19.5 C
Brasília
terça-feira, 6 janeiro, 2026

Uruguai: O antes e o depois da Dra. Anaís Carreras

Montevidéu (Prensa Latina) Há um antes e depois na consulta da Dra. Anaís Carreras, no Hospital Oftalmológico “José Martí”, localizado nos arredores da capital uruguaia.

Por Orlando Oramas León

Correspondente-chefe no Uruguai

Ela faz parte da brigada oftalmológica cubana, uma cooperação entre os dois países que começou há quase 18 anos com a Missão Milagre, promovida pelos presidentes Fidel Castro e Hugo Chávez.

Tudo começou aqui, durante o primeiro governo da Frente Ampla, sob o comando do presidente Tabaré Vázquez.

De 2007 até o presente, especialistas cubanos realizaram mais de 900.000 consultas, cerca de 200.000 exames e mais de 116.000 intervenções cirúrgicas no Uruguai, principalmente para tratamento de catarata e pterígio.

Anaís Carreras é a única especialista em oculoplástica nesse hospital de referência nacional, onde trabalham profissionais de saúde uruguaios e cubanos.

A oculoplástica é uma especialidade cirúrgica que se concentra na região ao redor dos olhos, incluindo pálpebras, sobrancelhas, órbita e sistema lacrimal.

É realizada para corrigir problemas médicos e estéticos, como pálpebras caídas que obstruem a visão, tumores, fraturas orbitárias, má posição das pálpebras e dificuldades com o sistema lacrimal.

Suas qualidades definem essa médica cubana. Ela possui formação em medicina geral e é especialista de primeiro grau em oftalmologia, além de cirurgia oculoplástica e oncologia. Representou seu país em congressos de especialidade no México e na Colômbia.

Ele já realizou outras missões como parte da colaboração médica internacional praticada por Cuba: Venezuela (entre 2010 e 2013), Suriname (2019-2020), Haiti (2019-2020) e está prestes a concluir três anos de trabalho no Uruguai.

OS DOIS LADOS

Sua sala de espera está sempre cheia. O passado se reflete nos rostos marcados pelas cicatrizes das condições que ele terá que corrigir.

Entre os pacientes que vêm pela primeira vez, a incerteza reina, juntamente com anos de convivência com tais patologias, muitas das quais são claramente visíveis.

Muitos têm mais de 50 anos, mas há pessoas de todas as idades, incluindo aquela menina de quinze anos que mal conseguia abrir as pálpebras, num gesto de contração para poder ver o que escondia sua vitalidade juvenil.

Ela faz parte do resultado da reconstrução feita pelas mãos habilidosas do cirurgião cubano, que será eternamente grato à jovem uruguaia.

Nomes estranhos para doenças comuns

“Trato vários casos de malformações congênitas”, diz Carreras.

Entre elas está o entrópio, que é a inversão das pálpebras e cílios; pode causar úlceras na córnea, secreção, lacrimejamento, visão turva e olhos vermelhos. “Essa pálpebra precisa ser reposicionada em sua posição anatômica normal”, destaca ele. Ele menciona o ectrópio, quando a borda de uma pálpebra, geralmente a inferior, se vira para fora, expondo a superfície interna e a conjuntiva. Também causa ressecamento, irritação, lacrimejamento, vermelhidão e maior suscetibilidade a infecções ou úlceras na córnea. Causas comuns incluem idade, cicatrizes, queimaduras ou paralisia facial.

Existe dermatocalase, um excesso de pele nas pálpebras superiores que interfere na visão e contribui para a inversão dos cílios. Os sintomas incluem sensação de peso, obstrução visual e bolsas sob os olhos.

Outro termo científico é calázio, uma protuberância benigna que se forma na pálpebra devido ao bloqueio de uma glândula sebácea. Além de desconforto, vermelhidão e inchaço, pode causar visão turva se aumentar de tamanho.

Vale mencionar também o pterígio, um crescimento anormal de tecido na parte branca do olho, que se estende em direção à córnea.

Entre outras malformações congênitas, surgem as pregas epicânticas, uma dobra de pele da pálpebra superior que cobre o canto interno do olho e que pode ser corrigida cirurgicamente.

A cirurgiã tem um histórico do qual se orgulha. “Trato tumores com muita frequência e, até agora, todos os malignos tiveram um resultado positivo, confirmado por biópsias e acompanhamento. Nenhum desses pacientes precisou recorrer à quimioterapia ou radioterapia.”

A VIDA COTIDIANA E OUTRAS HISTÓRIAS

As semanas passam voando enquanto ela se dedica ao seu precioso trabalho. Segunda e terça, consultas de manhã e à tarde. Quarta e quinta, cuidados pós-operatórios e, à uma da tarde, entra na sala de cirurgia. Sexta, de volta ao centro cirúrgico.

Aos sábados, ele verifica o estado de saúde daqueles que foram operados no dia anterior. Mas ele também pode estar em missão com outros colegas da brigada cubana que, aos sábados, saem em busca de pacientes, muitas vezes em cidades remotas do Uruguai.

As malas estão prontas para serem arrumadas, pois sua missão nesta terra sul-americana termina em dezembro.

“No Uruguai, tive experiências maravilhosas com muitos jovens que saem com uma aparência completamente nova depois de sofrerem com pálpebras caídas, por exemplo”, ela se orgulha. “E fico feliz em salvar muitos idosos que sofreram durante anos com tumores malignos, que agora foram removidos.”

O médico reconhece que as cirurgias oculoplásticas são muito caras em consultórios particulares. No Hospital Oftalmológico José Martí, que faz parte do sistema público de saúde uruguaio, elas são gratuitas.

A relação afetuosa entre a oftalmologista cubana e seus pacientes é evidente. “Eles não querem que eu vá embora; chegam a escrever cartas para a administração do hospital.”

“Na minha profissão, guardo com carinho muitas histórias que me enchem de orgulho. De Guárico, na Venezuela, lembro-me de um jovem de 22 anos com catarata congênita”, recorda. “Foi deslumbrante quando ele viu a luz pela primeira vez. Ele chegou com uma bengala e a deixou para trás. Experiências como essas me inspiram a continuar nesta profissão, em Cuba ou onde quer que sejamos necessários.”

ÚLTIMAS NOTÍCIAS