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quarta-feira, 12 junho, 2024

Quem ama realmente a Ucrânia?

Hugo Dionísio [*]

A triste involução da Ucrânia.

Daqui a uns dias, a mais absurda “contra-ofensiva” da história da guerra moderna completará os três meses. Dezenas de milhares de homens mortos e feridos, centenas de carros de combate destruídos, está “contra-ofensiva” preparada pelos “altos” padrões da OTAN, comandada pela “inteligência” da OTAN e armada com as míticas armas da OTAN, não logrou, sequer, chegar à designada linha Surovikin, nomeadamente à primeira de uma série de barreiras fortificadas, atrás das quais aguarda uma reserva militar russa de mais de 250.000 homens que ainda não entraram sequer em combate. Para além de uma meia dúzia de vilarejos despovoados, localizados na zona cinzenta, não podemos, com seriedade, contabilizar um único sucesso militar da mais propalada, propagandeada e transparente “contra-ofensiva” da história.

Rabotino, um vilarejo que no seu esplendor pré-conflito tinha 488 residentes, foi subitamente transformado num significativo e estratégico marco geográfico. Sem qualquer casa de pé, localizado em terra de ninguém e sendo apenas o primeiro ponto de passagem de uma “contra-ofensiva” que deveria ter chegado há mês e meio atrás ao mar de Azov, continua a revelar-se inultrapassável para as forças do regime de Kiev. E tantas vezes a máquina de mistificação social – que designam como “comunicação social” – anunciou a tomada deste “importantíssimo” vilarejo! Há uma semana era o orgulhoso e arrogante General OTAN Mark Milley. O tal que dizia que, sob o seu comando e sem apoio aéreo, as forças que comanda, à distância de um clique no seu rato, chegariam a Azov nuns dias (chegou a falar-se em dias!!!), recusa-se a ver a sua “contra-ofensiva” como falhada. Há dois dias foi a vice-ministra da defesa quem o anunciou.

O que é que esta realidade tinha de inesperada? Absolutamente nada! Talvez apenas a teimosia, psicopatológica frieza e teimosia senil, por parte do regime de Kiev, em seguir os ditames dos seus mestres ocidentais e, seguindo-os, continuar a atirar para a morte certa centenas de milhares dos seus homens e mulheres. Para Mark Milley é fácil dizer “não podemos deixar-nos impressionar com as elevadas baixas humanas”. O que já não é compreensível é esta frieza encontrar-se também nos corações da oligarquia política e econômica que dirige, hoje, o horrível destino do país.

Se, sem mobilização total, o povo trabalhador era literalmente arrancado à sua vida, fosse na rua, em casa ou nas compras… Como será, agora que foi lançado o próximo passo da loucura? Se, até aqui, o regime tem sobrevivido porque tem enviado para a morte as camadas mais pobres do país, sem voz pública para se fazerem ouvir; daqui para a frente, será o que resta da classe média e pequeno-burguesa a serem afetadas, a não ser que paguem, aos sempre largos bolsos da corrupção, de um regime que, também pela corrupção, aceitou destruir o seu próprio país.

Segundo um estudo apresentado por Scott Ritter (atualmente censurado no Youtube, por dizer demasiadas e inconvenientes verdades) realizado a partir de dados de satélite em que se contabilizou o aumento do número e dimensão dos cemitérios ucranianos, desde fevereiro de 2022 estima-se que tenham morrido cerca de 1 milhão de pessoas como resultado da guerra.

