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Postado em 11/11/2016 1:17

Trump: primeiras ondas de choque

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11/11/2016, Russiepolitics
“Em resumo, a Europa acorda com medo: perdeu o hábito de se autogovernar e os atuais governantes sequer são capazes de governar alguma coisa.
Alemanha começa a compreender a amplidão da mudança que pode acontecer e entra em pânico; a ministra da Defesa, totalmente histérica, praticamente insulta o novo presidente dos EUA, pela mídia.”
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Seria como se a eleição de D. Trump à presidência tivesse disparado uma mensagem muito clara, cujos efeitos fazem-se sentir já antes da posse. Pode ser resultado do longo encontro de ontem Obama / Trump, mas fato é que Obama deu ordem, repentina, de ‘limpar’ a Al-Nusra na Síria. Alemanha começa a compreender a amplidão da mudança que pode acontecer e entra em pânico; a ministra da Defesa, totalmente histérica, praticamente insulta o novo presidente dos EUA, pela mídia. Quanto à Ucrânia, como de hábito, está à procura de quem lhe dê armas e dinheiro, compreendendo que a velha vida de dinheiro farto sem trabalhar acabará logo e, na sequência, cai o regime. Em resumo, a Europa acorda com medo: perdeu o hábito de se autogovernar e os atuais governantes sequer são capazes de governar coisa alguma.
Decidida a eleição de D. Trump, fala-se muito de manifestações em algumas grandes cidades, como se os EUA se estivessem dividindo ao meio. Parece, isso sim, que foi rasgado o véu da fantasia democrática à Wall Street: a democracia não é o processo pelo qual um povo escolhe os próprios governantes: é um resultado que tem de estar de acordo com a ideologia que mais interesse ao grupo dirigente num dado momento. Não sendo o caso, é preciso revisar os resultados ‘não democráticos’, e trocá-los por outros que sejam, digamos, ideologicamente aceitáveis.
Assim sendo, já apareceram a infalível petição Change.org, a exigir que Clinton seja presidente – ridículo não mata ninguém –, e as manifestações. Manifestações , por falar delas, muito bem organizadas.
E lucrativas. Mas nada disso importa nem faz diferença alguma, porque os riscos de uma ‘revolução colorida’ bem ali, nos EUA, são praticamente zero.
Os países europeus, horrorizados, veem-se cara a cara com eles mesmos, e o que veem no espelho é mesmo apavorante: como governarão alguma coisa?! Que fazer das sanções, se os EUA tirarem o time? Que fim dar à OTAN, se os EUA não forem inimigos da Rússia?
Artigo muito significativo apareceu no The Washington Post:
Como a vitória de Trump está obrigando a Europa a repensar a própria segurança
Segundo o jornal, é o evento mais marcante desde a 2ª Guerra Mundial, em matéria de segurança europeia. E a Europa terá de repensar seu modelo ou, melhor dizendo, terá de criar um modelo. Na sequência direta dessa mudança, a aliança entre Alemanha e EUA será revista. Ora. A Alemanha, precisamente, sempre foi a representante dos interesses dos EUA na União Europeia.
Nesse contexto, afinal, é possível compreender o surto pânico da ministra alemã da Defesa que quase insultou o presidente Trump, querendo ‘obrigá-lo’ a pronunciar-se ‘imediatamente’ sobre questões importantes: quem defenderá a Europa contra a Rússia? E Alepo, contra Assad?
“Donald Trump tem de decidir de que lado está: do lado da verdade, da ordem mundial, da democracia, ou, então, nada tem a fazer e preferirá suas amizades masculinas. (…) Espero que seus conselheiros lhe expliquem, e que ele compreenda, que a OTAN nada tem a ver com o business. Não é uma empresa. (…) Não é coisa da qual se possa dizer: o passado não me interessa. Os valores que representamos juntos não me interessam. Em vez disso, vou ver quanto dinheiro posso ganhar, e se posso fechar um bom acordo.”
Sim, trata-se efetivamente disso: os valores. Problema é que os governantes europeus estão sós, agora, só eles, com seus “valores” pós-modernos neoliberais, aos quais os EUA deram as costas nas eleições de 2016, com exceção de alguns grupos, em algumas grandes cidades. Aqueles governantes estão diante dos seus cidadãos e da impopularidade crônica daqueles governos. Estão sós. E têm medo. Porque o sistema antidemocrático que os elegeu e os mantém no poder só se sustenta se receber ajuda externa.
