Helena Iono – Direto de Buenos Aires
Desta vez a Argentina não levou a copa de ouro. Mas, a sua vitória no jogo contra a Inglaterra foi a que marcou e fez história. A chegada da equipe até o final com dignidade, assumindo a palavra de ordem estampada num pano, “As Malvinas são argentinas”, valeu para o povo argentino mais que uma copa de ouro; transcendeu o campo de futebol, agitou a sociedade e ecoou no mundo político. Mesmo frente à tristeza da derrota contra o time da Espanha, uma massa multitudinária se moveu novamente rumo ao Obelisco de Buenos Aires, onde quase 2 milhões haviam festejado, cinco dias antes, a vitória contra a Inglaterra. Há cinco dias foi uma alegria e desabafo frente à dureza da vida econômica e social nos últimos dois anos e meio. Desta vez, os milhares nas praças do país uniram-se às lágrimas de Messi e do técnico Scaloni, expressaram agradecimento à equipe pelo exemplo de valores e impulso deixado a continuar lutando na vida.
O golaço da partida Argentina-Inglaterra
Esta partida que selou o auge do time argentino, não terminou com 2×1, mas num simbólico 3×1 quando a equipe argentina agarrou e expôs um pano de lençol branco lançado por seus torcedores com a escrita que girou o mundo: “As Malvinas são argentinas”. Lionel Messi e a jovem equipe de Lionel Scaloni, corresponderam com coragem ao sentimento do povo argentino; desobedeceram às ordens da FIFA reproduzidas pela ministra de segurança da Argentina, que ordenou um dia antes: “Não está permitido levar bandeiras com mensagens violentas ou explícitas, como mapas das ilhas Malvinas como conteúdo político”. Ao início do jogo, a equipe argentina cantou aos gritos o hino nacional e, com coerência até o final da partida, não somente segurou o pano das “Malvinas argentinas”, mas a estendeu e visibilizou no campo de futebol. Até Cristina Kirchner saiu na varando da sua prisão domiciliar a apoiar com uma faixa semelhante.
O tema e a luta pelas “Malvinas argentinas” são parte de uma história inacabada para o povo argentino. Isto vêm desde a guerra de 1982, que durou 74 dias. Terminou com a vitória da Inglaterra com mais de 24 mil combatentes argentinos, 649 mortos, dos quais, 323 foram marinheiros do navio Belgrano, afundado pelo submarino nuclear do governo britânico da Margaret Thatcher, recentemente saudada por Milei. Os históricos gols de Maradona em 1986 contra a Inglaterra tinham a energia e o emblema da defesa da soberania anti-colonial. Fidel Castro, apoiou nessa guerra a Argentina contra o colonialismo inglês aliado dos EUA. No povo argentino, e nos familiares dos ex-combatentes, continua arraigado o mesmo sentimento de defesa da soberania Argentina frente à Inglaterra. Do outro lado, a reação do porta-voz britânico foi: “a Copa pode ser de vocês, argentinos, mas as Malvinas são nossas”. E a do próprio presidente Milei ao pano argentino foi de crítica: “isso não é parte da diplomacia”; questionou a frase sobre as Malvinas como “impertinente e imprópria”, dita por “pessoas sem transcendência”. Enfim, ao dizer “patriotismo falso”, quis desqualificar o verdadeiro recado dos jogadores e do povo, que é de defesa da soberania econômica e política da Argentina.
Messi pode não ser a figura política e militante que foi Maradona, evidente simpatizante de Chávez e Fidel. Mas, não deixou de declarar sua inspiração no exemplo de Maradona; e além de sustentar o pano das “Malvinas Argentinas”, disse após a vitória contra a Inglaterra: “Estamos orgulhosos e felizes de poder regalar esta alegria às pessoas porque sabemos que há gente que não tem trabalho e que não chega ao fim de mês.” Em seguida, houve expressões de bronca no governo e contestação a Messi rebuscando dados econômicos “positivos” no país.
