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Cuba

Postado em 31/03/2016 4:32

‘Sanções econômicas contra Cuba afetam categorias mais vulneráveis da população’

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Adital

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Voice of America: Remontemos um pouco na história. Mais de meio século de ruptura diplomática. Pode nos recordar as datas chave desse conflito entre os dois países?

Salim Lamrani: Convém recordar que o diferendo que opõe os Estados Unidos a Cuba remonta-se ao século XIX, pois a ilha foi o primeiro objetivo da política exterior de Washington. Os Pais Fundadores sempre viram Cuba como o apêndice natural a ser agregado à União Americana. Thomas Jefferson falou disto em 1805. Conhecemos também a teoria da “fruta madura”, de John Quincy Adams.

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Salim Lamrani analisa historicamente relação entre Cuba e EUA.

No século XX, durante o período republicano, os Estados Unidos apoiaram a ditadura militar de Fulgencio Batista e se opuseram à chegada ao poder de Fidel Castro, muito antes de que em 1959. Permita-me citar Allen Dulles, então diretor da CIA, em dezembro de 1958: “Temos que impedir a vitória de Castro”.

Quando Fidel Castro chegou ao poder, em 1959, enfrentou imediatamente a hostilidade dos Estados Unidos, que acolheram, em um primeiro momento, todos os dignitários do antigo regime e que impuseram, em seguida, sanções econômicas contra Cuba. Permita-me recordar a constatação lúcida do antigo presidente John F. Kennedy, que declarou o seguinte: “Devíamos ter dado a Fidel Castro boas vindas mais calorosas. Isto teria nos evitado muitos problemas”.

VOA: Avancemos um pouco. Rapidamente, se impôs o embargo. Qual era a situação naquele momento?

SL: Os Estados Unidos impuseram sanções econômicas a Cuba a partir de 1960. É importante recordar que a retórica diplomática de Washington para justificar a hostilidade contra Cuba evoluiu segundo as épocas. Em 1960, quando Eisenhower impôs as primeiras medidas de agravo econômico, evocou o processo de expropriação e nacionalização das empresas estadunidenses. Depois, Kennedy evocou a aliança com a União Soviética para justificar a imposição de sanções econômicas totais, em 1962. Nos anos 1970 e 1980, Washington aludiu ao intervencionismo de Cuba na África, em apoio aos movimentos independentistas. Desde 1991 e do desmoronamento da União Soviética, os Estados Unidos justificam a manutenção de uma política hostil contra Cuba evocando a democracia e os direitos humanos.

É importante, então, recordar que esta retórica flutuou segundo as épocas.

Hoje, o presidente Obama faz uma constatação muito lúcida sobre a política dos Estados Unidos. Deu-se conta de que era ineficiente. É obsoleta, pois remonta à época da Guerra Fria.

VOA: Cuba é ainda esse bastião comunista da Guerra Fria?

SL: A América Latina tem mudado desde meio século. Desde sempre Cuba é uma sociedade diferente, com um sistema político e um modelo social distintos dos Estados Unidos. Há, evidentemente, duas concepções completamente diferentes da democracia. Os dois presidentes as destacaram durante a coletiva de imprensa.

Creio que Washington compreendeu que é necessário basear as relações com Havana em um princípio de reciprocidade, de entendimento cordial e de diálogo. A política de hostilidade fracassou.

Hoje em dia, há uma maioria na opinião pública dos Estados Unidos que está a favor de uma normalização das relações com Cuba. Isto supera a oposição democratas/republicanos. Muitos estados com maioria republicana, particularmente no Meio Oeste, desejam ter relações normais com Cuba, por razões econômicas evidentes.

VOA: Ainda existe o embargo e, a partir de um ponto de vista econômico, pode ser que demore a cair. Quais serão as consequências para a ilha se o processo que impulsiona Barack Obama não chegar a uma conclusão?

SL: As sanções econômicas constituem o principal obstáculo para o desenvolvimento do país. A imensa maioria da comunidade internacional as condena de maneira unânime. Em outubro de 2015, pelo 24º ano consecutivo, 191 de 193, inclusive os mais fiéis aliados dos Estados Unidos, exigiram de Washington uma mudança na sua política e a queda dessas sanções.

As razões são evidentes. Essas sanções são anacrônicas, pois remontam à Guerra Fria. São cruéis porque afetam as categorias mais vulneráveis da população cubana e não os dirigentes. Finalmente, são ineficientes na medida em que o objetivo inicial de derrocar a Revolução Cubana foi um fracasso.,

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Raúl Castro, presidente cubano, cumprimenta Barack Obama durante a visita recenté do presidente estadunidense à Ilha.

A constatação atual é edificante: em vez de isolar Cuba na cena internacional, essas sanções isolaram os Estados Unidos.

O presidente Obama tem adotado medidas construtivas relativas à derrubada de algumas restrições. Mas, lamentavelmente, as sanções continuam vigentes. É verdade que o obstáculo está no Congresso, mas creio que é marginal. O presidente dos Estados Unidos, como chefe do Poder Executivo, dispõe de todas as prerrogativas para desmantelar 90% dessas sanções. Há muito poucos setores em que ele não pode tocar.

VOA: Está de acordo em que Barack Obama tomasse uma decisão histórica mesmo que o futuro de Cuba suscite ainda muitas interrogantes?

SL: Sem dúvida. O presidente Obama colocou fim a uma anomalia histórica. Estabeleceu o laço com o povo cubano. Reconstruiu o ponto rompido em 1959 e creio que marcará a história sendo o presidente que terá adotado o enfoque mais construtivo para resolver um diferendo que remonta a mais de meio século. Se há algo que devemos recordar da Presidência de Barack Obama é o processo de normalização das relações com Cuba.

*Doutor em Estudos Ibéricos e Latino-Americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, Salim Lamrani é professor titular da Universidade de La Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Seu último livro se intitula Cuba, the Media, and the Challenge of Impartiality, New York, MonthlyReviewPress, 2014, com um prólogo de Eduardo Galeano. http://monthlyreview.org/books/pb4710/ Contato:[email protected]; [email protected]

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http://www.voaafrique.com/media/video/washington-forum/3253159.html?z=3039&zp=1

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