Estes são os episódios que faltam na narrativa dos países OTAN. Nas fontes informativas OTAN, as forças russas estavam “desmoralizadas, mal equipadas, com armas antigas e em mau estado, em motim permanente e comandadas por gente incompetente, covarde e corrupta”. A sempre prestável Ana Gomes, quando de propaganda se trata, dá-vos um curso sobre como descredibilizar, desumanizar e ridicularizar o inimigo (sem gasóleo para tanques, lembram-se?). Milhares, sai do curso e fará o resto, escreverá livros, artigos e monólogos inflamados, desdizendo tudo o que disse até 1991. O fato é que, parece que, gente como eles, exageraram tanto na carga de combustível que, a dada altura, os próprios comandantes OTAN e os seus patrocinados, começaram a acreditar nos filmes de Hollywood em que se tomaram os telejornais, confundindo-os com a própria realidade. Foi tão caricato que surgiam comentários de comandantes ucranianos afetos ao regime de Kiev, nas redes sociais, dizendo que, quando a “contra-ofensiva” começasse e os russos os vissem, logo desatariam fugir e a render-se.

Mesmo depois do fracasso do lançamento da “contra-ofensiva” e do constante bater com a cabeça na parede. Nos EUA começaram a surgir ecos, em especial nos órgãos de enviesamento republicano, em que, envergonhadamente e sempre na lógica de “uma no prego, outra na ferradura”, alguns articulistas, politólogos e analistas começaram a reconhecer o fracasso da coisa e a desconexão entre a realidade observada e a realidade avaliada.

Contudo, na Europa, em especial aqui no nosso burgo, todos continuaram a acordar, de manhã, com “as forças de Kiev estão a avançar”. Com excepção dos mesmos de sempre, objetividade foi coisa que continuou a não existir, nos meios mainstream. O avanço reportado é tanto que, por esta hora, as forças do regime de Kiev já deveriam ter chegado a Vladivostok.

Na semana passada a CNN Portugal chegou mesmo ao cúmulo de dizer “as forças de Kiev chegaram à Crimeia”. Um barco, com uns quantos suicidas, para efeitos de propaganda midiática, conseguiu, pela calada da noite, chegar à costa e lá colocar uma bandeira, filmar e fotografar. Morreram todos. Esta parte a CNN Portugal não contou. Aliás, mostrou mesmo imagens de veículos militares russos nas ruas de Sebastopol, apresentando-as de forma ao espectador pensar que estaria a ver a tal “unidade” das “forças especiais” de Kiev. Na mesma peça diziam que as forças de Kiev tinham atingido a “linha mais importante de defesa das forças russas”, não dizendo que se tratou de uma incursão suicida que acabou como a da Crimeia. E por fim ainda diziam que Kiev tinha feito o maior ataque de drones desde sempre, não dizendo que tinham sido praticamente todos detectados e abatidos ou aterrados por meios de guerra eletrônica.

O mesmo tipo de análise é feito quando, numa fase já de total desespero, o regime de Kiev recorre ao terrorismo puro e duro, atirando drones e bombas contra alvos estritamente civis, perpetrando atos de pura execução terrorista, contra determinadas pessoas, cujo único pecado é o de pensarem diferente de si. A estes atos os órgãos da “credibilidade” e do “fact-checking” apelidam de “ataques”, ou então, fazem como Milhazes, que os refere como “ataques terroristas”, mas nunca diz quem os perpetrou. A outra técnica é apontar sempre para o Kremlin. O NordStream? Foi o Kremlin; a barragem? Foi o Kremlin; A central nuclear? Foi o Kremlin; Prigozhin? Foi o Kremlin… Quem o diz? “Fontes” da “inteligência britânica”, “americana” ou das “forças ucranianas”!

Ninguém esperaria que, do ponto de vista editorial, estes órgãos tomassem o partido dos “inimigos” declarados. Não podemos também esperá-lo das fontes russas, iranianas, indianas, turcas, latino-americanas não alinhadas com o ocidente, sauditas… Mas qualquer dos órgãos mais representativos destes países, pela minha experiência, mesmo tomando o partido de quem os domina (há sempre quem domine), fazem análises mais alargadas, diversificadas e objetivas do que os órgãos ocidentais.

A comprová-lo…. Está a própria realidade. Uma das características da comunicação capitalista na sua fase neoliberal consiste em alienar o espectador da realidade histórica e factual. Não lhe contando a história, ou apenas a revisitando de forma parcial ou enviesada, o espectador é remetido para uma realidade desconectada entre si, perdendo a capacidade de organização da informação e passando a dependendo, ainda mais, do emissor informativo que causa essa dependência.

