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sexta-feira, 1 março, 2024

Três Sílvios e uma Mostra de Cinema

José Bessa Freire

A noite desta quarta-feira (6) foi do Palmeiras, do Vasco e de três Sílvios: o cineasta Silvio Tendler, o ministro Silvio Almeida e o orador Silvio Barreto, conhecido em Coari (AM) como “Bolinho”. O Palmeiras se sagrou campeão, o Vasco escapou da série B e os Sílvios lançaram a 13ª Mostra Cinema e Direitos Humanos no Cine Arte UFF, em Niterói (RJ). Se um Sílvio sozinho já faz verão, imaginem três juntos: eles esquentam os tamborins e fazem arte.

Foi o que aconteceu. Criada em 2006 para celebrar o aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Mostra ficou paralisada nos últimos três anos do (des) governo do Coiso. Agora, foi reaberta pelo ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Silvio Almeida, em parceria com o Ministério da Cultura e o apoio da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Sílvio, o ministro

Filho de dona Verônica e do seu Lourival Almeida – ex-goleiro do Corinthians, o ministro fez um gol de placa, ao anunciar a retomada da Mostra, que vai até março de 2024 com exibição de filmes e realização de oficinas gratuitas de cinema e educação para mais de 700 professores de 26 capitais, incluindo Manaus. A ideia é que as escolas usem filmes de qualidade estética e ética como ferramenta de ensino.

No seu discurso, Sílvio – o Almeida – falou da retomada das políticas de direitos humanos num horizonte de reconstrução e esperança renovada para o país, ampliando espaços de debate e reflexão por meio da linguagem cinematográfica. Trata-se de formar nova mentalidade coletiva para o exercício da solidariedade, da tolerância e do respeito às diversidades. Fez um balanço do primeiro ano de sua gestão e dos desafios de sua pasta:

– “O racismo, a dependência econômica e o autoritarismo sempre retornam em momentos de crise. Temos esperança, mas essas questões estão longe de ser resolvidas. Precisamos oferecer alternativas, um imaginário criativo para enfrentar esses problemas. Esse é o lugar da arte, da poesia, da literatura e do cinema”.

Terminou homenageando o outro Sílvio – o Tendler – a estrela da noite desta edição da Mostra.

– É um privilégio poder dividir o mesmo tempo histórico e o mesmo espaço geográfico com Silvio Tendler – disse o ministro, expressando o sentimento de todo o auditório.

Sílvio, o cineasta

Nascido na Tijuca em uma família de judeus liberais, filho de uma médica e de um advogado, Sílvio – o Tendler, cineasta utopista e libertário, falou da sua filmografia, destacando o projeto Memória, Verdade e Justiça, que já nos brindou com muitos documentários: os advogados contra a ditadura, os militares que disseram não, os anos JK – uma trajetória política e tantos outros.

– Nós não conhecemos a história do Brasil – disse Sílvio, que é também historiador e cujos filmes ressaltam figuras emblemáticas da vida política e cultural do país como Jango, Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Milton Santos, Carolina Maria de Jesus, Clementina de Jesus, Carlos Marighella, Oswaldo Cruz – o médico do Brasil, Josué de Castro – cidadão do mundo, Castro Alves, Glauber Rocha e gente da geração que viveu entre 1945 e 1974.

No final, foram exibidos 17 minutos de seu último documentário sobre exílio e memória, em elaboração, filmado recentemente na visita a Santiago com o grupo de 160 ex-exilados brasileiros do Grupo Viva Chile. Mas antes saudou as autoridades e Christa Grael, esposa do prefeito de Niterói, Axel Grael, “que aliás, entre outras qualidades, é sobrinho do meu dentista”.

Quando fica muito emocionado, o que ocorre com frequência, Sílvio – o Tendler – brinca para disfarçar e faz isso sempre de forma delicadamente jocosa. Eterno gozador, seu gracejo trouxe à minha lembrança o terceiro Silvio – o Barreto, de Coari, que desta forma se fez presente na abertura da Mostra, não de corpo presente, mas de alma recordada e memória reacendida.

Sílvio, o orador

Meninas, ninguém me contou. Com esses olhos míopes que a terra há de comer, eu vi em 1961 a inauguração da quadra esportiva construída pelo prefeito de Coari, Alexandre Montoril, um dentista formado pela Faculdade de Odontologia da Universidade Livre de Manáos. Antigo território dos povos Yurimagua e Miranha, Coari disputa com Tefé o título de “Rainha do Solimões”.  Morei lá quatro anos, internado no seminário redentorista.

