César Fonseca
Economista é um ser vacinado pelas façanhas do dinheiro, predisposto, no momento, a todas as conjecturas diante da decisão política do presidente Lula de renegociar as dívidas de quem ganha até 5 salários mínimos.
Dinheiro na mão de banqueiro, segundo entendimento dele, transforma-se em dinheiro adicionado que, por se ampliar em volume, pode diminuir ou aumentar a taxa de juro, dependendo dos riscos de conjuntura existente.
A conjuntura atual, de guerra, como se sabe, gera expectativas negativas, permanentes.
Por isso, tomar dinheiro emprestado é sempre risco crescente, jamais, decrescente.
O juro de 1,99% que os bancos emprestarão para trocar dívidas velhas por dívidas novas, de acordo com o Renova 2, lançado por Lula, não é barato.
Prá começar, vale o dobro da inflação de 0,88%, em março, por exemplo.
Em 12 meses, alcança cerca de 27%.
Diante de inflação de cerca de 5%, com tendência a subir, por conta da crise dos combustíveis, gerada pela guerra, a pancada jurista é razoavelmente, forte, embora, bem abaixo dos 60%, no mínimo, que vinham sendo cobrados e, por serem exagerados, deixados de serem pagos.
Daí a renegociação.
O credor do empréstimo irá com mais tranquilidade às compras, que ficarão, relativamente, mais baratas ou mais cara, a depender do jogo da oferta e da demanda .
Inquestionavelmente, a economia, com injeção de mais dinheiro em circulação, apresentará mais giro.
Giro de dinheiro produz mais empréstimos na circulação de mercadoria, que produz seu próprio crédito.
Então, é de se prever que, nos próximos meses, a circulação econômica ganhará maior dinamismo, enquanto durar o contrato entre o banco e o devedor.
Depois do prazo vencido e, se liquidado, de forma satisfatória, do ponto de vista do banqueiro, este, novamente, buscará emprestar mais.
BANQUEIRO = CARUNCHO
Afinal, banqueiro é igual a caruncho.
Carunho tem que carunchar.
Banqueiro tem que emprestar.
No giro dos negocios posteriores, ao primeiro realizado, a taxa de juro, tende a ser renegociada, se o devedor não pagar em dia, atrasando e sendo, consequentmente, obrigado a pagar mais pelo que pegou.
Se a economia ganhar tração, com os negócios se multiplicando, no cenário do juro mais baixo, a capacidade de pagamento do devedor estará assegurada, se ele não exagerar no crédito.
Este tende a se tornar mais caro, se o pagamento se atrasa, por uma ou outra razão, dada pelas expectativas econômicas.
O cenário econômico é um fenômeno em movimento que depende, no atual momento, das circunstâncias internacionais, dada pela guerra.
O problema central que se vislumbra é o de inflação ascendente, no rítmo do custo dos combustíveis – e dos alimentos.
Como não há mais a vantagem de o governo, com margem de segurança, segurar os preços, porque a Petrobrás, hoje, está dominada pelos acionistas privados, a capacidade de subsidiar o consumidor, como acontecia antes, ficou curta e instável.
Sob pressão dos credores, o governo estará sempre tendente a conter subsídios para não expandir dívida pública, que gira na Selic(14,50%) mais alta do mundo, na atualidade.
Não é à toa, portanto, que o governo está, praticamente, na mesma situação do devedor privado: necessita urgentemente, de renegociar sua dívida, a juros mais baixos, pois, do contrário, atolado nos débidos, perde capacidade de fazer girar a economia.
A lógica do devedor privado ou público guarda semelhanças intrínsecas.
INCERTEZAS INTERMITENTES
Assim, quem está negociando sua dívida, estando na faixa do devedor de baixa renda – os beneficiados da renegociação até 5 salários mínimos – ficará na linha dágua, no fio da navalha, caso atrase pagamentos.
Se isso acontece, sempre ficará ao alcance do agiota.
O presidente Lula conta com esse alívio dos devedores, para obter deles a simpatia do voto, de modo a alcançar o seu quarto mandato.
Porém, a comunicação governamental tem que estar alerta e vigilante, destacando ao devedor que não pode brincar com a bancocracia, que comanda o poder no Brasil, atualmente, no cenário da financeirização econômica especulativa.
O poder de autonomia bancária não escuta ninguém, salvo os seus próprios interesses.
Qualquer abuso bancário, dado pelo seu intrínseco poder de dispor de dinheiro, afetará o devedor, que, sem outra alternativa e justificativa, tende a culpar o governo por seus infortúnios, especialmente, em tempo de eleição.
O capital bancário virou ameaça à população em todas as dimensões da vida econômica, e o governo, diante desse poder, não tem suficiente capacidade de persuassão, porque ele, mais que o devedor privado, é o devedor geral(dívida pública que custa R$ 1 trilhão/ano) sobre o qual caem todas as acusações.
DÍVIDA VIRA AMEAÇA E NÃO MAIS SOLUÇÃO
A dívida deixou de ser vista pelo senso comum como oportunidade de expansão de negócios, para se transformar em anátema para quem deve, sujeito a todas as acusações, como se estivesse praticando, permanentemente, o pecado.
Dessa forma, o devedor, no Brasil, seja qual for a escala em que se situa, passou a ser visto como um excumungado irresponsável, que deve merecer as pragas do inferno, originárias das acusações do credor, como o regulador da moral mundana.
Assim, o devedor-eleitor, por pragmatismo, experimentado na vida, está sendo grato a Lula, por lhe conferir o crédito, mas sabe que essa chance, para não ser desperdiçada e escorrida para o ralo, requer cuidado na sua própria administração.
Politicamente, a vantagem percebida pelo devedor vai trabalhar seu inconsciente em favor da decisão política do presidente Lula, traduzindo em voto sua gratidão, em outubro, se até lá não houver um desarranjo geral no mundo capitalista em guerra, cujas consequências, do ponto de vista do bolso do devedor, são incógnitas totais desconhecidas, por enquanto.