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domingo, 23 junho, 2024

Que tal uma guerra mundial?

Dmitry Orlov [*]

Passaram mais de 18 meses desde o lançamento da Operação Militar Especial (OME) da Rússia, que tem os seguintes objetivos declarados:   garantir a segurança da região de Donbass, desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia e assegurar perpetuamente o seu estatuto de neutralidade.

Desde essa altura, o Ocidente coletivo fez uma série de coisas para ajudar a Rússia e para se prejudicar a si próprio. As sanções anti-russas, por exemplo, conseguiram muitas coisas: expulsaram grande parte da “quinta coluna” russa e fizeram com que grande parte dela abandonasse o país; motivaram numerosas empresas ocidentais a deixarem de fazer negócios na Rússia, vendendo as suas ações a empresas russas a preços de saldo; a negação de acesso à rede bancária SWIFT e os ataques especulativos à moeda russa isolaram-na financeiramente do Ocidente e impediram a expatriação de lucros e várias formas de fuga de capitais, derrubando a inflação na maioria dos setores (os veículos de passageiros são uma exceção); e as grandes perturbações que as sanções, juntamente com a explosão do gasoduto Nord Stream por Biden, causaram nos mercados mundiais de energia, fizeram aumentar as receitas de exportação da Rússia a um nível bastante embaraçoso. Assim, a Rússia está agora a crescer economicamente, tem muito dinheiro para investir em infraestruturas como estradas e pontes (incluindo novas linhas ferroviárias de alta velocidade), escolas, jardins de infância e hospitais, etc, enquanto o Ocidente coletivo, em resultado dos seus danos auto infligidos, está a afundar-se cada vez mais na recessão/depressão e, o que é pior, está a ser forçado a desindustrializar-se devido aos custos muito mais elevados da energia. Como último golpe de faca auto infligido, a Europa (Espanha e Bélgica, especificamente, mas através delas grande parte do resto) está a importar enormes quantidades de gás natural liquefeito russo, que é muito mais caro e, por conseguinte, muito mais rentável do que o gás canalizado que substituiu.

Para o caso de não estar impressionado com o brilhantismo dos esforços do Ocidente para isolar e enfraquecer economicamente a Rússia, consideremos a parte militar do conflito. O plano inicial era que as forças ucranianas expulsassem os russos dos seus territórios, reafirmando o controlo sobre as regiões separatistas de Donetsk e Lugansk e recapturando a Crimeia, que se tinha tornado uma região da Rússia em 2014. Como recompensa pelo seu valor, a Ucrânia seria autorizada a aderir à OTAN e à UE e a viver infeliz para sempre – tal como qualquer outra nação despovoada e empobrecida da UE, como a Roménia ou a Bulgária (mas não era suposto dizer essa parte em voz alta). Entretanto, a perda maciça de prestígio sofrida pelo ditador russo Putin minaria a sua autoridade, varrê-lo-ia do poder e permitiria ao Departamento de Estado dos EUA e a várias ONGs ocidentais dividir a Rússia em regiões de tamanho reduzido, cada uma delas ansiosa por vender tudo o que tem às corporações transnacionais.

A fase I deste plano consistia numa blitzkrieg ucraniana lançada contra Donetsk, que era adequadamente defendida pela sua força de defesa voluntária, que incluía um certo número de voluntários russos do outro lado da fronteira, mas que não estava equipada para lidar com tal investida. As forças armadas ucranianas tinham passado vários anos a armar-se e a treinar-se para este evento, que estava previsto para março de 2022. Mas, apenas duas semanas antes da data de lançamento não tão secreta, Putin lançou subitamente o SMO e todos os planos bem concebidos foram por água abaixo.

Depois de uma visita relâmpago às regiões ucranianas, descobriu-se que grande parte da população tinha sido condicionada, ao longo dos últimos 30 anos, a odiar a Rússia e tudo o que era russo (ao mesmo tempo que a maioria deles era e falava russo). Isto tornava-os maus candidatos a uma futura cidadania russa. Descobriu-se também que o governo ucraniano não se estava a render voluntariamente. Assim, os russos tentaram evitar mais derramamento de sangue e fazer a paz com o país. Negociaram um projeto de acordo de paz, retirando voluntariamente as suas forças da região de Kiev como sinal de boa fé. Em resposta, os ucranianos recusaram-se a aceitar o acordo que os seus representantes tinham negociado… e recomeçaram a combater. Os russos retiraram-se então para trás de uma linha defensável e prepararam-se para travar uma guerra de desgaste, que continua até aos dias de hoje.