Foi então que conheci Sílvio Barreto – o “Bolinho” – filho de Marieta, dona de casa e João Bosco, comerciante. Apesar da baixa estatura, sua voz potente lhe deu fama de orador. Gostava de usar palavras difíceis, que garimpava no dicionário, usadas nem sempre com propriedade, mas deixa pra lá. Tornou-se uma espécie de tribuno da cidade, presença obrigatória em todas festividades. Ao contrário do seu xará Tendler, ele não brincou sobre seu dentista. Falou sério:

– Esta quadra é mais opípara do que pareeeece. Eu digo isso, pela minha personalidade invejoooosa e concupisceeeente. Esta quadra foi construída pelo prefeito Alexandre Montoril que, por sinal, é meu dentista.  

Sem quebrar o ritmo da fala, com uma entonação que crescia e diminuía, a camisa entreaberta exibindo um peito cabeludo de Tony Ramos, Sílvio – o Bolinho – esqueceu da inauguração da quadra e desandou a elogiar o prefeito, “que por sinal colocou esse meu dente de ouro”. O nosso Tendler nem de gozação foi tão longe.

O orador biografou Alexandre Montoril, nascido no Crato, Ceará, primo do Patativa do Assaré, construtor de escolas, que “inaugurou o grupo escolar onde estudei”, de pontes “uma delas bem atrás da minha casa” e de um trapiche “que permite atracar dois barcos ao mesmo tempo”. A olaria – a única da cidade, a biblioteca Municipal de Coari, o obelisco, o coreto municipal, a sede da Prefeitura em estilo colonial – tudo obra de Montoril, o JK do Solimões.

Sim, Silvio – o Tendler brincalhão, trouxe para o auditório da UFF o Demóstenes do Solimões, o Silvio Bolinho, ali presente na abertura da Mostra Cinema e Direitos humanos – um evento que festeja a memória e reconhece a importância da cultura popular construída por tantos “Bolinhos” neste Brasil varonil e feminil.

P.S. – A noite de quarta-feira (6) não foi só de alegria, mas de muita tristeza pela morte do físico ítalo-brasileiro, Ennio Candotti, aos 81 anos, em Manaus. Em agosto de 2009 tive o prazer de compartilhar um quarto com ele e Higino Tuyuka, em São Gabriel da Cachoeira, durante cinco dias, no seminário sobre universidade indígena no Rio Negro organizado pela FOIRN – Federação das Organizações Indígenas e pelo ISA – Instituto Socioambiental.  Mantivemos papos animados. Aprendi muito com essas conversas. Ennio foi fundador e diretor do Museu da Amazônia (MUSA) e presidente da SBPC. Deve estar nos esperando lá em cima, ao lado do Higino para continuarmos conversando. Que descanse em paz.

Sobre Ennio Candotti, José Alcimar de Oliveira, professor de filosofia da Universidade do Amazonas, falou por todos nós no artigo abaixo:

ENNIO CANDOTTI (1942-2023)

José Alcimar de Oliveira

Neste 06 de dezembro de 2023 a Amazônia e a Ciência, notadamente a Ciência que se faz parceira e em defesa da Amazônia, perdem um dos seus mais generosos   pensadores, o professor e pesquisador Ennio Candotti. Ítalo-brasileiro que se fez caboclo da Amazônia, físico de formação e reconhecido, no Brasil e no exterior, como intelectual orgânico que pensava e trabalhava a Ciência como fator de emancipação social e de humanização, o professor e pesquisador Ennio Candotti escolheu a Amazônia de Manaus como espaço estratégico   de interlocução científica e social da Hileia com o mundo.

Pensou a Amazônia nesses  tempos sombrios, de colapso ambiental,  sitiada e agredida pelo capitalismo de catástrofe, submetida ao predatório e ecocida neoextrativismo do lucro a qualquer custo e acima da vida.  Criador e Diretor do Museu da Amazônia (MUSA), Ennio Candotti foi um tipo de Isaac Newton dessa imensidão verde, aquática, biodiversa e Pátria-Mãe de milenares povos originários. A Filosofia Natural (Física) de Newton se fez Física Ambiental e Filosofia da Ciência em Candotti.

O trabalho de Ennio Candotti, no Brasil e na Amazônia, se notabilizou por aquilo que Gaston Bachelard denominava de Formação do Espírito Científico, título de obra epistemológica publicada em 1938. À Ciência como estética da inteligência em Bachelard,  Candotti, de forma pedagógica, crítica e militante, imprimiu uma enraizada  política científica como guardiã epistêmica dos destinos do ser natural e social da Amazônia. O maior reconhecimento que podemos prestar ao humanismo científico de Ennio Candotti é seguir espraiando sobre o mundo da Amazônia as  sementes fecundas e libertárias de sua  epistemologia militante e ambiental. Ennio Candotti, companheiro e parceiro da Amazônia, Presente!

     Foto de Paulo Victor Chagas

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