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Postado em 14/01/2016 5:03

Ucrânia: Um ano de desesperanças e um futuro sombrio

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Kiev (Prensa Latina) O ano de 2015 significou para o Estado da Ucrânia e toda a institucionalidade do país um período extenso de letargia, desesperança e miséria.

Basta observar o nível de desemprego superior a 20% entre a juventude, a principal força de trabalho em qualquer país, e a cifra de trabalhadores migrantes ilegais, que disparou a 41%. Além disso, ocorre um processo de desindustrialização.

É lamentável constatar que centenas de milhões de ucranianos estão dispostos a procurar uma primeira possibilidade de sustento digno em qualquer país.

Além disso, mais de dois milhões de ucranianos se converteram em refugiados ou deslocados internos por causa do conflito armado. A maioria procedente de Donbass (sudeste da Ucrânia), onde continua o enfrentamento, apesar das autoridades oficiais de Kiev terem reduzido toda a situação ao rótulo de “agressão russa”, quando a maioria dos ucranianos foge das penúrias econômicas precisamente para a Rússia.

De acordo com o Serviço Federal de Migração da Rússia, no território da Federação há quase 2,5 milhões de cidadãos da Ucrânia, dos quais um milhão são originários de Donbass – as regiões de Donetsk e Lugansk, “tradicionalmente pró-russas”.

O resto, que representa um universo de 1,5 milhão de pessoas, são refugiados de outras regiões da Ucrânia, incluindo homens jovens que fogem das ondas de alistamento do Exército, na maioria dos casos, nos territórios em conflito.

A propaganda do governo ucraniano apoiada em slogans patrióticos e o falso mito de que “o inimigo está muito próximo” e de que e “Hora de se levantar em defesa da Pátria”, é um fracasso total.

O chamado ao serviço militar continua sendo uma mobilização forçada. Não existem praticamente voluntários com vontade de dar a vida e sua saúde por uma inclusão violenta do Donbass à Ucrânia. Ao mesmo tempo, nas repúblicas auto-proclamadas independentes o alistamento é voluntário.

Para o começo de 2016, o Ministério de Defesa da Ucrânia planeja levar a cabo a sétima onda de mobilização desde que a operação a larga escala do exército regular começou, em abril de 2014, para sufocar a resistência no sudeste do país.

Como regra, são mobilizados muitos dos indivíduos que foram alistados ao Donbass durante as três primeiras concentrações, na etapa de maior combate.

O Exército nacional, no entanto, exibe um baixo nível de preparação militar e organização. De acordo com um relatório do Ministério de Defesa, as perdas fora de combate, dentro das tropas ucranianas, nas áreas de conflito durante 2014 e 2015 chegaram a 597.

Desse total, 171 soldados cometeram suicídio e 90 foram vítimas de assassinatos premeditados (64 por colegas de filas); 39 por envenenamento; 119 em acidentes de trânsito e 66 devido a descuidos no manejo de armas.

Engrossam as estatísticas, por outro lado, as baixas em combate. O ministério estima que as perdas em dois anos de guerra foram de 2.27 efetivos mortos, número que não corresponde à realidade sobre o teatro de operações.

Durante o verão e outono de 2014, o exército ucraniano sofreu uma série de grandes derrotas. Em diversas ocasiões, os soldados cruzaram para território russo em uma tentativa de se proteger, fugindo dos milicianos.

Notícias transmitidas pela televisão local informavam sobre o destino dos oficiais que permitiram a fuga dos soldados à Rússia e foram levados aos tribunais depois de voltar ao país.

Como constatam os fatos “in situ”, as autoridades ucranianas modificaram sua táctica em Donbass, ao passar de ações militares de grande escala a “uma guerra diversionista”.

Em apenas meio ano, foram assassinados vários comandantes reconhecidos do Exército da auto-declarada República Popular de Lugansk. Os cálculos de Kiev estão errados e muito pouco ajudará a eliminação física de líderes populares.

Deveriam propor à população algo a mais em troca. Porém, em lugar de projetos para o desenvolvimento sócio-econômico e a constituição política das regiões, como estipulam os acordos de Minsk de fevereiro de 2015, Kiev ameaça o Donbass com o prolongamento da guerra, para a qual nem tem recursos.

