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quarta-feira, 29 maio, 2024

Torero e as Bibliotecas Fantásticas

José Bessa Freire

“Se o mundo for destruído numa guerra atômica, mas uma só biblioteca for poupada, através dela é possível reconstruí-lo”. (Parodiando Theodor Berchen.1992).

O barco navega pelas águas barrentas do rio São Jorge, município de Chalán, em Sucre, Colômbia. Atraca em um barranco na aldeia Vereda los Comuneros. Lá, os moradores desembarcam a preciosa carga. Eram livros. São empilhados dentro de um andor no lugar do santo. Isso mesmo, um andor ornamentado com arranjos de flores, carregado por homens enfatiotados, que marcham silenciosos e reverentes como na procissão da semana santa, em direção ao templo:  uma modesta casinha de madeira, sede da Biblioteca La Esperanza.

Toda comunidade segue a procissão de livros sacralizados pelo andor. Essas imagens exibidas em Bogotá, em junho de 2010, na abertura do II Congresso Nacional de Bibliotecas Públicas, permanecem na minha lembrança e rabiscadas no meu caderno. Não anotei o título do documentário, mas acho que era um caserío dos Zenú, um povo indígena “recuperador de sueños”, que muito lutou para reconquistar suas terras usurpadas.

Mas devagar com o andor que o santo é de papel: não se trata de nenhuma biblioteca imaginada por José Roberto Torero em “As Bibliotecas Fantásticas” (BFs). La Esperanza, a biblioteca carregada no andor, existe mesmo em carne e osso e não como criação literária. Faz parte do Programa Nacional de Bibliotecas Itinerantes da Colômbia, que criou diversas bibliotecas fantásticas semelhantes às imaginadas ficcionalmente por Torero.

Biblioteca que anda

Com sua extraordinária imaginação, Torero inventou 99 bibliotecas fabulosas, localizadas em vários continentes, para discutir em forma lúdica e poética o que pensa sobre livros, leitura e leitores, com o estilo dele: elegante, refinado, irônico e bem humorado, repleto de metáforas. Se ele apresentasse essas ideias em forma de ensaio não seriam tão cristalinas e agradáveis de ler.  Ao terminar a leitura, fiquei matutando se esse seu livro fantástico caberia nessas bibliotecas fantásticas. Percorri algumas delas para verificar.

A primeira foi a Biblioteca de Bandahar, no rio Tigre, na qual os livros são escritos também pelos usuários, que rabiscam suas observações, tornando-se uma obra aberta, coletiva, escrita por todos os que o leem. O meu exemplar das BFs, por exemplo, já está repleto de anotações, portanto, tem lugar na estante de Bandahar. Mas caberia também na Biblioteca de Komok, que em vez de jogar fora os livros mais gastos pelo uso, corta algumas páginas selecionadas e as coloca dentro de outros livros.

Padaria de Textos, que editou o livro de Torero, em 2003, poderia doar exemplares para a Biblioteca de Afsin, na província de Kahramanmara, que possui as estantes mais belas do mundo, feitas com as madeiras mais nobres de todas as cores, caríssimas, mas não possui nenhum livro porque não sobrou dinheiro para comprá-los.

A Biblioteca de Sinar, na Suméria, provocaria delírios no imortal Ailton Krenak, porque “não tinha livros, mas contadores de histórias, cada um com sua especialidade, permanentemente à disposição dos leitores ou melhor escutadores”.  Lá nasceu o alfabeto. Foi assim: “Um dia a esposa do bibliotecário, que era surda, estava muito triste por não ouvir o que os contadores contavam. Foi quando ele teve a ideia de transformar os sons em símbolos. E assim, num gesto de amor do bibliotecário, inventou-se a escrita”.

Com objetivo similar ao da Suméria, encontramos a biblioteca Ilabhulali Yokuhamba que na língua zulu – na fantasia de Torero – quer dizer “biblioteca que anda”. São duas bibliotecas em uma só: a primeira é um pilha de livros carregada pelo bibliotecário em sua cabeça pelas estradas de Lesoto para vendê-los, emprestá-los ou dá-los. A segunda está dentro da cabeça dele, que conta as histórias do livro para quem não sabe ler.

