que conta com 70% de confiança, e o chefe da Direção Principal de Inteligência do país Budanov, com 45%.
Chefe da inteligência militar da Ucrânia, Kirill Budanov, em uma conferência em Kiev em 22 de setembro de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 14.12.2023
Chefe da inteligência militar da Ucrânia, Kirill Budanov, em uma conferência em Kiev em 22 de setembro de 2022
Porém, a desvantagem nas pesquisas de opinião pública pode não representar uma ameaça iminente a Zelensky, que é contra a realização das eleições presidenciais, previstas para março de 2024. De acordo com o presidente ucraniano, o país não deve realizar eleições enquanto estiver sob lei marcial.
“Não acho que seja apropriado realizar eleições nesse momento”, disse Zelensky no início de novembro em anúncio à população. “Precisamos reconhecer que agora o momento é de defesa e de batalha.”
Para a doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (PUC-SP/UNESP/UNICAMP), Nathana Garcez Portugal, membros da classe política ucraniana suspeitam que os motivos de Zelensky para adiar as eleições sejam outros.
“Líderes ucranianos já entendem que pode, sim, haver um interesse de Zelensky na manutenção do seu próprio poder e de sua posição na política ucraniana”, disse Portugal à Sputnik Brasil.
Já a mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Giovana Branco, questiona a impossibilidade de realizar eleições em tempos de guerra, recorrendo a exemplos históricos.
“Apesar do argumento de que eleições em tempo de guerra sejam difíceis, temos exemplos de governos que realizaram eleições de forma segura nessas condições”, disse Branco à Sputnik Brasil. “Não seria necessariamente algo impossível de se realizar […], mas Zelensky não parece aberto a essa possibilidade.”
Eleições que marcaram a história do Ocidente, como a derrota de Winston Churchill no Reino Unido para seus opositores do Partido Trabalhista em 1945, foram realizadas durante conflitos militares de grande escala. Os EUA, aliados de primeira ordem de Zelensky, reelegeram Abraham Lincoln em 1864, em meio à grave Guerra Civil americana.
Winston Churchill, premiê do Reino Unido, na Catedral de São Paulo em Londres, Inglaterra, Reino Unido, para assistir aos serviços de graças pela vitória na Europa na Segunda Guerra Mundial, em maio de 1945 - Sputnik Brasil, 1920, 14.12.2023
Winston Churchill, premiê do Reino Unido, na Catedral de São Paulo em Londres, Inglaterra, Reino Unido, para assistir aos serviços de graças pela vitória na Europa na Segunda Guerra Mundial, em maio de 1945
A oposição de Zelensky à realização de novas eleições é um dos motivos pelos quais sua liderança vem sendo cada vez mais criticada internamente. No início de dezembro, o prefeito de Kiev, o ex-boxeador Vitaly Klichko, acusou o presidente de seu país de autoritarismo durante entrevista ao jornal alemão Der Spiegel.
“Há um descontentamento da população e de figuras políticas em função de práticas centralizadoras e autoritárias”, asseverou Portugal. “Mas é importante destacar que elas já existiam antes do início do conflito.”
De fato, medidas impostas por Zelensky de maneira autocrática, como o fechamento dos três principais canais de televisão do país, datam de 2021, portanto antes do agravamento do conflito com a Rússia. Na época, a medida foi criticada pelo então porta-voz da União Europeia, Josep Borrell, que a classificou como restrição à liberdade de imprensa no país.
Apoiador do Partido Comunista ucraniano participa das celebrações do primeiro de maio, em Kiev, Ucrânia, 1º de maio de 2012 - Sputnik Brasil, 1920, 14.12.2023
Apoiador do Partido Comunista ucraniano participa das celebrações do primeiro de maio, em Kiev, Ucrânia, 1º de maio de 2012
decisão tomada em março de 2022 de proibir 11 partidos políticos, inclusive o principal partido da oposição ucraniana, o Plataforma de Oposição pela Vida, tampouco foi sem precedentes na história recente da Ucrânia. Em 2015, todos os partidos de esquerda que utilizavam símbolos associados ao comunismo ou à União Soviética foram banidos.
Antes as medidas autoritárias eram focadas em alguns grupos políticos minoritários de esquerda e outras minorias de regiões próximas à fronteira com a Rússia, que hoje estão no cerne da guerra”, declarou Portugal. “Mas o presidente [Zelensky] acabou expandindo essas práticas […] para atingir outros grupos da sociedade ucraniana.”