Ao mesmo tempo, o Exército ficou desmoralizado pelas disputas internas entre os diferentes escalões do Governo, como é o caso do escândalo entre o ministro de Interior, Arsen Avakov, artífice da operação de limpeza no Donbass, e o governador de Odessa e ex-presidente da Georgia, Mikhail Saakashvili, procurado em seu país por vários delitos graves e inclusive despojado de sua cidadania.

Essa intriga, que ocupou reportagens de televisão e grandes manchetes na imprensa local e internacional, pôs em evidência a gravidade das contradições nas altas esferas do poder na Ucrânia.

Vale esclarecer que, por sorte, nem Avakov nem Saakashvili têm legitimidade entre os cidadãos comuns. O primeiro foi suspeito em algum momento por crimes econômicos e esteve fugitivo da polícia; enquanto o segundo fracassou como presidente com a aventura militarista de 2008 contra a Ossétia do Sul, apoiando na ajuda militar do regime pró-estadunidense do então mandatário ucraniano Víktor Yúschenko.

Todo o ano de 2015 na Ucrânia transcorreu sob o marco de uma luta política acirrada: os conflitos entre o presidente Petro Poroshenko e o governador da região de Dniepropetrovsk, Igor Kolomoiski; entre este e o líder do Partido Radical, Oleg Lyashko, e outros escândalos.

Em 2016, o país entra em situação de fraqueza econômica e política. Os especialistas tentam adivinhar se Kiev continuará a guerra em Donbass. Arrisco-me a supor que não haverá ações militares da mesma envergadura que as manobras realizadas no verão de 2014.

Mas a guerra terá um caráter prolongado, lento e esgotador. Esse formato é vantajoso para o principal patrocinador de Kiev, Washington. Cabe lembrar que o conflito no Donbass foi a resposta dos Estados Unidos ao projeto russo de integração euro-asiática.

Ao não aceitar um concorrente perto de sua esfera de influência, Washington organizou o golpe de Estado em Kiev (em 22 de fevereiro de 2014) e levou ao poder políticos pró-fascistas.

Através das mãos desses políticos, o governo estadunidense resolveu o problema da propagação da ideologia de integração euro-asiática no Ocidente. E por outra parte, não cabe falar de uma incorporação da Ucrânia à União Econômica Euro-asiática, conformada pela Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão como a troika fundadora, e ampliada depois pela Armênia e o Quirguistão.

Dessa maneira, a locomotiva da integração euro-asiática (no espaço pós-soviético) recebeu um golpe forte, a ponto de reduzir seu desenvolvimento.

É comprovado o interesse dos Estados Unidos em converter o conflito de Donbass em uma ferida sempre aberta para a Rússia, que cause desvio de recursos diplomáticos, políticos, econômicos e militares, ao mesmo tempo em que impeça Moscou de se concentrar em dar continuidade ao projeto de integração euro-asiática.

Por isso, 2016 significará para o Donbass um ano de guerra de baixa intensidade com a profundidade da histeria anti-russa de Kiev.

A imprensa ocidental apoia essa histeria, apesar das mentiras repetidas que serviram às autoridades ucranianas para assustar o mundo com histórias sobre uma suposta invasão russa, e de diplomatas norte-americanos e europeus escondendo que, na realidade, o exército russo combatia no sudeste ucraniano.

A verdade é que em mais de um ano e meio de guerra, nem os jornalistas ucranianos nem os estrangeiros captaram em suas câmeras e lentes fotográficas supostas caravanas de tanques russos, nem brigadas de tropas regulares.

Na Ucrânia, no entanto, a expectativa é de ondas de descontentamento social no decorrer de 2016, o que aprofundará a instabilidade interna e conduzirá inexoravelmente ao enfraquecimento da institucionalidade estatal.

Junto a isso, a concentração e posse de armas alarmantes no país e a saída em público de grupos neofascistas na esfera da alta política converterá esses problemas em ameaças permanentes e não resolvidas.

*Politólogo ucraniano, colaborador da Prensa Latina.

O trabalho foi traduzido ao espanhol por Odalys Buscarón Ochoa, correspondente chefe da PL na Rússia.

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