Entretanto, todas as regiões anteriormente ucranianas – não só Donetsk e Lugansk, mas também Zaporozhye e Kherson – mostraram-se bastante ansiosas por se separarem da Ucrânia e voltarem a juntar-se à Rússia, da qual faziam parte desde o início do seu povoamento e desenvolvimento. Realizaram referendos para ratificar esta decisão, que foi depois inscrita na Constituição russa, apesar de partes do que é agora território russo soberano estarem temporariamente ocupadas por forças ucranianas.

Durante o verão de 2023, assistimos a um fracasso espetacular e fabulosamente dispendioso da “contra-rota” ucraniana – a sua tentativa falhada de recapturar as suas regiões, até então totalmente alienadas, que resultou em várias centenas de milhares de baixas do lado ucraniano, uma grande quantidade de blindados e outros armamentos, tanto remanescentes da era soviética como doados pelo Ocidente, explodidos e zero território ganho.

Os ucranianos são agora obrigados a recrutar os doentes, os coxos e os idosos, os covardes e os loucos, uma vez que a maioria dos homens capazes já fez o seu melhor para fugir do país. Os que conseguem recrutar são mal treinados, mal equipados e não têm muita vontade de combater. São enviados para a batalha depois de terem sido drogados com metanfetaminas, tanto as fornecidas pelos americanos como as produzidas localmente, mas muitos deles não estão demasiado desejosos de lutar e fazem o que podem para se renderem.

Num período de dois meses, as forças ucranianas não conseguiram conquistar qualquer território. De fato, não conseguiram avançar sequer até à primeira das três linhas defensivas russas. Os russos, por outro lado, recuperaram tranquilamente o controlo de parte do território que tinham desocupado quando se reagruparam numa postura defensiva e começaram a escavar há quase um ano. Se as coisas continuarem como antes, os russos podem muito facilmente recapturar Slavyansk e Kramatorsk, depois do que não há nada a não ser estepe aberta até ao rio Dniepr, onde, durante o inverno, tudo o que é vivo brilha nos infravermelhos como uma vela no escuro, tornando-o bastante fácil de atingir.

E agora vem uma notícia verdadeiramente espantosa:   algumas pessoas no Ocidente, incluindo alguns americanos, estão a começar a suspeitar que os ucranianos não vão prevalecer contra a Rússia! O quê?! Os ucranianos não receberam montes de armas semi-obsoletas, algum treino relativamente inútil e, no total, qualquer coisa como 150 bilhões de dólares de apoio? Porque é que isso não seria suficiente para derrubar “uma estação de serviço mascarada de país” (John McCain) cuja “economia está em frangalhos” (Barack Obama)? É claro que uma boa parte desse dinheiro foi parar aos amplos cofres do sindicato do crime de Biden, engraxando todas as palmas das mãos pelo caminho, e muitas dessas armas foram transacionadas no mercado negro, de modo que os cartéis de droga mexicanos têm agora capacidades antitanque e antiaérea (Obrigado Joe Biden!). Mas aos ucranianos foi-lhes dito que atacassem, e eles atacaram, vezes sem conta, e morreram em massa e… nada? Não é embaraçoso?

Perante esta perda maciça de prestígio, os europeus, que os americanos arrastaram pelo caminho róseo até ao depósito de lenha, onde lhes fizeram coisas muito pouco naturais, e que agora se mostram na sua maioria confusos e a olhar para os seus pés, enquanto os próprios americanos permanecem na sua maioria em completa negação, repetindo incessantemente o mantra “Apoiaremos a Ucrânia enquanto for necessário”. Necessário para quê? A morte sem sentido de cada um dos ucranianos? Como Mike Tyson disse uma vez: “Toda a gente tem um plano até levar um murro na boca”. Bem, toda a gente acabou de levar um murro na boca. O plano da América para a Ucrânia fracassou a todos os níveis e os americanos estão a levar um murro todos os dias em que este conflito armado continua. No entanto, eles persistem… Deve haver uma razão médica… Alzheimer, talvez?

