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terça-feira, 18 junho, 2024

Roger Waters e os “sionistas de esquerda”

Roger Waters, mensagem de amor em Frankfurt (Reprodução redes sociais)

Por Jair de Souza

Na semana passada, fomos surpreendidos por uma nota com pesadas críticas ao cantor e compositor inglês Roger Waters publicada em vários órgãos de imprensa em nome de um coletivo autointitulado Sionistas de Esquerda.

Como já é habitual no tratamento dispensado pelos tais “sionistas de esquerda” àqueles que não compactuam com seus postulados em defesa da manutenção das estruturas do sionista Estado de Israel, Roger Waters foi implacavelmente tachado de antissemita, uma designação que, entre os adeptos do sionismo, equivale a uma condenação inapelável à morte no plano moral e espiritual.

O que fez Roger Waters de tão grave para ser merecedor de uma desqualificação condenatória tão significativa como a de estar vinculado ao antissemitismo? O que aconteceu foi que ele se atreveu a traçar uma equivalência entre as discriminações vigentes no Estado de Israel em relação ao povo palestino com aquelas que existiam em detrimento dos judeus na Alemanha hitlerista. Em outras palavras, Roger Waters foi acusado de antissemita por haver se manifestado contra aquilo que ele considera uma perseguição de tipo nazista praticada pelo Estado de Israel contra o remanescente da população palestina que persiste em viver naquela região.

É justo ou aceitável considerar que os que condenam as políticas discriminatórias adotadas pelo Estado de Israel em relação ao povo palestino sejam catalogados pelos sionistas como antissemitas? Não é possível responder a esta indagação sem ter clareza de como se deu o processo que levou à criação de um estado nacional judaico composto e controlado majoritariamente por pessoas provenientes de países europeus em uma zona do Oriente Médio que vinha sendo habitada há milhares de anos por aqueles que atualmente chamamos de palestinos.

Para situar esta questão historicamente e de modo comparativo, antes de avançar com o tema específico do Estado de Israel, vamos nos recordar de um acontecimento de características semelhantes ocorrido em outra região do planeta.

No século XIX, numa tentativa de amenizar os transtornos ocasionados pela presença de negros escravizados no território dos Estados Unidos, várias organizações foram criadas com o objetivo de facilitar e viabilizar a remoção do maior número possível dessas pessoas do solo estadunidense para um ponto na costa oeste do continente africano.

Foi a partir dessas iniciativas que se fundou o país que viria a ser posteriormente denominado Libéria, ou seja, um Estado erguido em plena África Ocidental sob a liderança e o controle de ex-escravos provenientes dos Estados Unidos. Porém, uma perguntinha se faz necessária: O que deveria ser feito com aquelas pessoas que já habitavam há muito tempo aquele espaço que viria a se tornar a Libéria? Por que suas terras, suas riquezas naturais e sua governança teriam de passar ao controle de gente que não era dali? Deveriam eles se submeter passivamente a uma nova casta de dominadores provenientes de outras terras?

É verdade que os recém chegados tinham sido vítimas das horrendas atrocidades da escravidão. Mas, seus algozes eram escravocratas estadunidenses de pura cepa europeia, e não ninguém dos locais para onde eles estavam sendo levados.

Entretanto, os que acabavam de chegar para impor seu domínio sobre as populações originárias e se assenhorar de todas as terras existentes também tinham a pele negra, pois descendiam de gente que tinha sido retirada à força da África e levada para a América para sofrer os horrores da escravidão. Até hoje, eles constituem a camada de elite dominante da Libéria, aquela parcela minoritária que subjuga e explora a ampla maioria dos restantes.

Muita gente pelo mundo afora expressa indignação com esta situação de descarada colonização comandada por ex-escravos. Não deveríamos entender essa recusa em concordar com a subjugação e desapropriação dos habitantes originais como um ato de racismo, uma vez que os novos colonizadores têm a pele negra e foram vítimas de fortes sofrimentos?

Na verdade, por mais bem intencionados que pudessem ser, a principal consequência da atividade dos defensores da proposta de suavizar o problema da escravidão em território estadunidense com a remoção de negros para o continente africano, na prática, foi a transferência do ônus pelos danos que lhes tinham sido infligidos a quem não tinha nenhuma responsabilidade pelos mesmos. Em outras palavras, com o pretexto de aliviar as agruras daqueles seres humanos que o colonialismo tinha transformado em mercadorias nos Estados Unidos, criaram-se novas vítimas de um colonialismo de novo tipo em plena África.

E, convenhamos, mostrar-se contrário à dominação imposta por essa nova elite oriunda dos Estados Unidos, que ocupou e usurpou as terras, os bens e os direitos dos povos africanos originários, não deve ser entendido como racismo de nenhuma espécie, muito embora os usurpadores tivessem a pela escura e ascendência africana.

A maneira justa de sanar os crimes praticados contra aqueles que tinham sido levados à força para exercer o trabalho escravo na América do Norte deveria ter sido um ressarcimento amplo e generoso em favor das vítimas, por conta de seus vitimários. No entanto, enveredou-se por uma trilha que conduzia ao transpasso do problema a quem nada tinha a ver com seu surgimento. Estamos diante de um modo flagrante de pagar por seus próprios crimes com o sangue alheio.

Este paralelo traçado com o caso da Libéria visa facilitar nossa compreensão sobre como grupos de colonialistas se dedicaram à busca de soluções que pudessem amenizar as crises vivenciadas no interior de sociedades europeias, sem se atrever a atacar as estruturas que davam sustentação a esses sistemas. Para isso, recorreu-se a projetos também inerentemente colonialistas.

