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Por: Wagner França
Quando o presidente estadunidense George W. Bush declarou a “guerra ao terror” em 2001, poucos poderiam imaginar que duas décadas depois os Estados Unidos teriam bombardeado pelo menos dez países — Afeganistão, Iraque, Paquistão, Somália, Iêmen, Líbia, Síria, Nigéria, Venezuela e Irã —, gastado aproximadamente 5,8 trilhões de dólares em operações militares e provocado cerca de 940 mil mortes diretas em conflitos por eles iniciados. Estes números, contudo, representam apenas o capítulo mais recente de uma longa história de intervenções que remonta à fundação da república. Entre 1776 e 2019, os Estados Unidos realizaram mais de 400 intervenções militares no exterior. O que explica esta contínua expansão bélica? Para a tradição marxista-leninista, a resposta é clara: trata-se da expressão necessária do imperialismo, fase monopolista do capitalismo em que a exportação de capitais, a busca por mercados e a garantia de áreas de influência tornam-se imperativos estruturais. Como bem sintetizou Lenin, o imperialismo não é uma política entre outras, mas a própria essência do capitalismo em seu estágio avançado.
Antes de examinarmos as intervenções militares propriamente ditas, é fundamental compreender os mecanismos sutis pelos quais o imperialismo estadunidense opera. Instituições como a National Endowment for Democracy (NED) e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) funcionam como verdadeiros “motores de guerra intelectual” a serviço da política externa estadunidense. A NED, criada em 1983, representa a institucionalização de operações encobertas da CIA que, a partir da Guerra Fria, ganharam uma roupagem “pseudoaberta” de promoção democrática. Estas instituições especializaram-se na instrumentalização da mídia e da sociedade civil para desestabilizar governos que não se alinham aos interesses geopolíticos e econômicos de Washington. O caso da Venezuela é exemplar. Em 2002, a NED e a USAID forneceram suporte financeiro e organizacional para setores da oposição que culminaram no golpe de Estado contra o presidente Hugo Chávez — um golpe que durou apenas 48 horas graças à maciça mobilização popular que reconduziu o líder bolivariano ao poder. Mais recentemente, em janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma audaciosa operação militar em Caracas, capturando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, sob a justificativa de acusações de narcotráfico — uma clara violação da soberania venezuelana que demonstra como a “guerra às drogas” serve frequentemente como pretexto para agressões imperiais. Este padrão repete-se sistematicamente: na Nicarágua dos anos 1980, a CIA organizou e financiou os Contras para derrubar o governo sandinista; no Haiti, em 2004, os mesmos mecanismos contribuíram para o golpe contra o presidente democraticamente eleito Jean-Bertrand Aristide; na Ucrânia, o golpe de Euromaidan em 2014 contou com significativo apoio financeiro e organizacional destas mesmas instituições. A “democracia” que Washington promove é, como demonstra a história, uma democracia tutelada, submissa aos interesses do capital monopolista.
A América Latina constitui o laboratório histórico do imperialismo estadunidense. Foi ali que a Doutrina Monroe (1823) estabeleceu a pretensão hegemônica dos EUA sobre o hemisfério ocidental, e foi ali que se aperfeiçoaram as técnicas de intervenção, golpes de Estado e guerra suja que depois seriam exportadas para outras regiões. Em 1954, a Guatemala viveu um dos episódios mais emblemáticos: o presidente democraticamente eleito Jacobo Árbenz, que ousara implementar uma modesta reforma agrária afetando os interesses da United Fruit Company, foi derrubado por um golpe orquestrado pela CIA — a Operação PBSUCCESS, que incluiu bombardeios e guerra psicológica. A United Fruit, cujos acionistas incluíam figuras próximas ao governo Eisenhower, tinha seus lucros garantidos pela intervenção militar, demonstrando a simbiose entre interesses corporativos e política externa imperial. Cuba, desde 1959, tornou-se alvo permanente da agressão estadunidense. A invasão da Baía dos Porcos em 1961, organizada pela CIA com treinamento de exilados cubanos em território guatemalteco, foi apenas a face mais visível de uma campanha contínua que incluiu a Operação Mongoose — um programa de sabotagem, espionagem e tentativas de assassinato contra a liderança cubana que se estendeu até 1962. O bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba há mais de seis décadas constitui o mais longo sistema de sanções unilaterais da história moderna, um cerco imperial que visa asfixiar economicamente o país e forçar sua rendição. A República Dominicana, em 1965, recebeu mais de 22 mil fuzileiros navais estadunidenses na Operação Power Pack, sob o pretexto de proteger vidas estadunidenses em meio à guerra civil. O verdadeiro objetivo era impedir o retorno ao poder do