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terça-feira, 14 abril 2026

Soberania, geopolítica e o custo da arrogância ocidental no Golfo Pérsico

 Foto: Gage Skidmore/Flickr

Wellington Calasans

A postura de EUA e Israel, ao descredibilizar a diplomacia e apostar na escalada, não apenas falha em alcançar seus objetivos declarados, como fortalece a coesão interna iraniana e a solidariedade entre nações que rejeitam a imposição unilateral.

O respeito à soberania do Irã e ao seu direito legítimo de defesa e desenvolvimento tecnológico não é apenas uma questão de princípio; é uma condição para a estabilidade internacional.

Enquanto o Ocidente insistir em tratar o Golfo Pérsico como seu “quintal estratégico”, continuará colhendo os frutos amargos de sua própria arrogância geopolítica. A paz duradoura – que todos defendem – só será possível quando as relações internacionais forem pautadas pelo respeito mútuo, e não pela lei do mais forte, mesmo que o mais forte não pareça ser o único.

Longe de representar fraqueza iraniana, o impasse, com o fracasso das negociações de paz, expõe as contradições estratégicas de Washington e de seu aliado israelense, que, ao rejeitarem o respeito à soberania alheia, aceleram a erosão de sua própria influência regional.

A retórica belicista, as tentativas de estrangulamento econômico e a volatilidade dos mercados energéticos devem ser lidas não como sinais de força ocidental, mas como sintomas de uma ordem internacional em transição, na qual a autonomia iraniana se afirma como pilar indispensável à estabilidade global.

A suposta ponderação por “ataques limitados” após o fracasso diplomático revela, na prática, a continuidade de uma guerra híbrida disfarçada de dissuasão. Donald Trump, ainda que pareça forte, é compreendido por muitos como um mero brinquedo sionista em todo o processo.

A expressão “limitados” funciona como eufemismo para operações de sabotagem, pressão cibernética e intimidação seletiva, destinadas a projetar uma imagem de controle que a realidade geopolítica já desmentiu. O Irã, todavia, não é ator passivo, pois a sua doutrina de defesa assimétrica e capacidade de retaliação proporcional contra interesses estrangeiros na região transformam qualquer escalada unilateral em risco sistêmico.

A tentativa de isolar Teerã ignora que a segurança do Golfo Pérsico não se constrói sob ameaça, mas sob reconhecimento mútuo de direitos soberanos. Paralelamente, a narrativa de um possível bloqueio norte-americano aos portos iranianos colide frontalmente com a realidade geográfica e militar do Estreito de Ormuz.

Nesse cenário, a ultrapassagem da marca de cem dólares pelo barril de petróleo Brent não é acidente de mercado, mas o reflexo direto do prêmio de risco imposto pela instabilidade gerada por intervenções externas. Países como Irã, Rússia e integrantes da OPEP+ fortalecem mecanismos de pagamento em moedas locais, corroendo a eficácia das sanções unilaterais e consolidando uma arquitetura multipolar.

O petróleo caro, portanto, não enfraquece Teerã. A insistência de Estados Unidos e Israel na escalada militar e no isolamento diplomático não apenas falha em seus objetivos declarados, como reforça a coesão interna iraniana e a solidariedade entre nações que rejeitam a imposição unilateral. Respeitar a soberania do Irã, seu direito ao desenvolvimento tecnológico e sua posição estratégica no Golfo Pérsico não é concessão política, mas condição para a estabilidade internacional.

Enquanto o Ocidente tratar a região como extensão de seus interesses unipolares, seguirá colhendo os frutos de sua própria desconexão com a realidade. A paz sustentável depende muito mais que os atores reconheçam, finalmente, que a era da intimidação como instrumento de governança global chegou ao fim.

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