23.5 C
Brasília
quinta-feira, 23 maio, 2024

Sialat, a bailarina do Caribe e da América Latina

José Bessa Freire

VERSION EN ESPAÑOL ABAJO

– Olhem bem. Não precisa ter muita imaginação para ver como o mapa da América do Sul é alegoria de uma bailarina, que dança sobre o palco gélido da Antártida na ponta dos pés com sapatilhas de bico fino. O Caribe é seu cabelo esvoaçante. A região do Orenoco, sua cabeça. A Amazônia fica exatamente no lugar do seu coração, que bombeia sangue oxigenado para as diversas partes do corpo, além de ser, simbolicamente, o lugar da emoção e do amor.

Não há imagem mais poética do que essa para resumir o que rolou nos três dias do V Seminário Internacional América Latina e Caribe (SIALAT) realizado em Belém de 24 a 26 de abril. O seu autor é José Ángel Quintero Weir, indígena do povo Añuu que habita as águas do Lago Maracaibo, na Venezuela.

Quintero foi um dos 20 representantes estrangeiros no Seminário realizado em várias dependências do Campus da Universidade Federal do Pará (UFPA) por onde, apesar da greve que dificultou ocupar todos os espaços do enorme auditório do Centro de Eventos Benedito Nunes, circularam um total de mais de mil pessoas, entre conferências, mesas-redondas, oficinas, minicursos, grupos de trabalho, sessões de posters e lançamento de livros, segundo a organizadora do evento, Edna Castro, presidenta da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS).

O pré-lançamento de Utopias Amazônicas, livro organizado por Marcos Colón e Lúcio Flávio Pinto, com textos de 18 pesquisadores entre os quais esse locutor que vos fala, foi precedido de um mini show musical do cantor e compositor Nilson Chaves. Vários autores, que resumiram seus artigos com análises sobre a realidade regional, destacaram as propostas de políticas públicas para combater a tragédia social, ética e ambiental da Amazônia e evitar que esse coração da América do Sul cesse de pulsar.

O “bailarinocídio”

Utopias confirmou por exames laboratoriais a insuficiência cardíaca, as doenças vasculares e as queimaduras no corpo da bailarina, diagnosticadas por juntas médicas no Seminárioque registrou as trilhas trágicas percorridas pelo seres vivos da floresta: garimpo,  envenenamento de rios, barragens, incêndios florestais, catástrofe climática, desmatamento, estradas, invasão de territórios indígenas, domínio do crime organizado sobre extensas áreas, fascismofilia, etnocídio, genocídio, glotocídio e desigualdades sociais gritantes.

Debateu-se os remédios em doses prioritárias e emergenciais para evitar o “bailarinocídio”:

1.Zerar o desmatamento, a degradação e o fogo, além de restaurar o que foi destruído.

2.Fortalecer as áreas protegidas onde as florestas resistem, as terras indígenas, quilombolas e ribeirinhas, combatendo sem trégua as desigualdades sociais, o racismo e a homofobia.

3.Instituir a transição para uma bioeconomia amazônica com a floresta em pé e os rios limpos fluindo.

4.Manter a conectividade dos ecossistemas amazônicos, tanto do mundo rural como do urbano.

5.Autenticar compromisso local, regional e local pelo bem-viver na Amazônia, que na realidade é o bem-conviver em um espaço democrático, que deve ser ampliado.

6.Cuidar das línguas ameaçadas de extinção e reconhecer os saberes que nelas circulam entre os povos da floresta, consciente de que a diversidade linguística é a alma da biodiversidade,

A beleza do balé precisa e pode ser preservada com o resumo aqui apresentado em forma de pílulas. Quem assistiu as sessões do seminário saiu com a esperança de que é possível evitar o “bailarinocídio”, mas se faz necessário muita mobilização e luta para não deixar o tal do “mercado” apagar a bailarina do mapa.

Bíblia e palmatória

Muito se discutiu no V SIALAT: o pensamento latino-americano e as rupturas para uma sociologia crítica, a democracia e a conjuntura política, direitos humanos e territórios expropriados, urgências climáticas e COP-30, as utopias e epistemologias, o pensamento indígena face às narrativas coloniais, as cidades e as desigualdades sociais, os megaprojetos e as commodities, a resistência dos movimentos sociais e étnico-territoriais, o letramento racial, o racismo, a racialização e o pensamento decolonial. Por isso, no folder do Seminário, a bailarina está de cabeça para baixo, posição na qual foi colocada pela colonialidade.

Os debates foram reforçados pela visita de diversas “sialatinas” e “sialatinos” à exposição Nhe´ Porã: Memória e Transformação, que fica no Museu Goeldi até 28 de julho, a fim de atender os participantes do Congresso da SBPC, programado para esta data em Belém. Enquanto a versão carioca inaugurada na semana passada no Museu de Arte do Rio (MAR) expôs as árvores das línguas indígenas em madeira, a versão paraense usou tecidos.

