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domingo, 23 junho, 2024

Racionamento, filas e auto-organização: como a crise de combustíveis afeta a vida dos cubanos

País, que sofre bloqueio econômico há décadas, enfrenta problema grave de abastecimento desde abril

Gabriel Vera Lopes

Brasil de Fato | Havana (Cuba) |

A crise da falta de combustível continua afligindo Cuba. Desde o início de abril, a ilha está sofrendo uma escassez que o governo estima que continuará até o final de maio.

A escassez atrapalhou o cotidiano da população, com grandes filas em postos de combustíveis de Havana, problemas no transporte público e no abastecimento de eletricidade, dependente do uso de combustível. Até mesmo a tradicional festa do 1º de Maio foi cancelada.

Os especialistas estimam que a ilha consome uma média de 600 toneladas de combustível por dia, mas atualmente dispõe de apenas 400 para sustentar todas as atividades da ilha.

Em declarações oficiais, o presidente Díaz-Canel garantiu que os problemas foram causados pelo fato de que os países que normalmente fornecem combustível a Cuba não conseguiram cumprir seus compromissos de entrega porque “também estão passando por uma situação energética complexa”. Entretanto, o governo não especificou qual país não conseguiu cumprir suas obrigações de fornecimento.

Vidas afetadas

Adrián Yunier tem 25 anos e há dois anos começou a trabalhar como motorista de táxi, profissão que sente de forma direta o impacto da crise. “Não gosto de dirigir à noite, mas quando há viagens longas à noite, tento fazer turnos duplos e cumpri-los”, disse ao Brasil de Fato.

“Eu alugo esse carro e não posso ficar dois ou três dias sem trabalhar esperando para comprar gasolina. Não tenho outra opção a não ser comprá-la na rua, de quem a revende. Mas essas pessoas cobram o que querem, o que lhes vem à cabeça. Então, preciso fazer o máximo de viagens que puder, porque entre o aluguel do carro e a gasolina não me sobra nada no final da semana”, lamenta o taxista.

Histórias como a de Yunier se multiplicam nas ruas de Havana. Estudantes, trabalhadores autônomos, funcionários públicos, todos veem suas vidas afetadas. No final de abril, cinco universidades nacionais decidiram implementar disciplinas virtuais para que os alunos não perdessem aulas devido a problemas de transporte. Da mesma forma, muitos locais de trabalho implementaram modalidades mistas de trabalho presencial e remoto.

O problema econômico

“A questão do combustível tem um impacto muito forte no cenário econômico. Devido ao bloqueio, temos que importar a preços muito acima do preço internacional. Isso significa que o Estado, que importa combustível, tem que fazer um esforço enorme. E ainda mais nesse cenário de conflito entre a Rússia e a Ucrânia, que não só causou um aumento nos preços internacionais, mas também uma escassez internacional”, explica Darly Rodríguez, mestre em Ciências e Administração Pública, para o Brasil de Fato.

Imposto pelos Estados Unidos, o bloqueio econômico contra Cuba significa que a ilha não pode comercializar livremente com os países que desejam fazê-lo, da forma como opera a grande maioria das economias internacionais. O motivo disso é que os EUA impõem sanções a qualquer empresa que comercialize com Cuba produtos que contenham 10% de material produzido nos Estados Unidos. Essas sanções, que vão de multas de milhões de dólares até a proibição de operação em solo estadunidense, significam que Cuba não pode acessar os mercados internacionais ou, se o fizer, deve pagar preços acima dos normalmente praticados.

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“Apesar de todas as dificuldades, o preço do combustível em Cuba não foi aumentado e continua sendo fortemente subsidiado. Essa também é uma realidade concreta em Cuba. Embora estejamos tentando subsidiar pessoas e não produtos, há certos recursos que o Estado considera importante não aumentar seus custos”, explica Darly Rodríguez, justificando que aumentar custos como o do combustível, “teria implicações não apenas do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista social. E acredito que esse é um sentido que a revolução nunca perdeu, o sentido humanista de colocar as pessoas no centro do projeto”.

Um litro de combustível custa cerca de US$ 0,30 para os consumidores em Cuba – cerca de R$ 1,50 pela cotação de hoje, bastante abaixo dos R$ 5,52 cobrados em média nos postos brasileiros pelo litro da gasolina, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP).

Rodríguez explica que, nas economias capitalistas tradicionais, diante de uma escassez de oferta, o mercado se ajusta aumentando o preço do produto, o que significa que aqueles que não podem pagar simplesmente param de comprá-lo. Em Cuba, ao manter o preço baixo, por meio dos subsídios estatais, em relação ao valor internacional, a crise não se manifesta por meio de um aumento acentuado do preço, mas pela escassez da disponibilidade. Essa é a origem das longas filas que surgiram em Cuba.

“É claro que esta crise afeta a vida familiar dos cubanos”, lamenta ela. “Mas não podemos aplicar receitas neoliberais. Essas receitas neoliberais que eles muito além de nossa fronteira querem nos impor.”

Auto-organização

Como consequência do racionamento, um mercado paralelo surgiu, com pessoas cobrando por lugares nas filas ou revendendo o combustível que conseguiram a preços estratosféricos. “A escassez traz à luz o que há de melhor nas pessoas, mas também o que há de pior nelas. Há aqueles que se aproveitam da escassez para lucrar, desviando os poucos recursos que temos para a população”, disse ao Brasil de Fato Pedro Lisandro Escalona, presidente do Conselho Popular da Rompa, enquanto era cumprimentado por seus vizinhos.

Há anos, ele participa de instâncias organizacionais em sua comunidade, como os conselhos populares, órgãos locais do que em Cuba se chama de “poder popular”, formas organizacionais de governo nos territórios onde os vizinhos participam da resolução dos problemas da comunidade.

“A organização da sociedade é o que nos permitiu enfrentar a carência que temos há 64 anos, fundamentalmente por causa do bloqueio dos EUA contra Cuba”, diz Escalona com convicção. “É a organização popular que nos permite organizar a comunidade para minimizar os impactos do bloqueio.”

Escalona coletou os problemas que surgiram como resultado da crise de combustível. Junto com sua comunidade, eles criaram mecanismos para tentar resolver esses problemas, criando listas – feitas pelos próprios moradores – em que atribuem turnos para a distribuição de combustível. Como resultado, embora a escassez continue, as pessoas em Havana não precisam mais esperar em longas filas para abastecer.

“Com a organização, o impacto negativo daqueles que tentavam lucrar com as necessidades de outras pessoas foi bastante reduzido. Demos um jeito de acabar com isso organizando a comunidade”, diz Lisandro com orgulho. “Esse sistema de elaboração de listas da própria comunidade para evitar filas foi muito bem-sucedido e agora o governo de Havana está implementando-o em todos os municípios de Havana”, afirma.

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