25.5 C
Brasília
domingo, 26 maio, 2024

PROJETO BOLSONARO: MARCHA ACELERADA PARA O PASSADO MEDIEVAL 

Foto: Ueslei Marcelino (Reuters) 

Pedro Augusto Pinho*

O Ministro da Infraestrutura do Governo Bolsonaro até 31/03/2022, militar da reserva que se declara católico, carioca Tarcísio Gomes de Freitas (1975) protagonizou um espetáculo vergonhoso na campanha política deste ano eleitoral, e fez divulga-lo em vídeo nas redes virtuais. Numa igreja neopentecostal, ao lado do responsável pelo empreendimento comercial-religioso, entre outras demonstrações de desrespeito aos brasileiros, disse que a postura desta Nação deveria ser de joelhos e não altaneiramente ereta, orgulhosa de ser brasileira.

Tal como o Presidente é capitão da reserva, foi engenheiro do Exército Brasileiro, chefe da seção técnica da Companhia de Engenharia do Brasil na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti e coordenador-geral de Auditoria da Área de Transportes da Controladoria Geral da União (CGU). Trabalhou no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), que assumiu em meio à “faxina ética”, determinada pela presidente Dilma Rousseff, após crise provocada por denúncias de corrupção. Ascendeu à Diretoria-Geral em 22 de setembro de 2014, tendo exercido o cargo até 16 de janeiro de 2015.

Aurélio Agostinho de Hipona (354-430), conhecido como Santo Agostinho, doutor da Igreja, nascido em Tagaste, antiga cidade da Numídia, atual Argélia, escreveu “De Civitate Dei” (“A Cidade de Deus”) e “Confissões“. Este Santo do catolicismo pregava, na Idade Média, que o homem nada era sem Deus, a graça de Cristo era indispensável para a liberdade humana e desenvolveu a doutrina da “guerra justa”. Muitos protestantes, especialmente os calvinistas, consideram Agostinho como um dos “pais teológicos” da Reforma Protestante por causa de suas doutrinas sobre a salvação e graça divina. Já em seu tempo, quando ruía o Império Romano, este pregador religioso estava desatualizado, não olhava para frente mas para trás, desejoso de criar uma “Cidade de Deus”, presa a um passado mais mítico do que real.

Também, ao retrógado, não se lhe pode atribuir o espírito puro, que se faz distinguir um santo. Lê-se nas “Confissões” que a torpeza, “mais afoitamente a devassidão”, são mestras dos homens (Livro I.16), repetindo este pensamento em “A moral e os costumes” (Livro III.8).

Nada mais adequado para os seguidores de Calvino, padroeiro dos banqueiros, pregador que acreditava na predestinação e defendia “a acumulação de capitais”.

Ou seja, o que propõe este candidato do partido bolsonarista? Que o trabalho, o estudo, tudo isso é inútil. O que vale é a astúcia e a proteção divina (sic). Por isso, este governo pode descartar, e efetivamente aliena, todo patrimônio nacional, mais recentemente nosso próprio território nas áreas costeiras. De acordo com a Secretaria de Patrimônio da União (SPU) há cerca de 500 mil imóveis no País classificados como terrenos de marinha, dos quais 270.929 (mais da metade) aparecem registrados a responsáveis únicos. O Projeto de lei em discussão no Congresso permitirá a alienação a particulares, pessoas físicas e jurídicas que os ocupem.

Eleito, o ex-dilmista Tarcísio de Freitas engrossará certamente os apoiadores desta alienação patrimonial brasileira.

Estes passadólogos, pastores neopentecostais, seguidores do bilionário bispo Macedo, combatendo os Estados Nacionais em nome de falsa liberdade, que só atinge os muitos ricos, como Edir Macedo, donos de bancos, de igrejas, de terras e imóveis, nem mesmo olham pelos que os sustentam, com trabalho escravo ou votos enganados.

