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segunda-feira, 20 maio, 2024

Rússia, China e Irã não questionam soberania do Brasil na Amazônia, países da OTAN sim, diz militar

Foto Valter Campanato/Agência Brasil
Sputnik – A Sputnik Brasil conversou com especialista militar para saber como estão as relações do Brasil com seus aliados, de que forma a política externa brasileira está conduzindo seus interesses nacionais com esses parceiros e quais diretrizes podem surgir caso um governo de oposição comece em 2023.
Diante da crise econômica mundial gerada pela pandemia de COVID-19 e, logo em seguida amplificada pelo conflito entre Rússia e Ucrânia, as cadeias globais de valor estão sofrendo um grande impacto, levando diversos paíse a correrem contra o tempo para se reorganizarem diante do turbilhão.
No caso do Brasil não é diferente, o país busca fazer novas alianças ou fortalecer as existentes com aliados antigos a fim de manter seu fluxo de produção, principalmente agrícola.
No histórico de aliados brasileiros, os EUA sempre tiveram muita influência em no país e algumas vezes exerceram protagonismo tão profundo que impactaram políticas internas brasileiras. No entanto, essa parceria, mesmo após a Cúpula das Américas deste ano, se encontra enfraquecida.
Para Robinson Farinazzo, especialista militar e oficial da reserva da Marinha do Brasil entrevistado pela Sputnik Brasil, o governo do presidente, Jair Bolsonaroteve duas fases com Washington: a primeira aconteceu quando o ex-presidente, Donald Trump, ainda estava no comando do país. Pela ligação do mandatário brasileiro com o homólogo norte-americano, a relação Brasil-EUA estava mais fortalecida.
Presidente da República Jair Bolsonaro, durante encontro com o Presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden, na Cúpula das Américas, 9 de junho de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 23.08.2022
Presidente da República Jair Bolsonaro, durante encontro com o Presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden, na Cúpula das Américas, 9 de junho de 2022
Após a entrada de Joe Biden começou uma nova fase, agora não tão próspera, uma vez que a agenda do democrata não se alinha com a de Bolsonaro. Na visão de Farinazzo, Biden só não está tão focado na Amazônia porque há outras questões em destaque.

“Biden só não está arrumando mais problemas com a nossa soberania na Amazônia porque está muito ocupado com a crise em Taiwan e na Ucrânia.”

Ações que evidenciariam essa comunicação mais travada seriam as visitas feitas por autoridades-chave do governo estadunidense ao Brasil, como a do diretor da CIA, William Burns; do conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan; da subsecretária de Estado, Victoria Nuland, entre outras, toda essa movimentação em sequência e em poucos meses mostra que “de certa forma, o Partido Democrata, tem seus percalços em relação ao presidente Bolsonaro“, afirma o comandante.

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Com certos contrastes e oposições, o governo federal percebeu que precisava buscar outros mercados e novas alianças, e para o comandante, Bolsonaro acertou em fortalecer seus laços com Moscou.
“Ele [Bolsonaro] fez uma reaproximação com a Rússia de forma saudável e pragmática, não deixando os EUA de lado. Acredito que caso seja reeleito, ele mantenha esse pragmatismo até o final do governo Biden pelo menos […], mas acredito que o governo Bolsonaro deve buscar afinar relações com a Rússia e o BRICS no geral”, analisa.
Farinazzo também aponta que a parceira do Ocidente (EUA-Europa principalmente) é impositiva com o Brasil, faz pressão sobre a Amazônia, enquanto os países-mebros do BRICS não interferem em assuntos internos de seus integrantes.

“No dia 3 de dezembro de 2021, a Rússia vetou no Conselho de Segurança da ONU uma resolução climática que poderia gerar sérios problemas à soberania da nossa Amazônia”, relembra.

Ao mesmo tempo, o comandante frisa que os países do Ocidente, “representados” pela OTAN na crise ucraniana, são as mesmas nações que questionam a soberania da Amazônia, portanto, o Brasil precisa ter cuidado e não identificar a aliança militar com sendo parceira.
“Não estou dizendo que devemos nos alinhar à Rússia na questão ucraniana […], nós estamos mantendo uma posição de neutralidade como sempre tivemos diante de todos os conflitos, mas não devemos esquecer das pretensões dos países líderes da OTAN em relação à nossa Amazônia. Precisamos olhar esses interesses predatórios dos países-membros da Aliança Atlântica. Irã, Rússia e China nunca fizeram pressões nem questionaram nossa soberania na Amazônia.”
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O primeiro enviado especial da China ao Chifre da África, Xue Bing, centro-esquerda, ouve o conselheiro de segurança nacional da Etiópia, Redwan Hussein, falar no pódio durante uma conferência de imprensa em Adis Abeba, Etiópia, 20 de junho de 2022
Indagado sobre como os EUA podem reagir à visível aproximação entre países da América do Sul e da África com China e Rússia, Farinazzo acredita que, após anos de relegação norte-americana sobre essas regiões, agora, Washington precisa fazer “contrapartidas para esses países ou vai acabar perdendo a influência nessas duas regiões que estão cada vez mais ganhando notoriedade”.
“Atualmente, no campo militar há a Rússia, mostrando todo seu poderio militar, tem também a China, mas sua relevância é ainda mais forte no campo comercial [neste tópico]. Pequim é um competidor fora de série, o qual os EUA não tiveram [igual] nem na época da União Soviética […] portanto, o país norte-americano precisam encontrar alternativas ou vão perder estes mercados”, analisa.

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E se Lula for eleito?

Para o especialista, caso não haja uma reeleição do atual governo e entre o ex-presidente Lula para ocupar o cargo mais alto do Planalto, em matéria de política externa, como o petista pode vir a conduzir o assunto “é uma incógnita”.
“Se formos lá atrás, foram durante os anos do PT [no poder] que o acrônimo BRICS começou a fazer sentido […], mas temos que lembrar também, nos últimos meses, o ex-presidente teve uma aproximação muito grande com a União Europeia, então não sabemos para onde ele vai”.
Contudo, o comandante acredita que pelo perfil mais pacificador do petista, “ele deve tentar tirar o que der de todos os lados”.
“Acontecendo um continuísmo do governo Bolsonaro ou se o Lula voltar, acho que a relação com o BRICS não vai dar marcha à ré, ela só tem um caminho que é seguir em frente porque os fatos vão acabar se impondo”, disse o especialista.

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