Lendo na privada

Ah, o livro do amigo Torero não pode fazer parte do acervo da Biblioteca de Mérida, cujas salas de leitura, para atender o gosto dos seus frequentadores, são salas privadas com sanitários, “de modo que o leitor não perde tempo em ir ao banheiro, pois já está nele”. O bibliotecário espanhol Calderón de Mejía reflete sobre “o ato de ler durante o despejamento fecal” e nota que “sempre faltavam algumas folhas em seus livros”. O destino das bibliotecas depende, pois, de abastecê-las com papel higiênico.

Faz sentido. Lévi-Strauss, que passou pela Bolívia, em 1938, quando pesquisava no Arquivo Nacional em La Paz, observou um funcionário que corria disparado em direção ao sanitário, mas antes parou numa estante e arrancou várias páginas de um livro, apesar do ato administrativo do diretor transcrito do quadro de avisos pelo autor de Tristes Trópicos: “É rigorosamente proibido arrancar páginas dos arquivos para uso sanitário e higiene pessoal. Os infratores serão severamente punidos”.

A função da leitura é abordada na Biblioteca de Rapunzel, na torre onde estava ela presa por uma bruxa. Lá, havia uma biblioteca abarrotada de livros. Quando a menina fez quinze anos, esperou a bruxa sair e começou a jogar livros pela janela, um volume sobre o outro e assim, com excelente pontaria, construiu uma escada. Foi por ela que Rapunzel conseguiu fugir. “Moral da história: os livros trazem a liberdade, mesmo se for preciso jogá-los pela janela”.

Folheando livros

A leitura pode fazer com que um casal viva junto para sempre, se os dois frequentarem a Biblioteca da Ilha de Akaito, no Mar do Japão, porque lá “tem sempre dois exemplares de cada título em estantes diferentes. Quando duas pessoas que se amam leem o mesmo livro ao mesmo tempo acabam se casando. Surpreendentemente, há poucos divórcios em Akaito”. A cumplicidade da leitura gruda um no outro.

Existem muitas outras, entre elas a Biblioteca Monstruosa, que é “especializada em História da Civilização”, seus usuários são monstros horrendos com garras gigantescas, que arranham as capas dos livros. O autor não diz, mas o leitor conclui que hoje ela é frequentada por Netanyahu, Putin et caterva.

Já a Biblioteca de Khubeis é formada apenas por livros em branco, pois o povo da cidade não sabe ler, mas como as pessoas ouviram dizer que “folhear livros é algo que traz respeito e nobreza, a cidade construiu uma imensa biblioteca que está sempre lotada por seus vaidosos analfabetos”. Parece que foi lá – concluo eu – que o ex-juiz Sérgio Moro leu as biografias não lembradas por ele no programa Conversa com o Bial.

O livro de Torero ilustrado pelo artista plástico Eloar Guazzelli, começou a aparecer em postagens no Face, de quando em quando, com uma biblioteca fantástica aqui, outra mais fantástica ali, até que, em 2023, a Padaria de Livros editou uma seleção contendo 99 delas, que nos surpreendem, com muitas referências geográficas, históricas, literárias. Uma delícia de leitura, que nos dá uma ideia de como foi se construindo a noção de leitor, de leitura e de biblioteca.

Meninas escritoras

Conheci José Roberto Torero, com quem convivi durante o mês de novembro de 2018 na expedição literária Amazônia das Palavras, que navegou pelo rio Madeira, compartilhamos a mesma cabine do barco, que parava em cada cidade, onde realizávamos oficinas com alunos do ensino fundamental. Ele, na Produção de Contos, com as crianças recriando histórias infantis. Eu, contando histórias indígenas.

Em uma delas recolhida por Couto de Magalhães, em 1865, em língua Nheengatu, o Jabuti, ameaçado de ser devorado pelo Jacaré e pela Onça, usa a inteligência para atiçar uma briga entre as duas feras e se escafeder. Moral da história: se teus inimigos são mais fortes que tu, não bate de frente com eles, joga um contra o outro”.

Minha neta Maia, de sete anos, recém alfabetizada, ouviu essa história e também meus comentários sobre As Bibliotecas Fantásticas em conversa com a avó. Maia reescreveu e ilustrou a história a seu modo, por iniciativa própria. Com um grampeador, “encadernou” e “plastificou” seu livro. Juro que nada sugeri, quero ver minha mãe mortinha no inferno, quero que Santa Luzia me cegue se eu estiver mentindo. Ela já vendeu um exemplar por R$ 2,00 para sua colega na escola. É mais esperta que o avô.