progressista Juan Bosch, cujo breve governo (1963) havia sido derrubado por um golpe militar meses antes. A ocupação durou até setembro de 1966, período em que os EUA supervisionaram eleições que garantiram a vitória do candidato alinhado a Washington. Grenada, 1983: a Operação Urgent Fury mobilizou forças estadunidenses para invadir esta pequena ilha caribenha após um golpe de Estado interno que levou ao poder elementos considerados próximos a Cuba. A justificativa oficial — proteger cidadãos estadunidenses — escondia a verdadeira motivação: eliminar qualquer experiência política que pudesse servir de alternativa ao modelo neoliberal na região. Na América do Sul, o padrão de intervenção assumiu frequentemente a forma de apoio a ditaduras militares. O golpe no Brasil em 1964, o derrubamento do governo Allende no Chile em 1973, o apoio à ditadura argentina (1976-1983) e a atuação na Guerra do Ópio na Bolívia nos anos 1980 são capítulos de uma mesma história: a defesa intransigente dos interesses capitalistas contra qualquer ameaça — real ou imaginária — de experiências socialistas ou nacionalistas.
Se na América Latina o imperialismo estadunidense atuou tradicionalmente como “xerife do quintal”, no Oriente Médio sua presença assumiu proporções ainda mais devastadoras. A região, que abriga as maiores reservas de petróleo do planeta, tornou-se palco das mais brutais intervenções militares das últimas décadas. O Iraque talvez seja o exemplo mais paradigmático da barbárie imperial. Em 1991, a Operação Tempestade no Deserto mobilizou uma coalizão internacional para expulsar as forças iraquianas do Kuwait — uma guerra que, na superfície, tratava-se de defender a soberania de um pequeno emirado, mas que na realidade visava garantir o controle estadunidense sobre os fluxos petrolíferos do Golfo Pérsico. A campanha aérea de cinco semanas destruiu sistematicamente infraestrutura civil iraquiana, incluindo usinas de energia, estações de tratamento de água e pontes, causando um custo humanitário que se prolongaria por anos através do embargo econômico. Em 2003, a invasão do Iraque sob o falso pretexto das “armas de destruição em massa” levou a barbárie a novos patamares. A campanha de “choque e pavor” (shock and awe) sobre Bagdá não passava de terrorismo de Estado em escala industrial, projetado para paralisar a população através do medo. O resultado: centenas de milhares de mortos, a destruição do Estado iraquiano, o caos sectário e a ascensão do ISIS — este último, ironicamente, financiado em seus primórdios por setores ligados às monarquias do Golfo, aliadas de Washington. Em 2011, os EUA retiraram formalmente suas tropas de combate, mas deixaram para trás um país destroçado e uma população traumatizada. O Afeganistão, por sua vez, ostenta o triste título de guerra mais longa da história estadunidense (2001-2021). A invasão inicial visava desmantelar a Al-Qaeda e punir o regime Talibã por abrigar Osama bin Laden. No entanto, o que deveria ser uma operação limitada transformou-se em ocupação prolongada que custou 2,26 trilhões de dólares e mais de 241 mil vidas afegãs. Em 2021, a retirada caótica das tropas estadunidenses devolveu o poder ao Talibã, confirmando o fracasso completo da aventura imperial e expondo a futilidade de duas décadas de ocupação. Os verdadeiros resultados foram devastação, mortes e o fortalecimento dos mesmos grupos que a guerra deveria eliminar. A Líbia, em 2011, sofreu intervenção da OTAN liderada pelos EUA sob a retórica humanitária de “proteger civis”. O resultado foi o linchamento de Muammar Gaddafi, a destruição do Estado líbio e uma guerra civil que perdura até hoje, transformando o que era o país com melhores indicadores sociais da África em um inferno de milícias e tráfico de seres humanos. O “internacionalismo humanitário” revelou-se mais uma vez a máscara da barbárie imperial. A Síria, desde 2011, tornou-se alvo de uma guerra híbrida que combinou apoio a grupos rebeldes — incluindo facções sectárias e teocráticas financiadas via USAID — com bombardeios e operações especiais. A presença militar estadunidense no nordeste sírio, justificada pelo combate ao ISIS, visa na realidade controlar áreas petrolíferas e conter a influência iraniana e russa, demonstrando que os recursos naturais continuam sendo o verdadeiro objetivo. O Irã, mais recentemente, sofreu uma escalada dramática. Em junho de 2025, a Operação Midnight Hammer utilizou bombardeiros B-2 e mísseis Tomahawk para atacar as instalações nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan — o primeiro uso em combate das bombas GBU-57, capazes de penetrar profundamente no subsolo. Em março de 2026, novas operações conjuntas com Israel assassinaram o líder supremo iraniano e outros altos oficiais, numa clara tentativa de provocar mudança de regime em Teerã. Estas ações não apenas violam o direito internacional como arriscam mergulhar toda a região num conflito de proporções imprevisíveis.