O povo festeja esse futebol coletivo, aguerrido, que persiste sem renúncia, nem rendição; festeja um conceito de vida social, de unidade sob liderança, tipo Messi, que joga aos 39 anos seu último mundial e passa a bola a jovens que cresceram nos tradicionais clubes de bairro; com um técnico nativo, Scaloni, sem terno e gravata, e que sabe mudar as peças do xadrez no último momento, para vencer. O povo argentino, latino-americano e mundial aplaude este time, independentemente da Copa de ouro. É um estímulo a sobreviver como resistência ao esquema de poder hegemônico financeiro da FIFA, de Trump e dos EUA. O time argentino em sintonia fina com seu povo, sintetiza em parte, através do futebol, uma qualidade e tradição política. Dá um exemplo de como o futebol não deve ser um instrumento de alienação. Com um pano de lençol deu um recado, no seu campo de ação, de que os protestos pela Palestina, pelos discriminados futebolistas-torcedores iranianos e russos têm o mesmo sentido. São jogadores que ganham bem, mas não perderam contato com seu povo, suas famílias e bairros. Só um futuro de um mundo descolonizado poderá recuperar a beleza histórica do futebol.
O fato do time argentino alçar o pano das “Malvinas são argentinas”, e pular dizendo, “Quem não salta é um inglês” é expressão de que tudo se pode esperar deste país que foi capaz de dar origem a um Maradona, e a expressões de unidade e consciência de massas como o peronismo, as Mães e Avós de Praça de Maio, o Papa Francisco, artistas como Mercedes Sosa e Índio Solari, presidentes como Néstor/Cristina e tantas outras.
Contexto político
Na surdina informativa, prévio à copa, houve vários movimentos na área governamental. Num artigo do jornal Página12, o analista Luis Bruschtein adverte: …“ A provocação já havia começado semanas antes, quando a petroleira israelense Navitas iniciou obras de infraestrutura nas ilhas, com planos de começar a perfuração em janeiro de 2027. Simultaneamente, o governo abriu caminho para que o Challenger Energy Group, sediado no Reino Unido, iniciasse atividades de exploração no Mar Argentino. Uma semana antes, um navio-patrulha da Marinha Real Britânica havia entrado em águas argentinas a caminho de Punta Arenas, no Chile, sem solicitar autorização.” Isso, sem contar que haverá viagens de Milei no Brasil em apoio aberto à candidatura de Flávio Bolsonaro contra o presidente Lula da Silva.
O governo libertário, em plena Copa, continuou reprimindo, como sempre, os pontuais manifestantes idosos e aposentados da quarta-feira frente ao Congresso. O campeão mundial, Lisandro Martinez, que além de Cuti Romero não deu a mão a Trump, saiu nas suas redes sociais a condenar o governo de Milei: “Que impotência e que vergonha que se metam assim com os aposentados!”. No dia seguinte ao jogo Argentina-Inglaterra, o governo tentou também revogar ou modificar no Senado a Lei de Terras Rurais promulgada em 2011 pela presidenta Cristina Kirchner, criando um projeto de Lei de “Inviolabilidade da Propriedade Privada”, de privatização das terras e venda aberta ao capital estrangeiro. A votação foi adiada para 6 de agosto. Não se sabe qual o limite entre a alegria no futebol e a fúria social.
Muitos analistas preveem que a sintonia fina entre o entusiasmo massivo da torcida e o recado político do time argentino pelas Malvinas e de crítica à situação do país possa aumentar as próximas manifestações de protesto popular, à maior coordenação, unidade e embate do peronismo e das forças de oposição. O fato imediato é que a CGT, as duas CTAs e a UTEP (União de Trabalhadores da Economia Popular) chamam a uma manifestação nas ruas, em 22 de julho na defesa dos aposentados e por um plano de lutas contra o governo de Milei.


