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sábado, 20 abril, 2024

Tropas da OTAN podem ser destacadas para a Ucrânia? Já lá estão e estão a ser mortas

– As ideias de Macron sobre a ida de tropas terrestres da OTAN para a Ucrânia podem ser rejeitadas publicamente, por enquanto.   Mas a dinâmica inexorável da última década indica que em breve a ideia pode muito bem tornar-se realidade.

SCF [*]

O Presidente francês Emmanuel Macron causou furor esta semana ao especular que as tropas da OTAN podem acabar por ser enviadas para a Ucrânia. Calma aí. Elas já estão lá há mais de uma década e foi por isso que irrompeu a guerra naquele país dois anos atrás.

Foi cómico – se não mesmo patético – ver o líder francês a falar alto, tentando projetar uma imagem de duro com os seus delírios de grandeza, como se fosse Napoleão ou De Gaulle reencarnado.

Macron estufou o peito de menino e declarou que a Rússia “não deve ganhar a guerra na Ucrânia”. E, para evitar esse presumível desfecho terrível, sugeriu soldados ocidentais recebessem ordens de marcha para entrar no conflito. (Note-se a arrogância desenfreada e como a lógica de tais afirmações falsas não ser sequer remotamente explicada ou justificada. É um diktat total).

Contudo, Imediatamente, os seu homólogos americanos e europeus repeliram a conversa de Macron sobre tropas e apressaram-se a negar o seu apoio à vontade macronesca de posicionar ali batalhões da OTAN. Nomeadamente, mesmo os britânicos e polacos, habitualmente mais agressivos, rejeitaram rapidamente a proposta francesa.

O chanceler alemão, Olaf Scholz, estava particularmente ansioso por repudiar a conversa fiada de Macron sobre tropas. Scholz afirmou que não haveria soldados alemães ou da NATO a irem para a Ucrânia.

O chefe da OTAN, Jens Stoltenberg – que geralmente fica excitado com promessas de ajuda militar ilimitada à Ucrânia – também rejeitou publicamente a noção de Macron de despachar tropas para combater na Ucrânia.

Pelo seu lado, a Rússia avisou que qualquer envio de contingentes da OTAN para a Ucrânia significaria a inevitabilidade de a guerra por procuração se transformar numa guerra mais vasta. No seu discurso sobre o Estado da Nação, esta semana, o Presidente russo Vladimir Putin sugeriu que o destino de tais contingentes da OTAN acabaria por ser semelhante ao do Terceiro Reich e de Napoleão. Putin também advertiu que a escalada do envolvimento direto da NATO em combate correria o risco de incitar a uma conflagração nuclear.

Por um lado, o furor desencadeado por Macron saiu pela culatra ao Presidente francês. A reação de rejeição dos aliados da OTAN deixou-o exposto e com um ar de tolo. Mais como um pequeno general de província do que como um homem duro.

No entanto, apesar de Macron poder ter parecido isolado por agora, os seus comentários precipitados apontam para a preocupante dinâmica de escalada da NATO desde o golpe de Estado apoiado pela CIA em Kiev, em 2014.

A OTAN tem armado e treinado vigorosamente o regime neonazista que se instalou em Kiev desde 2014. Até Jens Stoltenberg e outros responsáveis da OTAN admitiram abertamente esse envolvimento de fundo.

A admissão da presença da OTAN na Ucrânia ao longo da última década também corrobora o raciocínio da Rússia sobre a razão pela qual foi obrigada a lançar a sua intervenção militar há dois anos. É claro que as potências ocidentais e os seus media servis nunca chegam a admitir isso. Preferem adotar uma posição de duplo pensamento e hipocrisia, afirmando que a ação militar da Rússia foi uma “agressão não provocada”.

Para já, Macron pode ter sido abatido e ter ficado com a imagem de um palhaço pendurado. Mas, como tantas vezes no passado, ideias controversas da OTAN são apresentadas e aparentemente rejeitadas de imediato, para depois serem adoptadas. Como Macron salientou, a Alemanha e outras nações da OTAN estavam, há apenas dois anos, relutantes em enviar equipamento militar para além de capacetes e sacos-cama. Agora, essas mesmas entidades enviam tanques de combate e mísseis antiaéreos e estão a debater o envio de armas de longo alcance para atacar profundamente o território russo.

O Presidente dos EUA, Joe Biden, comentou uma vez a inviabilidade de fornecer caças à Ucrânia “porque isso significaria iniciar a Terceira Guerra Mundial”. Bem, Biden acabou por consentir o fornecimento de F-16 e o seu colega da NATO, Stoltenberg, afirma que estes aviões de guerra poderiam ser utilizados para atingir alvos russos profundos.