Embora a atenção da mídia global se concentre no Oriente Médio, o imperialismo estadunidense estende seus tentáculos por toda a periferia do capitalismo. Na Somália, desde 2007, os EUA realizam ataques com drones contra o Al-Shabaab, matando não apenas militantes mas também civis em casamentos, funerais e reuniões comunitárias. O país, que já foi palco da fracassada intervenção humanitária dos anos 1990 (imortalizada no filme “Falcão Negro em Perigo”), continua sendo campo de testes para a guerra por controle remoto. O Iêmen, país mais pobre do mundo árabe, sofre ataques estadunidenses desde 2002 contra a Al-Qaeda na Península Arábica. Estas operações, somadas ao apoio logístico e de inteligência à coalizão saudita que bombardeia o país desde 2015, contribuíram para o que a ONU classifica como a pior crise humanitária do planeta — fome, cólera e destruição generalizada. O Paquistão, aliado nominal dos EUA, viu seu território ser violado sistematicamente por ataques de drones da CIA desde meados dos anos 2000, especialmente nas regiões tribais da fronteira com o Afeganistão. Milhares de civis morreram nestes ataques, que geraram enorme ressentimento popular e contribuíram para a desestabilização do país. A Nigéria, em dezembro de 2025, foi bombardeada por forças estadunidenses no estado de Sokoto, sob a justificativa de atingir campos de treinamento ligados ao ISIS. A operação violou a soberania nigeriana e levantou questões sobre a real extensão da presença militar estadunidense na África Ocidental. As Filipinas, Indonésia, Camboja e Laos completam este quadro de intervenções menos conhecidas. Particularmente trágico é o caso do Laos, que entre 1964 e 1973 sofreu a “Guerra Secreta” — uma campanha de bombardeios que lançou mais de dois milhões de toneladas de explosivos sobre o país, superando o total despejado sobre a Alemanha e o Japão na Segunda Guerra Mundial. Décadas depois, centenas de pessoas ainda morrem ou são mutiladas anualmente por bombas não detonadas, legado permanente da barbárie imperial.
Uma das grandes contribuições do pensamento marxista para a compreensão do imperialismo é desvelar a contradição entre a retórica humanitária e democrática e a realidade material da exploração. A “promoção da democracia” e os “direitos humanos” funcionam frequentemente como cortina de fumaça para a continuidade da dominação imperial. A política intervencionista dos EUA está fundamentada na filosofia do Novo Destino Manifesto, que sustenta ser o destino divino dos Estados Unidos defender e espalhar a democracia, a ordem e a justiça mundialmente. Esta ideologia, no entanto, esconde a realidade material: a garantia de acesso a recursos naturais, mercados cativos e áreas de influência para o capital monopolista. Os números são reveladores. Desde 2001, os gastos militares estadunidenses em guerras atingiram 5,8 trilhões de dólares, com projeção de alcançar 8 trilhões quando incluídos os custos futuros com veteranos. Estes valores não representam desperdício ou erro de cálculo: são o preço pago pela manutenção da hegemonia global do capital. O complexo industrial-militar, denunciado por Eisenhower já em 1961, tornou-se o coração pulsante da economia estadunidense — um motor de acumulação que necessita permanentemente de novos conflitos para se reproduzir. A guerra, portanto, não é um desvio da política externa estadunidense, mas sua expressão mais autêntica. Quando a diplomacia falha em garantir os interesses do capital, os bombardeios entram em cena. Quando governos nacionais ousam desafiar as diretrizes de Washington, golpes de Estado são organizados. Quando movimentos populares ameaçam a propriedade privada ou o lucro das corporações, a “guerra ao terror” fornece o pretexto para a repressão.