Há também outras vozes a proporem várias coisas, mas ainda não li nem ouvi nenhuma que expressasse o que seria necessário para pôr fim ao conflito. Ao invés disso, temos um bocado de cacofonia. Com um pouco de esforço, podemos dividi-la em vários cenários. Não gosto de cenários; a palavra cheira a guiões, dramas e outras obras de ficção e fantasia. Numa peça de teatro, um ator pode morrer em palco, ressuscitar a tempo de subir ao palco e voltar a fazê-lo na noite seguinte; na vida, só se morre uma vez. A História não é uma peça de teatro – é o destino – e o fato de não o conhecermos de antemão não muda nada. Olhar para o futuro como um conjunto de “cenários” esconde o fato de estar para além do nosso controlo. Ainda assim, para o bem da discussão, chamemos-lhes cenários e examinemos cada um deles.

O divertido e simpático Tucker Carlson, antigo membro da Fox News e agora um agente livre, opinou que estamos a caminhar rumo à Terceira Guerra Mundial. Tucker é um jornalista; os jornalistas repetem o que ouvem de não-jornalistas (é o seu trabalho); e foi isso que Tucker ouviu recentemente de Viktor Orbán, o primeiro-ministro da Hungria, que entrevistou. Por sua vez, Orbán falou da Terceira Guerra Mundial num esforço para chamar a atenção de outros líderes ocidentais, com os quais está a encontrar cada vez menos causas comuns.

A Ucrânia, como o próprio Tucker salientou, não é de interesse vital para os EUA. Fazia parte de um plano brilhante para desmembrar, engolir e devorar a Rússia, mas uma vez que esse plano está agora em frangalhos, por que não o anular e voltar à prancheta de desenho? No entanto, Tucker não é o único a falar da Terceira Guerra Mundial – há também o coronel reformado Douglas Macgregor e vários outros que procuram a atenção do público, por isso vamos marcar a Terceira Guerra Mundial como um dos cenários.

O problema da Terceira Guerra Mundial é encontrar alguém que a queira começar. A Rússia certamente não quer, e ninguém mais quer. Começar a Terceira Guerra Mundial implica duas coisas: ter o controlo de armas nucleares estratégicas e ser suicida. E acontece que estes são conjuntos disjuntos: ninguém chega a controlar fisicamente arsenais nucleares sem primeiro passar num exame psicológico rudimentar. A tendência suicida é um fator de desqualificação.

Mas suponhamos que o velho Joe Biden, num acesso de raiva senil, decide acabar com tudo e pede que o “futebol” nuclear seja trazido para o Salão Oval, porque quer lançar um primeiro ataque nuclear antecipativo (preemptive) contra a Rússia, a China, a Coreia do Norte e quem mais estiver na lista de alvos. O que ele provavelmente receberia em vez disso seria uma enfermeira com uma pílula num copo de plástico e um copo de água e, quando os recebesse, já se teria esquecido do que havia pedido, tomaria a pílula e adormeceria.

Ou suponhamos que alguns neoconservadores desesperados conspirassem para fazer explodir uma bomba nuclear tática algures na Ucrânia e tentassem atribuir a culpa à Rússia, sendo a sua especialidade os ataques de falsa bandeira. A Rússia investigaria, chegaria às suas próprias conclusões, comunicá-las-ia a todo o mundo, menos ao Ocidente (que já não acredita em nenhuma das mentiras que o Ocidente dissemina regularmente), e estaria tudo resolvido, exceto um enorme desastre humanitário e político.

Ou suponhamos que esse mesmo grupo de neoconservadores conspirasse para fazer explodir uma ogiva nuclear tática algures no interior da Rússia. Nesse caso, a Rússia exigiria que os americanos trouxessem as suas cabeças – se não! E como a Rússia tem agora as armas para destruir economicamente os EUA usando armas convencionais a partir de uma distância segura, enquanto os EUA não têm essa capacidade, os americanos obedeceriam tranquilamente.

Em suma, é muito difícil fazer com que as pessoas se suicidem se, à partida, não forem suicidas. Há um poderoso instinto em ação.