Por outras palavras, por enquanto as noções de Macron sobre a ida de tropas terrestres da OTAN para a Ucrânia podem ser rejeitadas em público. Mas a dinâmica inexorável da última década indica que em breve a ideia pode muito bem tornar-se realidade.

O envolvimento da OTAN na Ucrânia é uma cunha estratégica para atacar, enfraquecer e, finalmente, vencer a Rússia. O que começa como uma pequena quantidade cresce inevitavelmente para uma eventualidade maior.

O pessoal militar da OTAN já está na Ucrânia e tem estado ali desde pelo menos 2014, quando começaram a treinar as brigadas neonazista para aterrorizar as populações de etnia russa na Crimeia, Donbass e Novorossiya.

Muitos destes soldados são posicionados não oficialmente como mercenários ou ostensivamente como elementos de segurança para diplomatas da OTAN.

Numerosos relatos atestam a presença de tropas da OTAN na Ucrânia, de uma forma ou de outra.

Um ataque aéreo russo perto de Kharkov, em janeiro, matou pelo menos 60 militares franceses que confirmadamente trabalhavam como contratados privados. Outros relatos mencionam cerca de 50 militares americanos mortos em combate na Ucrânia.

Estima-se que cerca de 20 000 militares estrangeiros se tenham juntado aos chamados “legionários internacionais” que combatem ao lado do regime de Kiev contra as forças russas. É justo supor que a maioria destes soldados da fortuna são tropas da OTAN temporariamente “retiradas de serviço”.

Esta semana, Scholz, da Alemanha, deixou o gato escapar do saco quando disse que se opunha ao envio para a Ucrânia de mísseis Taurus de longo alcance, porque isso significaria o envio de tropas alemãs para ajudar a operar as armas. Scholz expressou-se mal ao revelar, inadvertidamente, que os britânicos e os franceses já tinham enviado forças especiais para ajudar com os seus sistemas de mísseis, o Storm Shadow e o Scalp, respetivamente.

O mesmo se pode dizer dos sistemas de artilharia HIMARS e Patriot, fornecidos pelos americanos, que têm sido utilizados para atingir centros civis em Donetsk e noutras cidades russas. Não é possível que os soldados ucranianos estejam a operar estas armas sofisticadas sem a assistência de tropas americanas no terreno.

Sabe-se também que as forças americanas, britânicas e outras da OTAN estão a providenciar vigilância e logística para permitir ataques ucranianos no Mar Negro contra navios e bases da marinha russa na Crimeia.

Como disse esta semana ao Financial Times um oficial de defesa europeu não identificado, em reação ao alvoroço causado pelos comentários de Macron sobre as tropas:   “Toda a gente sabe que há forças especiais ocidentais na Ucrânia – apenas não o reconheceram oficialmente”.

Tendo em conta o armamento ofensivo que a OTAN introduziu na Ucrânia (no valor de 100 a 200 mil milhões de dólares) para atacar a Rússia, bem como os milhares de soldados destacados pelos países da OTAN, é bastante académico especular sobre o futuro destacamento de forças terrestres. O facto é que a OTAN já está em guerra com a Rússia.

Estamos realmente a falar de uma diferença de grau relativamente pequena. É isso que torna a situação tão perigosa e abissal. A Rússia tem razão em chamar a atenção para o perigo iminente de este conflito se transformar numa catástrofe nuclear para todo o planeta. No entanto, lamentavelmente, quando o Presidente russo mais uma vez advertiu deste perigo nesta semana, os regimes e os media ocidentais acusaram imediatamente Putin de “ameaças nucleares”.

O único obstáculo que impede a catástrofe planetária é o formidável arsenal nuclear e hipersónico da Rússia, que a cabala imperial ocidental sabe que não pode ultrapassar. Na verdade, os belicistas ocidentais são os mais vulneráveis.

É uma vergonha eterna para os chamados líderes ocidentais o facto de estarem a empurrar o mundo para a beira do abismo com a sua arrogância e desrespeito por quaisquer leis. O seu problema, como Putin salientou, é que estes degenerados fantoches ocidentais não têm humanidade ou experiência pessoal de sofrimento e, portanto, não têm empatia. Eles são psicopatas e sociopatas, condenados pelos seus sistemas políticos falhados, e são levados a iniciar guerras como forma de tentarem salvar as suas insignificantes e patéticas carreiras.

03/Março/2024

[*] Strategic Culture Foundation.

O original encontra-se em strategic-culture.su/news/2024/03/01/nato-troops-might-deploy-to-ukraine-theyre-already-there-and-getting-killed/

Este editorial encontra-se em resistir.info

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