Diante deste quadro de sistemática agressão, a resistência dos povos oprimidos constitui não apenas um direito, mas um dever histórico. Desde a Revolução Cubana até os governos progressistas da Maré Rosa latino-americana, desde a resistência vietnamita até a luta do povo palestino, a história do pós-guerra é também a história da luta anti-imperialista. A América Latina, particularmente, tem sido palco de significativas experiências de resistência e construção de alternativas ao domínio imperial. O governo de Hugo Chávez na Venezuela, iniciado em 1999, representou um desafio direto à hegemonia estadunidense na região — e por isso sofreu sucessivas tentativas de desestabilização, culminando na recente invasão de 2026. A Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA) buscou construir mecanismos de integração regional alternativos às instituições controladas por Washington. Em nenhuma região do mundo tantos governos se aproximaram da América Latina em alcançar unidade e desafiar o imperialismo durante o ciclo progressista. Este desafio, contudo, enfrenta a permanente contraofensiva imperial, que utiliza todos os instrumentos à sua disposição — desde a pressão econômica até a intervenção militar direta. O movimento de solidariedade internacional, que nos anos 1960 mobilizou milhares de estadunidenses contra a guerra do Vietnã, continua atuante. As brigadas de solidariedade a Cuba, os movimentos pela libertação dos Cinco Heróis Cubanos, as campanhas contra o bloqueio e as sanções à Venezuela representam a continuidade da luta anti-imperialista no próprio coração do império.
Retomando a formulação clássica de Lenin, o imperialismo não é uma política externa entre outras, mas a fase monopolista do capitalismo, caracterizada pela fusão do capital industrial com o capital bancário, pela exportação de capitais e pela partilha do mundo entre potências imperialistas. Os Estados Unidos, como potência hegemônica do pós-guerra, levaram esta lógica às últimas consequências. As mais de 400 intervenções militares realizadas desde 1776, os 5,8 trilhões de dólares gastos em guerras desde 2001, as 940 mil mortes diretas provocadas por estes conflitos, os incontáveis países desestabilizados, as democracias derrubadas, os recursos naturais saqueados — tudo isso constitui a prova empírica de que o imperialismo estadunidense não é uma relíquia do passado, mas uma realidade presente e atuante. A retórica da “promoção da democracia”, da “guerra ao terror”, da “defesa dos direitos humanos” ou da “luta contra as drogas” não passa de cortina de fumaça para esconder a verdadeira natureza destas intervenções: a garantia das condições de reprodução do capital monopolista em escala global. Seja através da NED e da USAID promovendo “revoluções coloridas” e golpes “suaves”, seja através de bombardeios maciços com B-2 e mísseis Tomahawk, o objetivo permanece o mesmo: submeter as nações periféricas aos ditames do capital financeiro sediado em Nova York e Washington. A recente escalada contra o Irã, a invasão da Venezuela, os bombardeios na Nigéria e as operações contínuas na Somália, Iêmen e Síria demonstram que o imperialismo estadunidense está longe de entrar em declínio. Pelo contrário, diante da crise estrutural do capitalismo e da ascensão de novas potências (China, Rússia) que desafiam sua hegemonia, a tendência é que a agressividade imperial se intensifique.
Para os marxistas revolucionários, não há ilusões possíveis: a luta contra o imperialismo é indissociável da luta pelo socialismo. Enquanto o capitalismo existir, o imperialismo persistirá como sua expressão necessária. A paz duradoura, a autodeterminação dos povos e a justiça social só serão possíveis com a superação do modo de produção capitalista e a construção de uma sociedade baseada na propriedade social dos meios de produção e no planejamento democrático da economia. A história das intervenções estadunidenses — da Guatemala ao Irã, do Vietnã à Venezuela, do Chile ao Afeganistão — não é apenas um registro de crimes e barbáries. É também um chamado à luta. Cabe aos povos oprimidos e às forças revolucionárias de todo o mundo aprender com esta história e organizar a resistência. O imperialismo não cairá por si só; será derrubado pela ação consciente e organizada das massas trabalhadoras, forjando em cada batalha a unidade internacional necessária para enfrentar o inimigo comum. Como ensinava Che Guevara, “o imperialismo é um sistema mundial, último estágio do capitalismo, e deve ser combatido através de uma grande guerra mundial. A trincheira decisiva da luta contra o imperialismo são os povos oprimidos do Terceiro Mundo”. Que a memória das intervenções imperialistas nos fortaleça na certeza de que, apesar de toda a barbárie, a humanidade encontrará o caminho da libertação.