Como eu havia emprestado ao MAR uma bíblia traduzida ao guarani e uma palmatória busquei ver seus equivalentes na versão itinerante do Goeldi. Lá, a palmatória de pau-brasil coletada em território Saterê-Mawé é menor e a bíblia está em língua terena,  ambas na vitrine ao lado de um copo vazio simbolizando a cachaça introduzida por não-indígenas e de um maracá sagrado que foi demonizado. Os quatro objetos contam a história de desestruturação sociocultural empreendida pelo colonialismo e a colonialidade.

A colonialidade

O combate à colonialidade presente nos discursos proferidos no V Sialat podem ser sintetizados na conferência de Quintero. Ele usou o conceito de cosmovivência mais abrangente do que cosmovisão para assim transitar entre a cultura ocidental e a cultura indígena radicalmente diferente do pensamento ocidental.

Doutor em linguística e antropologia pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e profundo conhecedor de sua cultura ancestral, Quintero estabeleceu um diálogo entre as duas culturas, entrecruzando o pensamento cartesiano com o do “hermano Davi Kopenawa” e estimulando uma conversa entre Francis Bacon e Ailton Krenak.

– Muitos são os pesquisadores acadêmicos para quem o caminho seguido até hoje pela civilização ocidental está nos conduzindo para o fim da vida no planeta. Começaram então a escutar a palavra de povos cuja sabedoria sobre a trajetória do mundo havia sido silenciada e desperdiçada, defendem agora a necessidade de mudar não apenas a forma de produzir conhecimentos, mas até mesmo a perspectiva ontológica do seu processo – escreveu Quintero.

Ele usa conceitos em língua Añuu como “Eirare – o lugar do sentipensar”, de onde vemos e sentimos com o espírito e com o nosso coração, para poder ver, não apenas com os olhos, mas com o nosso corpo, aquilo que está fora de nós, especialmente a natureza, cuja dessacralização é um crime.

– Ninguém pode ver o vento com seus olhos, mas sabemos que “está” porque é todo nosso corpo que o percebe. Ninguém pode ver os vírus no seu espaço da natureza, dentro das plantas ou animais, mas sabemos que “estão”, não é que “são” pelo seu “ser”, mas que “estão” e é por seu “estar” que nos relacionamos com eles.

O sentipensar

Quintero é autor de vários livros, entre eles “Conocer desde el sentipensar indígena” prefaciado por seu amigo brasileiro Carlos Walter Porto-Gonçalves (1949-2023), que o visitou na comunidade Añuu, onde entrou em contato com o Eirare” e com o “Anain amo katouwa” (o “bem-conviver”) no qual “a palavra floresce”. Enamorado que estava da bailarina, com quem dançou em suas andanças pela América Latina, o prefaciador escreveu em espanhol.

Comprometido com o meio ambiente, a reforma agrária, a luta dos seringueiros, indígenas, quilombolas e ribeirinhos, este geógrafo, ativista e professor habitava o coração da bailarina, que tanto amou e pesquisou e por quem lutou durante a vida inteira. Sentimos sua presença viva no SIALAT. Ele termina o prefácio, talvez o último escrito antes de sua morte ocorrida em setembro do ano passado, com uma homenagem à Ye´pá, a Avó do Mundo, criadora de todos os seres:

– Longa vida aos Añuu em seus territórios de vida, assim como para todos os povos que habitam a Avó Terra.

Referências:

José Ángel Quintero Weir. Conocer desde el sentipensar indígena. Teoria y práctica del conocimiento para la vida. México. Ixim-Universidade Autônoma Indígena (UAIN). 2022 (Prefácio de Carlos Walter Porto-Gonçalves)

Edna Castro et alii. Povos Indígenas do Alto Rio Negro e dominação colonial. Manaus. Valer. 2024

Flávia Marinho Lisbôa. Racismo linguístico e os Indígenas Gavião na Universidade. Língua como linha de força do dispositivo colonial. Salvador. Edufba. 2023 (3ª edição)

Marcos Colón e Lúcio Flávio Pinto (orgs). Utopias Amazônicas. Cotia (SP). Ateliê Editorial. 2024

Violeta Loureiro. Amazônia Colônia do Brasil. Manaus. Valer. 2022.