A violenta perseguição desatada contra enormes contingentes de judeus que habitavam toda a Europa na primeira metade do século passado não foi originada nem executada por elites ou povos do Oriente Médio, da Ásia ou da África. Os sérios problemas que afligiram as massas judaicas durante cerca de dois milênios foram causados principalmente pelos europeus. O surgimento e crescimento do movimento sionista se deve em grande medida a esta faceta relacionada com a discriminação vivenciada pelas massas judaicas nos países europeus até o evento da Segunda Guerra Mundial.

Precisamos recordar que, até as primeira décadas do século XX, havia na Europa um número expressivo de pessoas de origem judaica. Em sua grande maioria, tratava-se de gente que vivia do trabalho assalariado. Boa parte deles tinha aderido a ideais da luta pela emancipação da classe trabalhadora do jugo da exploração capitalista. Por isso, como sabemos, muitos dos líderes dos movimentos trabalhistas europeus do início do século passado tinham ascendência judaica.

Foi nessa situação de turbulência e riscos para a persistência do sistema capitalista que aflorou aquilo que viria a ser posteriormente conhecido como fascismo, do qual o nazismo representou sua vertente de características alemãs. Desde seus primórdios, os nazistas-fascistas se deram conta da importância de apelar para algum grupo social que pudesse ser instrumentalizado como bode expiatório para todos os males que as crises capitalistas engendravam. Por então, na Alemanha e em várias outras regiões da Europa, os judeus foram transformados no protótipo do inimigo comum a ser combatido. Isso só foi possível porque havia por ali naquele tempo um número significativo de pessoas que se identificavam como judias. Em vista disto, seria mais factível levar as grandes massas a absorver as mensagens das campanhas comunicacionais que visavam sedimentar no imaginário coletivo a ideia da responsabilidade dos judeus por todos os males padecidos pela sociedade em conjunto.

Aproveitando-se desse quadro, ao final da Segunda Guerra, os principais expoentes do sionismo atuaram em sintonia com os interesses de vários outros setores das classes dominantes no sentido de eliminar da Europa aquele fator de conflito social representado pelo elevado número de pessoas de ascendência judaica. Em vista disto, de maneira análoga ao que tinha sucedido no caso da remoção de negros dos Estados Unidos para a criação da Libéria, o movimento sionista ganhou força em seu objetivo de transferir uma significativa parcela da população judaica da Europa para a região da Palestina. Ao mesmo tempo que atenuava os conflitos intraeuropeus, os europeus identificados como judeus iriam ocupar uma região estratégica para os interesses das potências capitalistas ocidentais sob o guarda-chuva de um movimento que atuava em completa sintonia com esses objetivos.

Uma vez mais, cabe fazer a pergunta: O que os povos que já estavam por ali há milhares de anos deveriam fazer?

Como no caso estadunidense-africano citado mais acima, há na atualidade certos grupos de pessoas que expressam mais sensibilidade sobre as horripilantes condições de vida impostas pelo Estado de Israel àqueles que resistiram aos violentos processos de expulsão e extermínio praticados pelos sionistas desde o primeiro dia da constituição de seu estado. Estamos nos referindo a esses que se identificam com “sionistas de esquerda”.

Diferentemente dos sionistas comuns, que não vacilam em propor abertamente a expulsão completa e o extermínio puro e simples dos palestinos que ainda permanecem naquele espaço, nossos “sionistas de esquerda” demonstram querer encontrar alguma fórmula que venha a aliviar a penúria sofrida por essa gente discriminada.

Não obstante, os tais “sionistas de esquerda” se opõem resolutamente a que se formule qualquer questionamento às estruturas que dão amparo a esse Estado de Israel, um estado desenhado de e para os judeus. Eles até concordam com que sejam feitas algumas concessões que suavizem a extrema crueldade com a qual o sistema de apartheid imperante em Israel trata os povos originários não-judeus. Mas, não admitem em hipótese alguma que se ponha em cheque o sistema colonialista que o engendrou naquela região onde antes tínhamos a Palestina.

Segundo o renomado historiador israelense Ilan Pappe, um “sionista de esquerda” se enfrenta com uma contradição insolúvel. É simplesmente impossível ser verdadeiramente de esquerda querendo preservar as bases estruturais impostas pelo colonialismo. Não existe o “colonialista de esquerda”.

Portanto, a violenta reação desses “sionistas de esquerda” à atitude do músico Roger Waters em defesa da causa palestina é intrinsecamente um comportamento reacionário, de direita. Assim como os nazistas-fascistas precisam de um inimigo comum para aglutinar suas hostes, para os sionistas (inclusive os ditos de esquerda) esse alvo comum se obtém a partir da designação de “antissemita” atribuída a todos os que não aceitam seus posicionamentos.

Mesmo que se possa argumentar que é um exagero comparar o nazismo hitlerista (com seus campos de concentração e extermínio) com o deplorável sistema de apartheid em vigor no Estado de Israel, em essência, a comparação não é inteiramente fora de propósito. Para todos os efeitos, a posição de Roger Waters expressa aquilo que todo humanista verdadeiramente de esquerda deveria sempre considerar como sua obrigação mais entranhável: assumir sem hesitação a causa dos mais humildes diante da opressão dos poderosos. E entre o povo palestino e o Estado de Israel não há nenhuma dúvida de quem simboliza o opressor e quem é o oprimido.

* Jair de Souza é economista formado pela UFRJ; mestre em linguística também pela UFRJ.

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