Notícias surgem, todos os dias, nos nossos jornais, em como o setor industrial – em especial no norte do país – se prepara para enfrentar uma enorme crise, em resultado da destruição da base industrial alemã e europeia, em geral. Mais uma vez, como no caso do fracasso da “contra-ofensiva”, a crise inflacionária, energética, alimentar e industrial na Europa, também nada traz de novo a todos os que, a partir de certa altura (24/02/2022 foi apenas um catalisador), optaram por passar a informar-se em órgãos de comunicação alternativos, passando a integrar a informação ocidental, num leque variado de fontes, ao invés de a utilizar como “a única fonte”.

Vejamos, uma vez mais, o caso ucraniano, para percebermos como diverge a realidade da narrativa que nos passa nas TVs, jornais e livros ocidentais. Diz a narrativa oficial, marcada a letras de ouro nos instrumentos legais da UE, que a Ucrânia sempre foi muito maltratada pelos russos e, ainda pior, pelos bolcheviques. Tal é a narrativa que, até se inventou um genocídio alimentar programado só por vingança. Segundo a narrativa, nunca a Ucrânia, ligada à Rússia, poderia almejar qualquer tipo de liberdade e desenvolvimento. Diz a narrativa que, a história soviética da Ucrânia foi um desastre para o povo ucraniano.

O que nos dizem os fatos, a realidade? Primeiro que, o ódio ao comunismo era tal que o Presidente Kuschma, do PCU, ganhou todas as eleições até à “revolução Laranja”, fomentada pelos EUA, em 2004. E a “revolução laranja” tratou-se de uma artimanha engenhosa e inconstitucional (eleições presidenciais com uma 3ª volta) fomentada pela CIA, para fazer eleger um presidente que lhe fosse simpático, uma vez que já haviam perdido as esperanças em destronar Putin na Rússia.

Segundo os pais da República Ucraniana foram os Bolcheviques. Até à fundação da República Socialista Soviética da Ucrânia em 25/11/1917, a Ucrânia era uma região do império russo. Era a “ucrânia (fronteira) da Rússia”, território disputado pelos vários impérios adjacentes ao longo de séculos. Para agravar ainda mais o “ódio” bolchevique à Ucrânia, foi Lenin  e não outro que, em 1918 lhe junta o Donbass. Porquê? Porque a “odiava” tanto que queria juntar regiões industrializadas russas, para que, com estas, o território ucraniano, como um todo, se pudesse desenvolver. E como se desenvolveu.

Com um “ódio” ainda mais doentio, Krushev, em 1954, para reforçar a amizade entre russos e ucranianos, fez integrar o Oblast da Crimeia (região autónoma da Rússia), na república ucraniana. Afinal, a água e eletricidade da Crimeia vinha da Ucrânia.

O ódio era tão grande e irracional que a evolução demográfica da RSSU diz tudo: Em 1922 tinha 26,2 milhões de habitantes; em 1940 tinha já 41 milhões (e tantos que o “Holodomor” fantasiosamente matou); 31,4 em 1946, graças a Bandera; 51,6 milhões em 1990. Em 1991 já passavam dos 52 milhões. Um ódio tão grande que a população duplicou em menos de 70 anos. Parece a portuguesa e a da Europa ocidental, não é? Era um território tão mau para se viver que a população duplicou em 69 anos!

Depois, de acordo com a narrativa OTAN, veio o amor ocidental. E o amor ocidental foi um sucesso. Mas não para o povo ucraniano. Se na URSS a Ucrânia chegou a ser a 5ª economia europeia e a 10ª do mundo, de 1991 a 2004 era um país com indústria de aviação, aeroespacial, gás, petróleo, uma potência agrícola, mineira, um país letrado, de gente inteligente, culta e com todo o potencial para, mesmo após o colapso da URSS, poder continuar como um potentado europeu. Tudo produzia a Ucrânia, naquele conceito “ultrapassado” de soberania e independência nacional, de que os comunistas tanto gostam, mas que é indispensável para sermos livres nas nossas escolhas e destino coletivo e individual. Mesmo vítima da corrupção crescente, assim mesmo, em 2001, a Ucrânia tinha ainda 48,5 milhões de pessoas.