Zélia Amador de DeusCaminhos trilhados na luta antirracista.  Rio. Autêntica. 2020

Sialat, la bailarina del Caribe y América Latina

Texto: José R. Bessa Freire. Tradução: Consuelo Alfaro Lagorio

– Échale un buen vistazo. No hace falta tener mucha imaginación para ver cómo el mapa de América del Sur es una alegoría de una bailarina, que danza sobre el escenario helado de la Antártida de puntillas y con zapatillas de ballet. El Caribe es el cabello suelto; la región del Orinoco, la cabeza; Amazonía es exactamente el lugar del corazón, que bombea sangre oxigenada a las diferentes partes del cuerpo, además de ser, simbólicamente, el lugar de la emoción y el amor.

No hay imagen más poética para resumir lo que pasó en los tres días del V Seminario Internacional sobre América Latina y el Caribe (SIALAT) realizado en Belém del 24 al 26 de abril. Su autor es José Ángel Quintero Weir, indígena del pueblo Añuu que vive en las aguas del lago de Maracaibo, en Venezuela.

Quintero fue uno de los 20 representantes extranjeros en el Seminario realizado en varias instalaciones del Campus de la Universidad Federal de Pará (UFPA), que contó con conferencias, mesas redondas, talleres, cursos cortos, grupos de trabajo, sesiones de carteles y presentaciones de libros. A pesar de la huelga que dificultó la ocupación de todos los espacios del enorme auditorio del Centro de Eventos Benedito Nunes, circularan un total de más de mil personas, según la organizadora del evento, Edna Castro, presidenta de la Sociedad Brasileña de Sociología (SBS).

El prelanzamiento de Utopías Amazónicas, libro organizado por Marcos Colón y Lúcio Flávio Pinto, con textos de 18 investigadores entre ellos este humilde servidor, fue precedido por un mini espectáculo musical del cantante y compositor Nilson Chaves. Varios autores, que presentan en sus artículos diversos análisis de la realidad regional, destacaron propuestas de políticas públicas para combatir la tragedia social, ética y ambiental de la Amazonia y evitar que este corazón de América del Sur deje de latir.

El “bailericidio”

Utopías confirmó mediante pruebas de laboratorio las insuficiencias cardíacas, enfermedades vasculares y quemaduras en el cuerpo de la bailarina, diagnosticadas por juntas médicas del SIALAT, que registraron los trágicos caminos seguidos por los seres vivos en la selva: minería, envenenamiento de ríos, represas, incendios forestales, catástrofe climática, deforestación, carreteras, invasión de territorios indígenas, dominio del crimen organizado sobre grandes áreas, fascismofilia, etnocidio, genocidio, glotocidio y flagrantes desigualdades sociales.

La discusión sobre medicamentos fue en dosis prioritarias y de emergencia para evitar el “bailericidio”:

1.Poner fin a la deforestación, la degradación y los incendios, además de restaurar lo destruido.

2.Fortalecer las áreas protegidas donde permanecen bosques, tierras indígenas, palenqueras y ribereñas, combatiendo sin descanso las desigualdades sociales, el racismo y la homofobia.

3.Instituir la transición a una bioeconomía amazónica con bosques en pie y ríos limpios fluyendo.

4.Mantener la conectividad de los ecosistemas amazónicos, tanto rurales como urbanos.

5.Autenticar el compromiso local, regional y local por el buen vivir de la Amazonía, que en realidad es convivir bien en un espacio democrático, que debe ampliarse.

6.Cuidar las lenguas en peligro de extinción y reconocer los conocimientos que circulan entre los pueblos del bosque, conscientes de que la diversidad lingüística es el alma de la biodiversidad.

 La belleza del ballet necesita y puede preservarse con el resumen que se presenta aquí en forma de píldoras. Quienes asistieron a las sesiones del seminario salieron con la esperanza de que es posible evitar el “bailericidio”, pero es necesaria mucha movilización y lucha para no dejar que el “mercado” borre a la bailarina del mapa.

Biblia y palmeta

Mucho se discutió en el V SIALAT: el pensamiento latinoamericano y las rupturas hacia una sociología crítica, la democracia y la situación política, los derechos humanos y los territorios expropiados, las emergencias climáticas y la COP-30, las utopías y epistemologías, el pensamiento indígena frente a las narrativas coloniales, ciudades y desigualdades sociales, megaproyectos y commodities, la resistencia de los movimientos sociales y étnico-territoriales, la alfabetización racial, el racismo, la racialización y el pensamiento decolonial. Por eso, en la carpeta del seminário, la bailarina está boca abajo, posición en la que la colocó la colonialidad.

Los debates se vieron reforzados por la visita de varias “sialatinas” y “sialatinos” a la exposición Nhe´ Porã: Memoria y Transformación, que se encuentra en el Museo Goeldi hasta el 28 de julio, con el fin de recibir a los participantes del Congreso de la Sociedad Brasileña para el Progreso de la Ciencia (SBPC), previsto para esta fecha en Belém. Sin embargo, mientras la versión carioca, inaugurada la semana pasada en el Museo de Arte de Río (MAR), expuso árboles de lenguas indígenas en madera, la versión del Pará utiliza telas.