Ah, Maia me pediu para convencer Torero de que deve criar, entre as suas Fantásticas, a Biblioteca das Crianças Escritoras da Aldeia Curumim, para lá colocar a produção literária dela. Mas para essa questão não vou jurar que ela esteve livre de minha influência, porque quero preservar minha mãe das garras do Capiroto. De qualquer forma, este livro do Torero merece ser conduzido em um andor para ser distribuído em cada biblioteca real ou imaginária desse país, incluindo a da Aldeia Curumim e de todas as escolas do Brasil.

O “fantástico” é que no nosso país apenas 52% das escolas têm biblioteca ou sala de leitura e, quando se trata de área rural, a porcentagem cai para 26%. Lula acaba de assinar a lei que cria o Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares (09/04), argumentando que “o Brasil não quer e não precisa de armas na mão do povo, mas de segurança, de livro, de educação e de cultura para que a gente possa ser um país mais justo”. Vamos ver qual será o resultado disso para os povos originários.

No Ciclo de Debates Educação e Povos Indígenas, realizado em 3 e 4 de abril no SESC Bom Retiro, em São Paulo, relacionei as “Fantásticas” do Torero com as bibliotecas classificadas polemicamente como indígenas. Lá, discorri sobre “Bibliotecas Indígenas: oralidade e escrita” numa mesa com Cristine Takuá, Sandra Benites e Tatiana Amaral. Na ocasião, fiz uma síntese das palestras em eventos que participei desde 1997 no México, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Argentina.

Referências

José Roberto Torero. As Bibliotecas Fantásticas. São Paulo. Padaria de Textos. 2023

Maia Freire Pereira. A Onça, o Jacaré e o Jabuti. Itaipu. Editora Artesanal da Autora. 2024

P.S. Agradeço meus alunos de Comunicação e de Antropologia dos Cursos de Biblioteconomia, Museologia e Arquivologia da UNIRIO, que durante mais de trinta anos muito me ensinaram sobre o tema, assim como aos indígenas dos cursos de formação intercultural, o que me permitiu participar com ponencias nos eventos abaixo:

FREIRE, J.R. Bessa: .“El museo indígena en el proceso de educación intercultural”. 2º Seminário Internacional sobre Lectura en Lenguas Indígenas. Ciudad Bolívar – Venezuela. 1997.

______________La escuela indígena y la biblioteca intercultural en Brasil: Libro construye biblioteca.  Encuentro Latinoamericano sobre la atención bibliotecaria a las Comunidades Indígenas, Mexico 2000. Experiencias de atención bibliotecaria a las comunidades indígenas en los países de Latinoamerica. IFLA/CUIB, In: Maria Del Rocio Graniel Parra. (Org.). 2001, v. 1, p. 27-40.

_____________”La presencia de la literatura oral en el proceso de creación de bibliotecas indígenas en Brasil”. 2º Encuentro Internacional sobre Bibliotecas Públicas. Puerto Vallarta – Jalisco. Mexico. 2003.

_____________ En qué medida es indígena la `Biblioteca Indígena? El caso de Brasil. In: Acceso a los servicios bibliotecarios y de información en los pueblos indígenas de América Latina. Project Report nº 22 – Memorias del Seminário International Federation of Library Associations (IFLA/LAC). Lima.2003. Biblioteca Nacional del Peru.

____________________. Letramento e biblioteca indígena no Brasil – espaços de interculturalidade. IV Congresso Latino-americano Biblioteconomia e Documentação e III Encontro Internacional sobre acesso a serviços bibliotecários em comunidades indígenas da A.Latina. IFLA/FEBAB. Memorial da América Latina. São Paulo (SP). 2008. (Congresso).

______________Interculturalidad y Biblioteca Pública. Quijote y Quimbaya: literacidad y oralidad en la biblioteca intercultural indígena. Bogotá – Colombia. In: I Encuentro de Interculturalidad y Biblioteca Pública. Bogotá. 2009. Memorias del I Encuentro: Ministerio de Cultura. Biblioteca Nacional de Colombia, Bogotá. 2009. v. 1. p. 61-77.