Em seguida, temos o venerável cientista político americano John Mearsheimer e o seu plano da Coreia do Norte para a Ucrânia. Mearsheimer propõe congelar perpetuamente o conflito ao longo da atual linha da frente, como acontece entre as Coreias do Norte e do Sul. A parte russa da antiga Ucrânia permaneceria russa e a parte ucraniana tornar-se-ia um protetorado dos EUA, aderiria à NATO e acolheria bases militares americanas – se continuarmos com a analogia coreana.

O plano é de certa forma admirável: acabaria com o derramamento de sangue; daria aos russos o que Mearsheimer pensa que eles querem; e agradaria infinitamente ao complexo militar-industrial-congressual dos EUA, dando-lhe outro recreio permanente no estrangeiro onde desperdiçar fundos públicos enquanto se faz de líder mundial. Acima de tudo, permitiria aos americanos salvar a face: não conseguiram destruir a Rússia, mas pelo menos teriam algumas bases militares mesmo ao lado dela, onde poderiam esperar e fazer esquemas. A Ucrânia nunca se tornaria um centro industrial de alta tecnologia como a Coreia do Sul; o mais provável é que se tornasse como o Kosovo – um Estado mafioso étnico sem lei com uma enorme base militar americana como peça central. Suponho que até poderiam construir uma base naval em Odessa ou Nikolaev. Vamos classificar o sonho de Mearsheimer como o segundo cenário.

O problema com este cenário é que não é isso que os russos querem. Porquê aceitar um cessar-fogo quando se está prestes a ganhar? E porquê aceitar uma presença militar dos EUA nas suas fronteiras se o seu objetivo declarado é garantir que a Ucrânia é desmilitarizada, desnazificada e neutralizada? O plano de Mearsheimer pode parecer bom em teoria, mas os seus méritos práticos são nulos.

Finalmente, temos os peaceniks: os candidatos presidenciais Donald J. Trump, Robert Kennedy Jr. e Vivek Ramaswami. Trump e Kennedy dizem que querem uma relação pacífica e amigável com a Rússia, mas sabiamente recusam-se a dizer como o vão conseguir. Trump disse que iria acabar imediatamente com o conflito na Ucrânia, mas, mais uma vez, não disse em que termos. Ramaswami, por outro lado, disse algo sobre o assunto que foi tão disparatado que alguns responsáveis russos muito sérios ainda se riem disso: ele disse que permitiria que a Rússia mantivesse os seus antigos territórios ucranianos (temporariamente) se, em troca, cessasse a cooperação militar com a China!

Em primeiro lugar, para se estar em posição de permitir algo, também se tem de estar em posição de negar esse algo. Definitivamente, não é esse o caso aqui, pelo que o jovem e tolo Vivek está essencialmente a dizer que permitiria que o sol brilhasse se isso fizesse com que a lua orbitasse em torno de outro planeta. Ainda assim, a paz com a Rússia é uma grande ideia e, por isso, vamos marcá-la como o terceiro cenário.

Mas isso é praticamente tudo o que podemos fazer, uma vez que, para além da ideia tola de Vivek, só podemos adivinhar o que está a ser proposto, mas o meu palpite é que continua a ser muito tolo. “Claro que passámos quase uma década a armar, treinar e controlar um bando de nazis assassinos que mataram e aterrorizaram o vosso povo, mas agora que prevaleceram vamos deixar o passado para trás…” Que raio de disparate é este? Trata-se de uma oferta velada de dinheiro de sangue? Em caso afirmativo, quanto? Até os russos ouvirem um valor suficientemente elevado (pagável em ouro, uma vez que já não gostam de dólares americanos), não há muito a discutir.

CENÁRIO OPERAÇÃO AFEGANISTÃO 2.0

Quanto a mim, sou a favor de um quarto cenário, para o qual escolhi o nome de código bastante transparente de “Operação Afeganistão 2.0”. É um cenário em que os americanos, basicamente, se baldam, fogem, penduram os ucranianos a secar e dizem-lhes que o que resta do seu país, irremediavelmente lixado, cabe aos russos e aos europeus resolver. Os europeus começariam imediatamente a examinar visualmente os seus sapatos enquanto conversam amigavelmente sobre o tempo, deixando apenas os russos.