Como había prestado al MAR una Biblia traducida al guaraní y una palmeta, intenté ver la versión itinerante de Goeldi, que también tiene una palmeta más pequeña de palo brasil recolectada en el territorio Saterê-Mawé y una Biblia en lengua terena. Ambas al lado de un vaso vacío que simboliza la cachaza introducida por no indígenas y de una maraca sagrada que fue demonizada. Los cuatro objetos cuentan la historia de la disrupción sociocultural emprendida por el colonialismo y la colonialidad.

Colonialidad

La lucha contra la colonialidad presente en de los discursos pronunciados en el V Sialat se pueden resumir en la conferencia de Quintero. Utilizó el concepto de cosmovivencia, que es más amplio que el de cosmovisión, para moverse entre la cultura occidental y una cultura indígena que es radicalmente diferente del pensamiento occidental.

Doctor en lingüística y antropología por la Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) y con un profundo conocimiento de su cultura ancestral, Quintero estableció un diálogo entre ambas culturas, entrelazando el pensamiento cartesiano con el del “hermano Davi Kopenawa” y estimulando una conversación entre Francis Bacon y Ailton Krenak.

– Muchos son  los investigadores y académicos que han descubierto que la ruta seguida hasta ahora no conduce  a otro destino que no sea el fin de la vida, la de la civilización occidental incluida; entonces, han comenzado  a escuchar la palabra de pueblos cuya sabiduría acerca del caminar del mundo había sido acallada, desperdiciada y empiezan a hablar de la necesidad de dar un giro, un vuelco, no sólo en la forma de producir los conocimientos, sino fundamentalmente, en la perspectiva ontológica de su proceso – escribió Quintero..

Utiliza conceptos en lengua Añuu como “Eirare – el lugar del sentir pensar”, desde donde vemos y sentimos con el espíritu y con el corazón, para poder ver, no sólo con los ojos, sino con el cuerpo, lo que está fuera de nosotros, especialmente la naturaleza, cuya desacralización es un crimen.

– Nadie puede ver el viento con sus ojos, pero sabemos que “está” porque es todo nuestro cuerpo el que lo percibe. Nadie puede ver los virus en su espacio de la naturaleza, dentro de plantas o animales, pero sabemos que “están”, no es que “son” por su “ser”, sino que “están” y es por su “estar” que nos relacionamos con ellos.

El sentipensar

Quintero es autor de varios libros, entre ellos “Conocer Desde el Sentipensar Indígena” prologado por su amigo brasileño Carlos Walter Porto-Gonçalves (1949-2023), quien lo visitó en la comunidad Añuu, donde entró en contacto con “Eirare” y con el “Anain amo katouwa” (la “buena convivencia”) en el que “florece la palabra”. Enamorado de la bailarina, con quien bailó en sus viajes por América Latina, escribió el prefacio en español.

Comprometido con el medio ambiente, la reforma agraria, la lucha de los caucheros, los indígenas, los quilombolas y los ribereños, este geógrafo, activista y docente habitó el corazón de la bailarina, al que tanto amó e investigó y por la que luchó durante toda su vida. Sentimos su presencia viva en el SIALAT. Termina el prefacio, quizá el último escrito antes de su muerte en setiembre del año pasado, con un homenaje a Ye’pá, la Abuela del Mundo, creadora de todos los seres:

– Larga vida a los Añuu en sus territorios de vida, así como a todos los pueblos que habitan la Abuela Tierra.

Referências:

José Ángel Quintero WeirConocer desde el sentipensar indígena. Teoria y práctica del conocimiento para la vida. México. Ixim-Universidade Autônoma Indígena (UAIN). 2022 (Prefácio de Carlos Walter Porto-Gonçalves)

Edna Castro et aliiPovos Indígenas do Alto Rio Negro e dominação colonial. Manaus. Valer. 2024

Flávia Marinho LisbôaRacismo linguístico e os Indígenas Gavião na Universidade. Língua como linha de força do dispositivo colonial. Salvador. Edufba. 2023 (3ª edição)

Marcos Colón e Lúcio Flávio Pinto (orgs). Utopias Amazônicas. Cotia (SP). Ateliê Editorial. 2024

Violeta LoureiroAmazônia Colônia do Brasil. Manaus. Valer. 2022.

Zélia Amador de DeusCaminhos trilhados na luta antirracista. Rio. Autêntica. 2020

Fotos de Manuela Almeida André, Amazônia Latitude e Marcos Colón

ÚLTIMAS NOTÍCIAS