______________ . Te mandei um passarinho: Literatura, oralidad y escritura – Estratégias en la construcción de memorias. II Congreso Nacional de Bibliotecas Públicas organizado por la Biblioteca Nacional de Colombia. Bogotá. 2010.

______________ Lenguas Indigenas en Brasil: la letra y la palabra. In: Endangered Language: Voices and Images Proceedings edited by Marleen Haboud and Nicholas Ostler. City of Bath – England: Foundation for Endangered Languages, Quito. Ecuador. 2011. v. 1. p. 215-219.

_______________. ¿La Letra con sangre entra? Lecturas y Escrituras en comunidades indígenas de Brasil. Primer Encuentro Internacional de Bibliotecas Escolares e 11º Congreso Nacional de Lectura.    Bogotá, Colombia. 2013.

_______________. O Nheengatu e a literatura da floresta. Jornada de Estudos Ermano Stradelli na Amazônia. Memorial da América Latina – SãoPaulo (SP). 2013.

________________.  Procesos de Alfabetización Escolar en Lenguas Nativas. Conferencia de apertura.  II Encuentro Nacional Territorios Narrados Lenguaje Cultura y Educación. Bogotá – -Colombia. 2014.

_________________.  Lenguas Indígenas y Resistencia. Nueva Dependencia: Foro Nacional y Latinoamericano. Ministério de Cultura. Tucumán – Argentina. 2015.

______________________. Relato de experiência em relação ao espaço museal indígena   Seminário de Revisão Institucional – Memorial dos Povos Indígenas – Brasília DF. 2017.

_________________. Formación Intercultural y diferenciada de profesores de pueblos originarios. Seminario de Educación Artística -Ministerio de las Culturas, las Artes y el Patrimonio de Chile – Temuco. Chile. 2023.

________________. Darcy Ribeiro, el exilio y el descubrimiento de América en el siglo XX. Universidad de General Sarmiento y Biblioteca Nacional. Buenos Aires. 2023.

______________. Bibliotecas Indígenas: oralidade e escrita. Ciclo de Debates Educação e Povos Indígenas. UNIFESP – SESC Bom Retiro, São Paulo. 2024

Torero y sus fantásticas bibliotecas

Texto: José R. Bessa. Traducción: Consuelo Alfaro Lagorio

“Si el mundo es destruido en una guerra atómica, pero sólo se salva una biblioteca, es posible reconstruirlo a través de ella”. (Parodiando a Theodor Berchen.1992).

La embarcación navega por las aguas con barro del río São Jorge, en el municipio de Chalán, en Sucre, Colombia. Ancla en un muelle del pueblo de Vereda los Comuneros. Allí los residentes descargan su precioso cargamento. Eran libros. Son agrupados dentro de un anda en lugar del santo. Así es, un anda decorado con arreglos florales, cargado por hombres ataviados, que marchan silenciosos y reverentes como en la procesión de Semana Santa, hacia el templo: una modesta casa de madera, sede de la Biblioteca La Esperanza.

Toda la comunidad sigue la procesión de los libros sacralizados por el anda. Estas imágenes expuestas en Bogotá, en junio de 2010, en la inauguración del II Congreso Nacional de Bibliotecas Públicas, permanecen en mi memoria y garabateadas en mi cuaderno. No anoté el título del documental, pero creo que era en una aldea de los Zenú, un pueblo indígena “recuperador de sueños”, que luchó duro para recuperar sus tierras usurpadas.

Pero despacito, que el santo es de papel: no se trata  de cualquier biblioteca imaginada por el escritor José Roberto Torero en “Las Bibliotecas Fantásticas” (BFs). La Esperanza, la biblioteca en anda, en realidad existe en carne y hueso, no como creación literaria. Es parte del Programa Nacional de Bibliotecas Itinerantes de Colombia, que creó varias bibliotecas fantásticas similares a las imaginadas ficticiamente por Torero.

Biblioteca ambulante

Con su extraordinaria imaginación, Torero inventó 99 bibliotecas fabulosas, ubicadas en varios continentes, para discutir de manera lúdica y poética lo que piensa sobre los libros, la lectura y los lectores, a su estilo: elegante, refinado, irónico y humorístico, lleno de metáforas. Si presentara estas ideas en forma de ensayo, no serían tan claras ni tan agradables de leer. Cuando terminé de leerlo, me preguntaba si su fantástico libro se encajaría en cualquiera de estas bibliotecas fantásticas. Revisé algunas para comprobarlo.