Mas os Estados Unidos têm todos os motivos para reduzir as suas perdas na Ucrânia. Os ucranianos – os que estão no poder – conseguiram manipular os EUA para que lhes dessem uma quantidade ridícula de dinheiro e armas, que usaram sobretudo para se enriquecerem enquanto atiravam recrutas em bruto para as linhas defensivas russas, compravam mansões na Suíça e em Miami, guardavam milhares de milhões em contas offshore e por aí afora, porque tinham o material de Joe Biden e da sua organização criminosa. Mas agora que as provas sobre a criminalidade de Joe Biden já estão disponíveis e estão a ser gradualmente divulgadas ao público, a sua capacidade de o chantagear desapareceu e é altura de os cortar.

O meu plano é tão brilhante quanto simples: envolve não fazer exatamente nada. Não há tropas para repatriar, não há 80 mil milhões de dólares de equipamento militar para (não conseguir) transportar por via aérea de volta para os EUA, nem sequer um grande grupo de serviçais afegãos, a quem foi prometida a cidadania americana em troca dos seus serviços, para abandonar vergonhosamente. É um plano perfeitamente exequível porque exige que os funcionários americanos não façam absolutamente nada – uma tarefa que tenho a certeza de que conseguem realizar. Está perfeitamente de acordo com o meu princípio Zen favorito de Wúwèi (无为 / 無爲) – ação através da inação.

Esta inação teria algumas consequências que podemos tentar mapear. Em primeiro lugar, as forças armadas ucranianas desvanecer-se-iam, a maioria dos soldados mudando simplesmente para um uniforme civil e indo para casa, sem ninguém para os impedir. Em segundo lugar, a polícia militar russa espalhar-se-ia pela paisagem ucraniana, reunindo os criminosos de guerra ucranianos que têm processos penais pendentes na Rússia, abrindo gradualmente caminho de leste para oeste. Talvez a Rússia levantasse temporariamente a sua moratória sobre a pena de morte por causa deles.

Depois, quando os nacionalistas/criminosos de guerra tiverem sido suficientemente afastados para oeste, a Rússia organizaria referendos nas várias regiões sobre a sua reintegração na Rússia. (A Ucrânia fez parte da Rússia de 1654 a 1917, depois fez parte da URSS de 1922 até à sua dissolução). A maioria dos ucranianos não é parva e, assim que a propaganda se desvanecesse, votaria com as mãos e os pés para se juntar à Rússia e colher todos os benefícios de uma cidadania russa. Suponho que a Rússia também aceitaria a Transnístria (uma parte russa da Moldávia) e a Gagaúzia [1] (porque os gagauzes gostam dos russos e não gostam muito de fazer parte da Moldávia).

Os vizinhos europeus da Rússia seriam então convidados a banquetear-se com as restantes regiões mais ocidentais que nunca fizeram parte da Rússia e que só aderiram à URSS após o fim da Segunda Guerra Mundial. Imagino que teria de ser assinado um tratado – digamos, o Tratado de Pinsk [2], numa conferência organizada pela Bielorrússia – que dividiria equitativamente a parte mais ocidental da antiga Ucrânia entre a Roménia, a Eslováquia, a Hungria e a Polónia.

Uma pequena parte permaneceria como um parque temático étnico para os nacionalistas ucranianos que restassem, se ainda restasse algum, completo com cabanas de lama caiadas de branco e com telhado de palha, homens corpulentos de nariz vermelho, com a cabeça rapada exceto no topete, mulheres espetacularmente gordas e voluptuosas com vestidos floridos e porcos a chafurdar em poças de lama por todo o lado. Vendiam toucinho de porco fumado e vodka de ameixa em bancas à beira da estrada, cantavam canções melancólicas sobre um arbusto de arando e planeavam secretamente torturar e matar toda a gente que não fosse como eles, mas nunca estavam suficientemente sóbrios para fazer alguma coisa.

06/setembro/2023

NT
[1] Gagáusia: parte da Moldávia cuja população é de origem turca.
[2] Pinsk: cidade, antes da Polónia, a sudoeste de Minsk, próxima da fronteira com a Ucrânia. É um jogo de palavras pois Pinsk rima Minsk, cidade onde foram assinados dois acordos que não foram respeitados pela Ucrânia nem pelos seus garantes (a França e a Alemanha).

[*] Escritor, russo.

A versão em inglês encontra-se em boosty.to/cluborlov/posts/4e5b6af0-84be-46dd-b5fb-0bcd21df9ef1?from=email.

Este artigo encontra-se em resistir.info

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