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terça-feira, 18 junho, 2024

Uma nova corrida pela África? Como as grandes potências têm disputado influência no continente

© Sputnik / Igor Aleyev

Sputnik- A atual instabilidade política no Níger e a deterioração da influência europeia na África tem sido uma das principais pautas de discussões em tempos recentes. Enquanto isso, potências como China e Rússia têm ganhado cada vez mais espaço no continente.

Quanto ao caso do Níger, cerca de 15% de todo o urânio usado pela França em suas usinas nucleares são provenientes do país africano, que também responde por um quinto do estoque total de urânio da União Europeia. Ao mesmo tempo, o IDH de Níger se encontra entre os três piores do mundo, segundo dados da ONU de 2021.
Em verdade, a anterior elite política no Níger, encabeçada pelo presidente deposto Mohamed Bazoum, segundo denúncias, apropriava-se justamente da riqueza do país com o aval das potências ocidentais, tendo sido destituída por um movimento político-militar com forte conotação popular e que conta com o apoio de seus vizinhos africanos.
Diante dessa situação a própria França, de acordo com a junta militar hoje à frente do Níger, teria dado indícios de que poderia organizar uma intervenção internacional para “estabilizar a situação no país” e reempossar o antigo presidente.
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Ora, para além da instabilidade no Níger, fato é que as mudanças ocorridas na economia e na política mundial nas últimas décadas foram tão significativas que o continente africano readquiriu sua importância geopolítica internacional e as grandes potências não se mostraram alheias a essa realidade. A Europa, por sua vez, vê sua posição cada vez mais enfraquecida na África.
Em suma, a perda da influência europeia na região possui raízes históricas. Afinal, no período de expansão do colonialismo europeu na África a partir do século XV, uma de suas principais motivações era justamente a obtenção de matérias-primas e recursos naturais do continente, sem se importar com a qualidade de vida de seus habitantes.
Para além disso, a França, país mais diretamente envolvido na crise no Níger, foi um dos que mais participou de intervenções militares no Norte da África em defesa dos interesses geopolíticos do Ocidente, como no caso do calamitoso bombardeio da Líbia em 2011 pela OTAN.
Ações desastrosas como essa por parte de potências europeias, causando mudanças de regime pela força, resultaram em crises migratórias, instabilidade política e no empobrecimento de países inteiros, colocando em xeque justamente a abordagem pseudo-humanista do Ocidente.

Em vista desse cenário de derrocada moral dos europeus, o espaço estava aberto para que Rússia e China ganhassem cada vez mais influência na África ao longo dos últimos tempos. Xi Jinping, por exemplo, no âmbito de sua Nova Rota da Seda, concedeu incentivos a empresas estatais chinesas para que investissem em todo o continente africano, sobretudo na construção de rodovias, portos e ferrovias, que visavam modernizar economicamente diversos países da região.
Como resultado, a China ganhou bastante influência política e prestígio perante as lideranças africanas. Dado que a África possui desconfianças bastante arrazoadas quanto aos países ocidentais por conta de seu conturbado passado histórico e colonial, não é de se surpreender que os investimentos chineses tenham sido recebidos com maior entusiasmo.
Não obstante, não foi somente a China que aumentou sua presença na África nos últimos tempos. A Rússia também procurou fazer o mesmo. Em benefício de Moscou encontra-se o fato de que o continente africano ainda mantém vivo na memória a ajuda oferecida pela União Soviética durante a Guerra Fria para os processos de descolonização da África frente às antigas metrópoles europeias.
Por si só, esse histórico oferece um grande capital político para Rússia em sua relação com as lideranças africanas. Não é à toa que, no contexto das sanções ocidentais aplicadas ao país em 2022, a Rússia ampliou o alcance de sua política externa para a África, reaproximando-se do assim chamado Sul Global.
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Além do mais, recentemente a Rússia prometeu às lideranças africanas assegurar o fornecimento de grãos necessários ao continente, atendendo assim aos anseios de segurança alimentícia regional.
Nos primeiros seis meses de 2023, por exemplo, a Rússia já exportou cerca de dez milhões de toneladas de grãos para a África. Não obstante, ainda em 2023 o comércio de produtos agrícolas entre a Rússia e o continente africano cresceu em torno de 60%.
Outra das questões que ilustra a proximidade entre russos e africanos nos últimos tempos são as interpretações em torno do conflito na Ucrânia. Ora, o plano de paz para o Leste Europeu elaborado pelas lideranças da África sugere justamente a suspensão do mandado de prisão a Putin emitido pelo Tribunal Penal Internacional, assim como a suspensão das sanções unilaterais aplicadas pelo Ocidente contra a Rússia.
A Europa, que desejava que a África seguisse os seus ditames com relação à condenação de Moscou, viu seus planos serem frustrados, sobretudo pela bem-sucedida realização da Cúpula Rússia-África, que teve lugar no final de julho em São Petersburgo.
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O presidente russo, Vladimir Putin, e os chefes das delegações participam de uma oportunidade para fotos de família durante a Segunda Cúpula Rússia-África e Fórum Econômico e Humanitário em São Petersburgo, Rússia, 28 de julho de 2023 © Sputnik / Aleksei Danichev
No decorrer do fórum, aliás, ficou claro que a Rússia e a África defendem a “multipolaridade nas relações internacionais”, reiterando a necessidade de estabelecer relações mais cada vez mais próximas, tanto no âmbito comercial quanto político.
Tal cenário se tornou inclusive mais vantajoso para o aumento da influência do BRICS na África. Afinal, vale lembrar que alguns países africanos (como Egito, Tunísia e Etiópia por exemplo) já manifestaram sua intenção de ingressar na associação, demonstrando seu crescente interesse pelo BRICS em um cenário de acentuado descrédito das potências europeias aos olhos do Sul Global.
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Não obstante, o próprio Banco do BRICS já tem marcado sua presença na África. Além de seu escritório regional na África do Sul, o Egito hoje é um dos membros da instituição, ampliando assim o alcance global do Banco. No mais, na próxima Cúpula do BRICS a ocorrer na África do Sul ainda este mês, questões como a expansão do BRICS, envolvendo inclusive a adesão de outros países africanos ao bloco, certamente deverão fazer parte da pauta.
Tudo isso serve para demonstrar que, no despertar dessa nova era, a África caminha para se tornar um continente cada vez mais importante no cenário global.
Dessa vez, ao contrário do passado, essa importância se dará não mais pela exploração de seus recursos naturais pelas potências colonialistas europeias (esse recado já foi dado pelo Níger), mas sim por sua cooperação com novos polos de poder (como a Rússia, a China e o próprio BRICS) na construção de um mundo verdadeiramente multipolar.

As opiniões expressas neste artigo podem não coincidir com as da redação.

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