O “amor” ocidental, o “apoio” e a “cooperação” fizeram cair a população do país para 45,2 milhões em 2014; 39,4 em 2015 (saída da Crimeia); 37,3 em 2022 e 26,5 em 2023. Este país deveria ter, continuando o seu ritmo normal de 1990, cerca de 55,6 milhões…. Tem metade!!! De revolução “democrática” em revolução “democrática”, tornou-se tão bom aí viver que, entre 2001 e 2023, o país perdeu mais de 22 milhões de pessoas. Um sucesso, está “cooperação” com o ocidente.

O país passou de ser uma potência econômica, para se tornar o mais pobre da Europa, estando hoje ligado à máquina de dólares, para não morrer. Literalmente. A Blackrock, Monsanto e outras corporações “amigas” têm comprado, a preço de saldo, tudo o que resta, a indústria está destruída e, em virtude das “vitoriosas” aventuras militares em que se empenharam, estão prestes a perder a ligação ao mar. Ou seja, a paixão do ocidente pela Ucrânia é de uma toxicidade mortal. É uma espécie de “atracção pelo o abismo”. Ao contrário do que se propagandeia, o país não tem liberdade de expressão, cultural, étnica ou política. Neste país, a única garantia que existe ou é, ou pagar-se ou ir para à linha da frente, contra os russos, porque o tio Sam manda. Foi para isto que EUA e Inglaterra boicotaram o acordo de Istambul, em março de 2022. Em cima disto tudo, o país deve mais de 100 mil milhões aos seus “credores” americanos e europeus. Mais de metade em armas que, ou já queimaram, ou ainda faltam queimar. E como ardem as wunderwaffe ocidentais, quando levam com os ultrapassados mísseis, drones e projeteis russos.

Seja pela guerra, pela anexação do Donbass e Crimeia pela Rússia ou pela destruição da rede social, económica e cultural existente, este país só está onde está por causa da sua aproximação ao ocidente e da engenharia social a que a CIA o submeteu, em especial, a partir de 2001. Uma vez mais, esta realidade contrasta totalmente com a narrativa ocidental. Contudo, e também uma vez mais, é corroborada por tantos e tantos países aos quais aconteceu o mesmo. Letónia, Estónia e Lituânia, têm hoje metade da população que tinham em 1991 e das mais baixas taxas de fertilidade do mundo. Qualquer deles, a ver pelos gastos militares (os mais altos da OTAN em % do PIB) e em conjunto com a Polónia, já tirou a senha para se atirar à Rússia, quando a Ucrânia estiver humanamente esgotada. O que, pelas palavras do próprio NYTimes, já acontece. Eis o sucesso do “amor” ocidental.

Assim, três meses após o início de uma contra-ofensiva que se anunciava falhada, vale a pena relembrar que, quando se tornar, por força das circunstâncias, impossível ao regime de Kiev continuar a acreditar que pode vencer a guerra, há quem o tenha visto, dito e escrito desde o início da “aventura”. E não são poucos e não passam na TV!

Quando a Europa se encontrar em pior situação do que aquela em que já se encontra, houve quem o tenha dito, visto e anunciado logo que se instalou a tentação para o abismo. Não se trata de adivinhação: trata-se de diversificação das fontes de informação, sem preconceitos e fugindo à bolha comunicacional que Google, Facebook e Youtube nos colocam à frente.

Nenhuma narrativa substitui a realidade! Apenas a pode esconder por algum tempo!

E a realidade diz-nos que a Ucrânia está a morrer e quem a está a matar não são os que, supostamente, aí estão a combater. São os que a “ajudam”, “apoiam” e “suportam”!

[*] Advogado, https://t.me/canalfactual

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