Não sabemos o que teria acontecido se aqueles homens de farda tivessem dito sim. História não tem botão de voltar para a gente testar a outra possibilidade. Talvez Lula estivesse preso, talvez morto. Talvez Alckmin também. Talvez Moraes tivesse sido sequestrado ou assassinado, como previa o plano. Talvez o Supremo tivesse sido fechado, ocupado ou transformado numa espécie de decoração institucional para dar aparência de normalidade ao novo regime, como aliás aconteceu com o golpe de 1964. Talvez muita gente que hoje discursa em defesa da liberdade estivesse pedindo liberdade do lado errado.
E André Mendonça, que hoje está no centro da investigação, também recebeu Vorcaro em seu gabinete. Confirmou o encontro e explicou que o assunto eram precatórios, com participação do Ministério Público. Isso, por si só, não transforma Mendonça em corrupto nem prova qualquer irregularidade. Mas também não deveria transformá-lo em alguém acima da pergunta: quanto custaram os ternos presenteados a ele por Vorcaro? Se a proximidade com Vorcaro precisa ser explicada quando envolve um ministro, precisa ser explicada quando envolve qualquer ministro.
É aí que aparece uma palavra meio antiga, quase fora de moda nestes tempos de advogado de defesa para tudo: moralidade. Não estou falando de moralismo, aquele negócio de apontar o dedo para os outros enquanto escondemos a mão no bolso.
É verdade que o espetáculo atual está longe de ser bonito. O Supremo está dividido. Ministros trocam acusações. A Polícia Federal foi colocada no meio de decisões conflitantes. Há disputas sobre quem pode investigar quem. Há decisões que são contestadas e decisões que são revistas. Há documentos públicos e documentos ainda protegidos pelo sigilo. Há suspeitas que precisam ser apuradas e versões que precisam ser confrontadas. Nada disso é bonito.