O medo deles é justificado, porque já antes de D. Trump tomar posse, a situação já mudou muito rapidamente, muito significativamente.
Obama, o mesmo que defendia e sustentava ‘com o próprio bolso’ os terroristas da Al Nusra na Síria, porque era a melhor força para lutar contra Assad – como ainda escreve o Washington Post –, o mesmo Obama acaba de ordenar ao Pentágono que façam faxina total por lá:
“O presidente Obama ordenou que o Pentágono desentoque e mate os líderes daquele grupo ligado à Qaeda na Síria que o governo dos EUA deixou agir como quisesse até agora, e se converteu no maior grupo na guerra contra o governo da Síria – disseram fontes oficiais dos EUA.”
A decisão de deslocar mais drones e mais quadros da inteligência contra o grupo terrorista conhecido como Jabhat [Frente] al-Nusra reflete a preocupação de Obama, de que os terroristas estejam convertendo partes da Síria em novas bases de operação para a al-Qaeda, ali junto da porta de entrada sul para a Europa – disseram também as mesma fontes.
O movimento mostra o quanto Obama está passando a dar prioridade à missão contraterrorismo na Síria, que passa a ser vista como mais importante que esforços para derrubar o presidente Bashar al-Assad. A Frente al-Nusra é uma das milícias terroristas mais efetivas que ainda luta contra o governo sírio.
Tudo sugere que Obama está providenciando uma faxina de urgência, antes de deixar o governo. E, sim, pode ser mudança dramática em tudo que tenha a ver com o conflito sírio.
Quanto à Ucrânia, a situação só piora para Poroshenko e sua equipe. Como tuitou M. McFaul, ex-embaixador dos EUA em Moscou:
Michael McFaulCompte certifié‏@McFaul
Maior perdedor em todo o mundo hoje – Ucrânia. Única esperança lá é virarem realmente sérios, fazer as reformas, para não perder todo apoio da UE.
De modo geral, a dificuldade será antes de tudo financeira, depois, política. É mínima a chance de o novo governo aceitar que Kiev não cumpra acordos e compromissos – o que tem tudo a ver com as inexistentes garantias de que a dívida ucraniana seja paga. Segundo a companhia de investimentos Capital Times, a Ucrânia não mais receberá armas letais nem novos empréstimos do FMI, o que gerará rombo de US$ 5-6 bilhões. É a mesma avaliação que faz o presidente da Associação dos Bancos Ucranianos, que não vê possibilidade real de ajuda significativa do FMI à Ucrânia. Implica dizer que, sem o dinheiro norte-americano daqui a 2019, a Ucrânia está falida.
A única saída ainda possível é a Ucrânia cuidar de governar o próprio país. O que implica criar uma real política econômica e social. Mas o atual governo nunca fez tal coisa e é incapaz de fazer, também por razões ideológicas. Sem a guerra civil, o atual regime cai como castelo de cartas. Para os países europeus, que tão ativamente mantiveram aquele regime sanguinário e corrompido, há alto risco de repercussões muito significativas no plano das respectivas políticas domésticas.
Por enquanto, a opinião pública nos países da União Europeia ainda está sendo contida num nível aceitável de submissão e docilidade, graças a uma máquina jornalístico-comercial-midiática que roda sem parar para manter no poder o ponto de vista dessa “bolha”, que só repercute os interesses dos atlanticistas que ela representa. Sem a dose diária de informações falsificadas, a crise política na Europa ameaça lançar à fogueira os atuais dirigentes e suas quadrilhas. A opinião pública muda muito depressa, e com violência tanto maior quanto mais se tenha deixado enganar para que não visse tais e tantos horrores.
A via de escape mais imediata para a União Europeia seria orientar-se muito rapidamente para construir uma “segurança europeia”. Essa “segurança europeia” só faz sentido se for contra a Rússia. Não se trata portanto, sequer, de alguma segurança propriamente “europeia”, mas de política concebida para gerar e alimentar conflitos. E não se sabe sequer se a União Europeia terá recursos suficientes, sem os EUA, para levar avante esse projeto.
Muitas coisas dependem do peso que D. Trump venha a alcançar dentro da política doméstica dos EUA, de suas relações com o Partido Republicano e com as duas casas do Congresso, sem esquecer de considerar a composição do novo governo.*****

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