Fratura nas elites

declínio da autoridade interna de Vladimir Zelensky também é resultado de uma fratura entre as elites governantes do país. A recente entrevista do comandante das Forças Armadas, Valery Zaluzhny, à revista The Economist, expôs visões diferentes no alto escalão ucraniano sobre os rumos do conflito com a Rússia.
“A entrevista mostra um cansaço dentro do governo ucraniano e de certa forma uma fratura dessa elite governante que, depois de 21 meses de guerra, entende que existem outros caminhos a serem seguidos além daquele proposto pelo presidente Zelensky”, considerou Branco.
Para Portugal, “o que estamos vendo hoje é a etapa mais recente de um processo de desgaste entre a ala presidencial e as elites ucranianas“.
Comandante-em-chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Valery Zaluzhny, no centro, participa de um evento para marcar o Dia do Estado na Praça Mikhailovskaya em Kiev, 28 de julho de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 14.12.2023
Comandante-em-chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Valery Zaluzhny, no centro, participa de um evento para marcar o Dia do Estado na Praça Mikhailovskaya em Kiev, 28 de julho de 2023
“Essa entrevista é um movimento de exposição dessas divergências internas, que acaba sendo um resultado direto do desgaste que a população de uma forma geral vive com uma guerra que é tão longa e envolve tantas perdas políticas, materiais e humanas“, disse Portugal.
O relato pessimista feito por Zaluzhny sobre a realidade no front contrasta com a estratégia de comunicação de Zelensky, que expressa uma visão otimista sobre os rumos do conflito. De acordo com o jornal britânico Financial Times, a disparidade entre a visão “óculos cor-de-rosa” de Zelensky e as dificuldades no campo de batalha contribuem para deteriorar a confiança da população no presidente ucraniano.

Zelensky não sabe negociar?

As sérias dificuldades enfrentadas pela Ucrânia para manter sua posição no front levam muitos ucranianos e ocidentais a aventar a necessidade de negociações com a Rússia. No entanto, a figura de Zelensky, diretamente associada a uma Ucrânia avessa ao diálogo, poderia ser incompatível com o início do processo de paz.
Zelensky assumiu uma posição irredutível em relação à negociação com a Rússia. Mas conforme esse conflito começa a assumir horizontes temporais mais longos, conforme a Ucrânia perde seu apoio militar e financeiro […], com certeza o momento das negociações se aproxima cada vez mais”, considerou Branco.

Artilheiros russos disparam um obus rebocado 2A65 Msta-B 152 mm em direção a posições das forças armadas ucranianas, enquanto a operação militar da Rússia na Ucrânia continua, em local desconhecido, 1º de fevereiro de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 27.11.2023

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Para ela, o processo negociador pressupõe a realização de concessões de ambos os lados, algo que Zelensky não se mostra disponível a fazer.
“Uma vitória total para qualquer um dos lados não é possível. Se Zelensky não compreende isso, não assume que a Ucrânia está em clara desvantagem […] a substituição dessa liderança pode ser sim uma pauta importante”, acredita a especialista. “Na minha opinião, o ideal para a Ucrânia seria negociar o mais cedo possível, evitando perdas maiores no futuro.”
O adiamento de negociações já se provou desvantajoso para a Ucrânia. De acordo com a revista Foreign Affairs, Moscou e Kiev estiveram a um passo da assinatura de acordo abrangente em abril de 2022. A intervenção de autoridades ocidentais, como o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson, interrompeu as negociações. De lá para cá, Kiev perdeu batalhas importantes e hoje não controla cerca de 20% do território que lhe foi conferido após a queda da União Soviética.
O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson (à esquerda), caminha ao lado do presidente ucraniano, Vladimir Zelensky (à direita), em Kiev, Ucrânia, 9 de abril de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 14.12.2023
O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson (à esquerda), caminha ao lado do presidente ucraniano, Vladimir Zelensky (à direita), em Kiev, Ucrânia, 9 de abril de 2022
Já Nathana Portugal lembra que uma eventual substituição de Zelensky não garantiria por si só o início do processo de paz.
“Apesar de Zelensky atualmente constituir uma barreira para o processo de paz, ele poderá modificar a sua postura conforme o apoio de países ocidentais ao conflito diminui […]. E caso não mude […] abrirá brechas para que forças políticas mais comprometidas com o processo de paz se façam ouvir”, concluiu a especialista.

As Forças Armadas da Ucrânia iniciaram uma contraofensiva em 4 de junho de 2023. Após três meses, o presidente russo Vladimir Putin considerou a investida um “fracasso”. O ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu, declarou que as Forças Armadas da Ucrânia não atingiram seus objetivos em nenhuma área do front. No início de dezembro, o ministro da Defesa russo declarou que, durante os seis meses da contraofensiva, as baixas de Kiev atingiram 125 mil pessoas e cerca de 16 mil armas e equipamentos militares.

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