Leiamos uma reflexão do professor Giorgio Sinedino, sinólogo e tradutor, doutor em filosofia chinesa pela Universidade Renmin e mestre pela Universidade de Pequim, organizador das edições pioneiras em português dos “Analectos”, de Confúcio, e do “Dao De Jing”, de Laozi, na “Introdução” desta última obra:

“O paradoxo mais fundamental está em que a China ganhou ao insistir no modelo “superado” de Estado-Nação, submetendo a economia aos próprios interesses geopolíticos e fomentando um tipo de culto à nação cujas consequências internacionais, potencialmente ominosas, ainda são ignoradas ou enjeitadas como nonsense. Afinal, a globalização do capital financeiro redundou em concentração de renda e inclusão de novas elites que pouco têm a ver com os ideais liberais-democráticos que continuam a legitimá-las” (Laozi, “Dao De Jing”, tradução, notas, variantes e seleção de textos por Giorgio Sinedino para Editora Unesp, SP, 2016).

É pouco conhecido o pensamento oriental chinês. Chega-se aqui mais o budismo, além dos misticismos indianos, do que o pensamento ateísta das escolas chinesas de mais de cinco séculos antes da Era Cristã. Ou seja, Laozi e Confúcio estão separados por quase 1.000 anos de Agostinho de Hipona. Mas têm muito maior atualidade e presença na reação a esta Era Neoliberal Financeira.

Vamos analisar estas contribuições para a sociedade miscigenada brasileira, ou seja, dentro das matrizes das populações originárias, da africana cruelmente importada e da europeia dos primeiros colonizadores.

Darcy Ribeiro, o genial pensador brasileiro, escreveu que “o subdesenvolvimento não corresponde a uma crise de crescimento, mas a um trauma em que submergem sociedades subordinadas a centros industriais, que se veem ativadas por intensivos processos de modernização reflexa e de degradação cultural” (Darcy Ribeiro, “O Processo Civilizatório”, “Estudos de Antropologia da Civilização”, volume I, Editora Civilização Brasileira, RJ, 1968).

Em outras palavras, antecipa a desfigurante globalização como causa dos graves males que ocorrem nas sociedades atuais, que Giorgio Sinedino aponta ter a China escapado por manter o pensamento e as tradições milenares, não se dobrando à financeirização da vida.

Também Darcy Ribeiro, em “Os Índios e a Civilização” (V volume dos “Estudos de Antropologia da Civilização”, 1970), recorda os “princípios compendiados em 1822 por José Bonifácio de Andrada e Silva e até então irrealizados”, que Candido Rondon exigiu para aceitar a participação na instituição federal de assistência aos índios:

“1º – Justiça, não esbulhando mais os índios, pela força, das terras que ainda lhes restam e de que são legítimos senhores;

2º – Brandura, constância e sofrimento de nossa parte, que nos cumpre como a usurpadores e cristãos;

3º – Abrir comércio com os bárbaros, ainda que seja com perda da nossa parte;

4º – Procurar com dádivas e admoestações fazer pazes com os índios inimigos;

5º – Favorecer por todos os meios possíveis os matrimônios entre índios e brancos e mulatos”.

Quão diferentes do projeto que uma entidade fantasmagórica, o “mercado”, procura nivelar etnias, populações, civilizações em favor do maior e mais rápido ganho financeiro.

David Blake foi um ministro protestante que veio fundar missão no alto Gurupi. “Um homem estranho”, assim o descreve Darcy Ribeiro, “ex-inglês”, ex-pastor e ex-muita coisa mais. Hoje é um bom caboclo, isolado na mata, sedento de uma conversa” (Darcy Ribeiro, “Diários Índios Os Urubus-Kaapor”, Global editora, SP, 2014). O rio Gurupi corre na divisa do Pará com o Maranhão e desagua no Oceano Atlântico.

“Segundo David, quando se chega na aldeia (dos Urubus-Kaapor), a primeira ideia é a de que vivem em comunismo. Cada caçador, quando chega, divide a sua caça, ainda que insignificante, com todos os outros moradores e o mesmo acontece com o produto das roças”.

O “cunhadismo” era comum nos tupinambás que habitavam o Brasil no século XVI. Foi graças a este costume que os portugueses conseguiram mão de obra para cortar e levar pau-brasil para seus navios.

A presença indígena está nos acidentes geográficos, nas palavras, hábitos alimentares, na rede e equipamentos domésticos por todo território nacional brasileiro.

