Foto: Antônio Paulo/ABC Amazonas
Por: Wagner França
A disputa que se desenha para o segundo turno de 2026 não é uma disputa entre dois candidatos, mas entre dois projetos de classe. De um lado, a candidatura de Flávio Bolsonaro expressa o programa mais reacionário do capital financeiro e do agronegócio: privatizações, flexibilização das relações de trabalho, ataques ao funcionalismo e a promessa de usar a máquina do Estado para blindar o clã e seus aliados. Do outro, a candidatura de Lula, com todos os seus limites, representa a continuidade possível de um espaço de respiro democrático e de disputa social. Entre esses dois campos, a esquerda revolucionária não pode se refugiar na neutralidade.
As pesquisas de opinião indicam um cenário de acentuada incerteza. Levantamentos do Datafolha chegaram a apontar tanto uma vantagem de Lula quanto um empate técnico ou uma dianteira de Flávio Bolsonaro em diferentes momentos da campanha. A oscilação, por si só, revela a fragilidade do campo democrático e popular. Não se trata de alarmismo: trata-se de reconhecer que a extrema direita, mesmo com seu principal líder preso, mantém uma base social organizada, maioria no Congresso e capilaridade nos estados. Um governo de Flávio Bolsonaro não seria apenas mais um governo neoliberal. Seria um governo que combinaria ajuste fiscal permanente com uma ofensiva autoritária contra os movimentos sociais, os sindicatos e os direitos conquistados na Constituição de 1988.
É por isso que a defesa do voto em Lula no segundo turno constitui uma posição tática, e não uma conversão ideológica. O PSTU, a CSP-Conlutas e outras organizações da esquerda classista já explicitaram essa orientação: voto crítico, sem apoio político ao governo e sem abrir mão da independência de classe. A fórmula é precisa porque nomeia o que está em jogo. Não se vota em Lula por convicção nos rumos do seu governo, mas porque a derrota da extrema direita é uma condição elementar para que a classe trabalhadora preserve as condições de continuar lutando.
Seria desonesto ignorar as contradições do governo Lula. A aliança com setores do grande capital, a política fiscal ortodoxa, a submissão a um Congresso conservador e a dificuldade de avançar em pautas estruturais são limites reais, não invenções da oposição de esquerda. O próprio PSOL, ao defender o apoio tático, deixa claro que não apoiou o arcabouço fiscal, nem a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, nem o quietismo diante da chantagem da maioria reacionária no Legislativo. Reconhecer esses limites, no entanto, não pode servir de argumento para a abstenção ou para o voto nulo. A neutralidade diante da extrema direita não é uma posição revolucionária; é uma posição que, na prática, favorece o campo mais reacionário.
A história recente da América Latina oferece lições duras. Onde a esquerda se fragmentou ou subestimou a ameaça da direita radical, o resultado foi o retrocesso profundo nas condições de vida e de organização popular. A vitória eleitoral sobre a extrema direita não supera o capitalismo, mas pode preservar um terreno democrático sem o qual qualquer projeto de transformação social se torna inviável. Como argumenta Valério Arcary, não é possível derrotar a extrema direita sem Lula, e a esquerda radical deve agir com responsabilidade histórica, combinando o apoio tático com a preservação de sua autonomia programática.
O voto em Lula no segundo turno, portanto, não encerra a disputa; apenas a desloca para um terreno menos hostil. A tarefa da esquerda revolucionária é votar sem ilusões e, no dia seguinte, voltar às ruas, aos sindicatos, às universidades e aos territórios para disputar a consciência da classe trabalhadora. A vitória sobre o bolsonarismo nas urnas deve ser acompanhada da construção de uma alternativa política independente, enraizada nos movimentos populares e capaz de enfrentar tanto o capital quanto as ilusões de conciliação. Votar em Lula, com crítica e sem subordinação, é o primeiro passo de uma batalha que continua.