La primera fue la Biblioteca Bandahar, a orillas del río Tigris, donde los usuarios, que anotaban sus observaciones en el propio libro, pasaron a ser coautores, convirtiéndose así en una obra abierta, colectiva, escrita por todos aquellos que la leían. El volumen de BFs que leí, por ejemplo, ya está lleno de notas, por lo que cabe en el estante de Bandahar. Pero también encajaría en la Biblioteca Komok, que en lugar de descartar los libros mal cuidados y desecuadernados, recorta páginas seleccionadas y las coloca dentro de otros libros.

La Padaria de Libros, que publicó el libro de Torero en 2003, podría suministrar ejemplares a la Biblioteca Afsin, en la provincia de Kahramanmara, que tiene las mejores estantes del mundo, fabricadas con las mejores maderas, de todos los colores y muy caras, pero ni siquiera tiene un solo libro, porque ya no había suficiente dinero para comprarlos.

La Biblioteca de Sinar, en Sumeria, haría delirar al inmortal Ailton Krenak, pues “no tiene libros, sino narradores, cada uno con su especialidad, permanentemente a disposición de los lectores, mejor dicho, oyentes”. Allí nació el alfabeto:

Un día la esposa del bibliotecario, que era sorda, se puso muy triste porque no lograba escuchar lo que contaban los contadores. Fue entonces cuando él tuvo la idea de transformar los sonidos en símbolos. Y así, en un gesto de amor del bibliotecario, inventó la escritura”.

Leyendo en el baño

Con un objetivo similar al de Sumeria, encontramos la biblioteca Ilabhulali Yokuhamba, que en lengua zulú – en la fantasía de Torero – significa “biblioteca ambulante”. Son dos bibliotecas en una: la primera es un montón de libros que el bibliotecario lleva sobre la cabeza por las carreteras de Lesotho para venderlos, prestarlos o regalarlos. La segunda son historias que están dentro de su cabeza, para que las cuente a quienes no saben leer.

Ah, el libro del amigo Torero no puede formar parte de la colección de la Biblioteca de Mérida, cuyas salas de lectura, para satisfacer los gustos de sus visitantes, son estancias privadas con sanitarios, “para que el lector no pierda tiempo yendo al baño, porque ya está en él”. El bibliotecario español Calderón de Mejía reflexiona sobre “el acto de leer durante el desalojo fecal” y señala que “en sus libros siempre faltaban algunas páginas”. Por tanto, el destino de las bibliotecas depende del suministro de papel higiénico.

Tiene sentido. Lévi-Strauss, que pasó por Bolivia en 1938 cuando investigaba en el Archivo Nacional de La Paz, observó a un empleado que corría al baño, pero antes se detuvo en un estante y arrancó varias páginas de un libro, a pesar del acto administrativo del director fijado en un panel informativo transcrito en Tristes Trópicos: “Está estrictamente prohibido arrancar páginas de expedientes para uso sanitario e higiene personal. Los infractores serán severamente castigados”.

La Biblioteca de Rapunzel, en la torre donde fue encarcelada por una bruja, permite discutir la función del libro.  Cuando la niña cumplió quince años esperó que la bruja se fuera y comenzó a tirar libros por la ventana, un volumen sobre otro y así, con excelente puntería, construyó una escalera. Fue gracias a ella que Rapunzel logró escapar. “Moraleja de la historia: los libros traen libertad, inclusive si hay que tirarlos por la ventana”.

Hojeando libros

La lectura puede hacer que una pareja viva junta para siempre, si ambos acuden a la Biblioteca de la isla Akaito, en el Mar de Japón, porque allí “siempre hay dos ejemplares de cada título en estantes diferentes. Cuando dos personas que se aman leen el mismo libro al mismo tiempo acaban casándose. “Sorprendentemente, hay pocos divorcios en Akaito”. La complicidad de la lectura deja la pareja bien firme.

Hay muchas otras, incluida la Biblioteca Monstruosa, que está “especializada en la Historia de la Civilización”, sus usuarios son monstruos espantosos con garras gigantes, que arañan las capas de los libros. El autor no lo dice, pero el lector concluye que hoy la frecuentan Netanyahu, Putin et caterva.