Arthur Ramos, médico e antropólogo alagoano, no volume “As culturas indígenas”, de sua “Introdução à Antropologia Brasileira”, escreve que “embora o Homem Americano não seja autóctone e tenha provindo de troncos mongoloides, as suas culturas apresentam, no entanto, características tão afastadas das culturas asiáticas, que se podem considerar na realidade como autóctones. Suas línguas, sua cultura material, suas instituições, foram experiências acumuladas ao sol do Novo Mundo”.

Portanto, no que se refere às populações originárias, esta pasteurização cultural globalizada não encontra ressonância nem base de sustentação que tanto busca o capitão carioca, candidato Tarcísio.

De imensa importância para nossa sociedade miscigenada são os africanos, aqui trazidos pela selvageria dos europeus, para trabalharem como escravos, sem o mínimo respeito pela sua condição humana.

Teriam os africanos qualquer tipo de vinculação com o neoliberalismo financeiro e neopentecostal? Em hipótese alguma.

Veja-se, em Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, “Filosofias Africanas”, 2020, ao “afirmar uma “fala” africana, na contramão dos teóricos em geral, que tendem frequentemente a generalizar a partir de uma base eurocêntrica”.

O que há de comum nas filosofias africanas é o entendimento do “Universo como um organismo em constante transformação e crescimento”; e Lopes e Simas acrescentam: “alguns povos, como os Dogons, da atual República do Mali, simbolizam a origem da vida universal em uma semente que faz estourar seu envoltório e passa a crescer em um movimento sem limite”. Quão distante do imobilismo secular da pregação neopentecostal do capitão Tarcísio, engessando a sociedade no Canaã pré-romano, dos faraós egípcios!

O Brasil não pode continuar em marcha a ré. Precisamos retomar o desenvolvimento nos padrões tecnológicos atuais, para o que será fundamental colocar o Estado Nacional investindo pesadamente na educação ao invés de remunerar, em exorbitante fartura, os ganhos financeiros.

Os governos saídos do golpe de 2016 têm o povo como inimigo, pois suas maiores preocupações são desfazer as conquistas da Era Vargas, onde se destacam a educação e a valorização do trabalho, ministérios criados no primeiro mês do Governo Provisório de Getúlio Vargas (da Educação e Saúde Pública e do Trabalho, Indústria e Comércio).

Estas palavras do ex-ministro em um empreendimento comercial-religioso, mais do que repúdio, nos causam vergonha.

 

https://noticias.gospelmais.com.br/pre-candidato-sp-tarcisio-curado-cancer-apos-oracao-154196.html

Tarcísio Gomes de Freitas

@tarcisiogdf

8 de mai

Tantas lições vieram da minha mãe. Uma delas, e que eu tenho a mais absoluta certeza de que guiou os meus caminhos, foi a fé, o joelho dobrado. E eu só tenho a agradecer. Obrigado por tudo, mãe. E obrigado por tudo Cris, que sempre cuidou com todo amor e zelo dos nosso filhos.

Duas considerações sobre o local da fala do ex-ministro. A Igreja Mundial do Poder de Deus é uma cópia da Igreja Universal do Reino de Deus, o mais bem sucedido empreendimento comercial-religioso neopentecostal do Brasil. O “bispo”, atualmente “apóstolo” (a enorme quantidade de bispos obrigou os neopentecostais a criar seu equivalente ao cardeal, católico, denominando-os “apóstolos”), dono desta igreja é Valdemiro Santiago de Oliveira (1963), que, segundo levantamentos disponíveis na internet, chegou a contar com mais de 2.000 templos, filiais espalhadas pelo Brasil. Também na Wikipédia, pode-se ver que a vida deste apóstolo é uma folha corrida, com atentados, processos e controvérsias, que ora lhe dão a fortuna de 220 milhões de dólares, ora a dívida de 150 milhões de reais. O fato é que cresceu com uso da televisão e de meios virtuais de comunicação, tendo ficado conhecido pela intimação do Ministério da Saúde por comercializar “feijões milagrosos”.

Perfeita parceria para aquele não reconhece o valor do estudo e do trabalho, para contribuir no crescimento pessoal e da sociedade em que vive.

*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS