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terça-feira, 18 junho, 2024

Sucessão nos EUA: Trump fecha com China e Rússia pelo multilateralismo e racha o império unitaleratista de Biden

César Fonseca

Os russos, segundo Dmitry Peskov, assessor de Vladimir Putin, parecem ter clara uma certeza: melhor, para a Rússia, ter Trump na Casa Branca que Biden; Trump é homem de negócio, quer negociar com Moscou, aliado de Pequim; sabe que a união dos duas lideranças as tornam imbatíveis em comércio e guerras; afinal, possuem, como os Estados Unidos, bombas atômicas, garantias de que não pode haver vencedores em conflito atômico, enquanto a China é a nova potência comercial do planeta, na articulação com os BRICS.

Trump, convencido de que a armação jurídica contra ele é obra da indústria de guerra, que tem Biden como instrumento fiel,  está de olho na Rota da Seda, da qual quer participar do empreendimento, levando empresas americanas para lucrar nele, o máximo que puder, já que a economia americana está perdendo competitividade para a China, enquanto a destruição, imaginada por Washington, da Rússia vai se tornando quimera.

Não foi alcançado esse objetivo com as sanções comerciais, como pensavam Biden e sua turma da indústria armamentista, como facilitador do assalto a Moscou, para destituir Putin e fracionar território russo, velho sonho geopolítico do ocidente.

O rublo não se verteu ao dólar; pelo contrário, se valorizou e a garantia das matérias primas russas, das quais depende o ocidente, igualmente, estão valorizadas, como petróleo, energia, fertilizantes etc. Se não podem os russos venderem para a Europa, direcionam seu comércio para a Ásia, com destaque para a China, determinada à expansão da nova fronteira comercial ao leste e ao sul, bombeando o BRICS, enquanto o ocidente perde gás para a nova corrida econômica global.

OBJETIVO COMERCIAL TRUPIANO

Trump, claro, quer negociar com russos e chineses, para os Estados Unidos não ficarem para trás, ao mesmo tempo que sabe ser insuficiente o protecionismo que ameaça aplicar aos chineses, impedindo-os de dominar completamente a praça americana e, por extensão, o domínio sobre a América do Sul, onde avança em diversos países, já com amplas vantagens.

Dessa forma, a estratégia de Trump pressupõe mais aproximação americana do que distanciamento da Ásia, onde a influência chinesa, aliada à Rússia e aos BRICS, dispõe de mais chances de emplacar do que uma tentativa de cruzada dos Estados Unidos com Japão e Austrália, visto que ambos não interessam em confrontar com os chineses na região; pelo contrário, percebem que a aproximação com a China é melhor para eles do que o confronto, estimulado por Washington; o mesmo acontece com a Índia, gigante asiático, aliado dos BRICS, com sua geopolítica especial de se tornar, também, superpotência.

É por isso que os trumpistas, segundo raciocínio do assessor de  Putin, Peskov, consideram armação a decisão da justiça americana de tentar detoná-lo, impedindo-o de chegar à Casa Branca por meio de uma instrumentalização jurídica imperialista.

PREFERÊNCIA OCULTA

Há, indisfarçavelmente, preferência oculta de Moscou por Trump, ou não?

Para Joe Biden, o Kremlin está convencido de que a propensão imperialista dele é a de insistir em invadir a Rússia, por meio da Ucrânia, na medida em que obriga a Otan a continuar super-armar o país que, na prática, está destroçado militarmente, depois de, praticamente, dois anos de conflito.

A disposição do chefe da Casa Branca, como se verifica por suas declarações explícitas, é continuar a guerra, envolvendo nela a Europa, vassala dos Estados Unidos, em escala cada vez mais abrangente, depois que a Rússia deixou de fornecer aos europeus as matérias primas de que necessitam, para sobreviver, não por vontade russa, mas por imposição de Washington.

Os americanos fornecem à Europa o que ela precisa, em matéria de energia, pelo dobro ou triplo do preço que se tivessem de comprar de Moscou petróleo, gás, fertilizantes, minerais etc. para ser industrializados pela indústria europeia, a caminho da bancarrota.

O discurso radicalizado da França, da Alemanha e da Inglaterra, para seguirem a política armamentista americana, a fim de armar a Ucrânia, de modo a possibilitá-la continuar lutando com a Rússia, é o jogo preferência da indústria armamentista americana; Biden empurra goela abaixo dos líderes europeus essa estratégia; estão temerosos de futuro sombrio, pois não possuem cacife para enfrentar a China no campo comercial, nem a Rússia no campo militar.

A histórica geopolítica europeia de engolir a Rússia e evitar retorno a um nacionalismo socialista soviético, sintonizado com a China, dominada pelo partido comunista, virou sonho de uma noite de verão.

O discurso europeu mais parece uma farsa do que dotado de firmeza e convicção de que seja essa escalada da Otan contra a Rússia por meio da Ucrânia, na insistência de guerra por procuração, que se revelou fracasso nos dois últimos anos. Putin, com a certeza de que já venceu a guerra híbrida na Ucrânia, armada pelos Estados Unidos e Otan, posiciona-se com discurso radical de que não hesitará em usar armas atômicas, se os ucranianos, armados pelos americanos e europeus, decidirem com essas armas ocidentais alcançarem território russo.

O Kremlin está com o dedo no gatilho de seus mísseis supersônicos, que poderão alcançar qualquer alvo, no planeta, se for atacado pelo império anglo-saxão e europeu.

FINANCEIRIZAÇÃO ESPECULATIVA DETONA OCIDENTE

Ademais, a convicção russa e chinesa e a dos seus demais aliados, os BRICS, é a de que, do ponto de vista econômico, o ocidente está baleado pela financeirização econômica especulativa oligopolizada que o ameaça, algo que se estende desde o crash de 2008. Os ocidentais somente foram salvos graças à expansão monetária sem limites que o império americano decidiu realizar para salvar o sistema financeiro ocidental que, desde então, não tem mais a força de outrora, para continuar dominando a economia internacional sob comando do dólar.

A China e a Rússia, junto com os BRICS, na tarefa de implementar a Rota da Seda, ao longo do século 21, trabalham novo sistema monetário nacional ao largo da hegemonia da moeda americana, abalada pela perda de competitividade global com a China.

Estão em choque o oligopólio privado ocidental comandado pelo capital monopolista, de um lado, e o capital monopolizado estatal, dominado pela China, impulsionada por outra orientação, a do Estado, que domina os bancos e o crédito público, com maiores chances de conquistar do mercado global, ancorado no discurso multilateral.

ADEUS, HEGEMONIA OCIDENTAL

Nesse contexto, a abalada hegemonia americana, comandada por Biden, não conhece outro discurso senão a guerra, com o qual Trump não concorda, pois sua propensão, como homem de negócio, é buscar a alternativa; ele articula novo acordo global, consciente de que o império de Tio Sam não é mais aquela Brastemp.

Não dispondo mais de força para comercializar com as regras que tenta impor para favorecer a expansão imperialista americana, Trump, na Casa Branca, com sua formação dos homens de negócio do mercado imobiliário, disposto a transformar o mundo no espaço para suas atividades, sente que, aos Estados Unidos, chegou a hora não da expansão de novas guerras, mas de uma acomodação com aqueles que alcançam os Estados Unidos e o ameaçam com novo discurso global, multilateral.

O candidato republicano, nesse contexto, é reativo: propende, via política de taxação de importação dos concorrentes, não mais à pregação imperialista exclusivista do unilateralismo; rende-se, por pragmatismo, ao multilateralismo chinês, vitorioso no campo comercial, ainda, rejeitado pelos abutres do Pentágono, que assessoram o gagá Biden, empenhado em instrumentalizar a justiça de Tio Sam para defenestrar seu adversário republicano, nem que seja para jogar os Estados Unidos numa guerra civil, cujo desfecho é incógnita total.

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