Emiliano José
Che queria compreender melhor a conjuntura do Congo. Percebera muita inconsistência revolucionária nos principais dirigentes locais. Deu preferência à interlocução com Laurent Kabila, embora não endosasse inteiramente o comportamento dele. Seguia assuntando. Queria tomar pulso da situação naquela viagem exploratória. Imaginou poder encontrar-se com os Freedom Fighters em grupos separados, em conversas informais.
A embaixada cubana, no entanto, equivocadamente na opinião dele, ou por engano, organiza uma barulhenta reunião com mais de 50 pessoas, representantes de movimentos de mais de 10 países, cada um dividido em duas ou mais tendências. Todos reivindicavam dinheiro e treinamento dos combatentes em Cuba.
Che disse não.
Primeiro, seria muito dispendioso. Segundo, um desperdício: guerrilheiros deviam ser forjados no campo de batalha, não em academias militares. Todos, então, recomendou, treinassem no próprio Congo, na luta contra um títere local e contra o imperialismo norte-americano.
Pedagogicamente, bateu na tecla da importância da luta congolesa, ressaltando o significado de uma vitória: teria repercussões continentais, como destacou a repercussão negativa no caso de uma derrota.
Che visualizava um grande foco guerrilheiro liderado por cubanos, ao qual os combatentes de países vizinhos poderiam se juntar, contribuir para a guerra de libertação do Congo, e adquirir dessa maneira experiência de combate e de organização para desenvolver a luta nos países deles.
Os participantes da reunião não gostaram da ideia. Reagiram friamente. A maioria não se manifestou, mas houve alguns mais ousados: aceitassem a proposta de Che, e seriam duramente criticados nos países de origem, os quais viviam sob a agressão do imperialismo, por envolverem companheiros numa guerra para libertar outros países, e não o de cada um deles.
Che, persistente, tentou fazer ver àqueles candidatos a guerrilheiros não se tratar de uma guerra enclausurada em fronteiras nacionais. Era uma guerra continental. Entendessem isso. Guerra contra o imperialismo, um senhor comum, tão onipresente, como ele dizia, em Moçambique como no Malavi, na Rodésia ou na África do Sul, no Congo ou em Angola. Pedagogia política voltada ao internacionalismo.
Silêncio. Ninguém na sala, nem uma única solitária voz alevantou-se em defesa da posição dele. Despediram-se de modo cortês, porém, friamente. Nele, restou a convicção, a nítida impressão de um longo caminho pela frente até África conseguir contar com uma verdadeira direção revolucionária. Sobrava para ele a tarefa imediata, então, de selecionar um grupo voluntário de cubanos pretos para reforçar a luta congolesa.