La Biblioteca Khubeis está compuesta únicamente de libros en blanco, ya que la gente de la ciudad no sabe leer, pero como la gente escuchó que “hojear libros es algo que trae respeto y nobleza, la ciudad construyó una inmensa biblioteca que siempre está llena de vanidosos analfabetos. Al parecer – concluyo yo – fue allí donde el ex ministro de Bolsonaro,  Sérgio Moro, leyó las biografías que no recordaba en el programa de TV Conversa con o Bial.

El libro de Torero, ilustrado por el artista Eloar Guazzelli, empezó a aparecer en publicaciones de Facebook, de vez en cuando, con una biblioteca fantástica aquí, otra más fantástica allá, hasta que, en 2023, Padaria de Livros editó una selección que contenía 99 de ellos, que nos sorprenden con multitud de referencias geográficas, históricas y literarias. Un deleite de lectura, que nos da una idea de cómo se construyó la noción de lector, lectura y biblioteca.

Niñas escritoras

Conocí a José Roberto Torero, con quien conviví durante el mes de noviembre de 2018 en la expedición literaria Amazônia das Palavras, que navegó por el río Madeira; compartimos el mismo camarote del barco, que hacía escala en cada ciudad, donde realizamos talleres con alumnos de primaria. Él, en Producción de Cuentos con los niños recreando cuentos infantiles. Yo, contando historias indígenas.

En una de esas historias recopilada por Couto de Magalhães, en 1865, en lengua nheengatu, la Tortuga, amenazada de por el Caimán y el Jaguar, utiliza su inteligencia para provocar una pelea entre las dos bestias y escapa. Moraleja: si tus enemigos son más fuertes que tú, no luches contra ellos de frente, lanza uno contra otro.

Mi nieta Maia, de siete años, recién alfabetizada, escuchó esta historia y mis comentarios sobre Las Bibliotecas Fantásticas en una conversación con su abuela. Entonces reescribió e ilustró la historia a su manera, por iniciativa propia. Con un engrampador, “encuadernó” y “laminó” su libro. Juro que no insinué nada, quiero ver a mi madre muerta en el infierno, quiero que Santa Luzia me ciegue si miento. Ya vendió una copia por R$ 2,00 a su colega de la escuela. Es más inteligente que su abuelo.

Ah, Maia me pidió que convenciera a Torero para que creara, entre sus Fantásticas, la Biblioteca de Niñas Escritoras de la Aldeia Curumim, para guardar allí su producción literaria. Pero por esto no juraré que estuvo libre de mi influencia, porque quiero preservar a mi madre de las garras de Satanás. En cualquier caso, este libro de Torero merece que lo lleven en andas para distribuirlo en todas las bibliotecas reales o imaginarias de este país, incluida la de la Aldeia Curumim.

Aún más “fantástico” es que en nuestro país sólo el 52% de los colegios cuentan con biblioteca o sala de lectura y, cuando se trata de zonas rurales, el porcentaje baja al 26%. Lula acaba de firmar la ley que crea el Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares (09/04), argumentando que “Brasil no quieri ni necesita armas en manos del pueblo, sino seguridad, libros, educación y cultura para sermos un país más justo” Veremos cuál será el resultado de esto para los pueblos originarios.

En el Ciclo de Debate sobre Educación y Pueblos Indígenas, realizado los días 3 y 4 de abril en el SESC Bom Retiro, en São Paulo, relacioné las “Fantásticas” de Torero con las bibliotecas polémicamente catalogadas como indígenas. Allí hablé sobre Bibliotecas Indígenas: lenguaje oral y escrito en una mesa con Cristine Takuá, Sandra Benites y Tatiana Amaral. Resumí las conferencias en eventos en los que participé desde 1997 en México, Venezuela, Colombia, Ecuador, Perú y Argentina.

Referencias

José Roberto Torero. Las bibliotecas fantásticas. San Pablo. Panadería de texto. 2023

Maia Freire Pereira. El jaguar, el caimán y la tortuga. Itaipú. Editorial del autor. 2024

P.D. Agradezco a mis estudiantes de Comunicación y Antropología de las Carreras de Biblioteconomía, Museología y Archivología de UNIRIO, quienes durante más de treinta años me enseñaron mucho sobre el tema, así como a los pueblos indígenas en los cursos de formación intercultural, que me permitieron participar. con ponencias en los siguientes eventos:

“FREIRE, J.R. Bessa: El museo indígena en el proceso de educación intercultural”. 2º Seminário Internacional sobre Lectura en Lenguas Indígenas. Ciudad Bolívar – Venezuela. 1997.

______________La escuela indígena y la biblioteca intercultural en Brasil: Libro construye biblioteca.  Encuentro Latinoamericano sobre la atención bibliotecaria a las Comunidades Indígenas, Mexico 2000. Experiencias de atención bibliotecaria a las comunidades indígenas en los países de Latinoamerica. IFLA/CUIB, In: Maria Del Rocio Graniel Parra. (Org.). 2001, v. 1, p. 27-40.

_____________”La presencia de la literatura oral en el proceso de creación de bibliotecas indígenas en Brasil”. 2º Encuentro Internacional sobre Bibliotecas Públicas. Puerto Vallarta – Jalisco. Mexico. 2003.

_____________ En qué medida es indígena la `Biblioteca Indígena? El caso de Brasil. In: Acceso a los servicios bibliotecarios y de información en los pueblos indígenas de América Latina. Project Report nº 22 – Memorias del Seminário International Federation of Library Associations (IFLA/LAC). Lima.2003. Biblioteca Nacional del Peru.

____________________. Letramento e biblioteca indígena no Brasil – espaços de interculturalidade. IV Congresso Latino-americano Biblioteconomia e Documentação e III Encontro Internacional sobre acesso a serviços bibliotecários em comunidades indígenas da A.Latina. IFLA/FEBAB. Memorial da América Latina. São Paulo (SP). 2008. (Congresso).

______________Interculturalidad y Biblioteca Pública. Quijote y Quimbaya: literacidad y oralidad en la biblioteca intercultural indígena. Bogotá – Colombia. In: I Encuentro de Interculturalidad y Biblioteca Pública. Bogotá. 2009. Memorias del I Encuentro: Ministerio de Cultura. Biblioteca Nacional de Colombia, Bogotá. 2009. v. 1. p. 61-77.

______________ . Te mandei um passarinho: Literatura, oralidad y escritura – Estratégias en la construcción de memorias. II Congreso Nacional de Bibliotecas Públicas organizado por la Biblioteca Nacional de Colombia. Bogotá. 2010.

______________ Lenguas Indigenas en Brasil: la letra y la palabra. In: Endangered Language: Voices and Images Proceedings edited by Marleen Haboud and Nicholas Ostler. City of Bath – England: Foundation for Endangered Languages, Quito. Ecuador. 2011. v. 1. p. 215-219.

_______________. ¿La Letra con sangre entra? Lecturas y Escrituras en comunidades indígenas de Brasil. Primer Encuentro Internacional de Bibliotecas Escolares e 11º Congreso Nacional de Lectura.    Bogotá, Colombia. 2013.

_______________. O Nheengatu e a literatura da floresta. Jornada de Estudos Ermano Stradelli na Amazônia. Memorial da América Latina – SãoPaulo (SP). 2013.

________________.  Procesos de Alfabetización Escolar en Lenguas Nativas. Conferencia de apertura.  II Encuentro Nacional Territorios Narrados Lenguaje Cultura y Educación. Bogotá – Colombia. 2014.

_________________.  Lenguas Indígenas y Resistencia. Nueva Dependencia: Foro Nacional y Latinoamericano. Ministério de Cultura Tucumán – Argentina. 2015.

______________________. Relato de experiência em relação ao espaço museal indígena   Seminário de Revisão Institucional – Memorial dos Povos Indígenas – Brasília DF. 2017.

_________________. Formación Intercultural y diferenciada de profesores de pueblos originarios. Seminario de Educación Artística -Ministerio de las Culturas, las Artes y el Patrimonio de Chile – Temuco. Chile. 2023.

________________. Darcy Ribeiro, el exilio y el descubrimiento de América en el siglo XX. Universidad de General Sarmiento y Biblioteca Nacional. Buenos Aires. 2023. (Seminário).

______________. Bibliotecas Indígenas: oralidade e escrita. Ciclo de Debates Educação e Povos Indígenas. UNIFESP – SESC Bom Retiro, São Paulo. 2024

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