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quarta-feira, 16 setembro 2026

Presença de Cuba em terras africanas – Cartas habaneras (LXV)

Emiliano José

Che queria compreender melhor a conjuntura do Congo. Percebera muita inconsistência revolucionária nos principais dirigentes locais. Deu preferência à interlocução com Laurent Kabila, embora não endosasse inteiramente o comportamento dele. Seguia assuntando. Queria tomar pulso da situação naquela viagem exploratória. Imaginou poder encontrar-se com os Freedom Fighters em grupos separados, em conversas informais.

A embaixada cubana, no entanto, equivocadamente na opinião dele, ou por engano, organiza uma barulhenta reunião com mais de 50 pessoas, representantes de movimentos de mais de 10 países, cada um dividido em duas ou mais tendências. Todos reivindicavam dinheiro e treinamento dos combatentes em Cuba.

Che disse não.

Primeiro, seria muito dispendioso. Segundo, um desperdício: guerrilheiros deviam ser forjados no campo de batalha, não em academias militares. Todos, então, recomendou, treinassem no próprio Congo, na luta contra um títere local e contra o imperialismo norte-americano.

Pedagogicamente, bateu na tecla da importância da luta congolesa, ressaltando o significado de uma vitória: teria repercussões continentais, como destacou a repercussão negativa no caso de uma derrota.

Che visualizava um grande foco guerrilheiro liderado por cubanos, ao qual os combatentes de países vizinhos poderiam se juntar, contribuir para a guerra de libertação do Congo, e adquirir dessa maneira experiência de combate e de organização para desenvolver a luta nos países deles.

Os participantes da reunião não gostaram da ideia. Reagiram friamente. A maioria não se manifestou, mas houve alguns mais ousados: aceitassem a proposta de Che, e seriam duramente criticados nos países de origem, os quais viviam sob a agressão do imperialismo, por envolverem companheiros numa guerra para libertar outros países, e não o de cada um deles.

Che, persistente, tentou fazer ver àqueles candidatos a guerrilheiros não se tratar de uma guerra enclausurada em fronteiras nacionais. Era uma guerra continental. Entendessem isso. Guerra contra o imperialismo, um senhor comum, tão onipresente, como ele dizia, em Moçambique como no Malavi, na Rodésia ou na África do Sul, no Congo ou em Angola. Pedagogia política voltada ao internacionalismo.

Silêncio. Ninguém na sala, nem uma única solitária voz alevantou-se em defesa da posição dele. Despediram-se de modo cortês, porém, friamente. Nele, restou a convicção, a nítida impressão de um longo caminho pela frente até África conseguir contar com uma verdadeira direção revolucionária. Sobrava para ele a tarefa imediata, então, de selecionar um grupo voluntário de cubanos pretos para reforçar a luta congolesa.

CHE GUEVARA IN THE CONGO by khalo matabane - Indiegogo

Che, no entanto, apesar da má receptividade da estratégia defendida por ele junto às lideranças africanas, das dúvidas dele próprio sobre tais lideranças, da falta de informações consistentes sobre a real situação no interior do Congo, apesar de tudo isso, pretendia seguir em frente.

Em 25 de fevereiro de 1965, em Argel, fala no Segundo Seminário Econômico de Solidariedade Afro-Asiática. Conclama as potências socialistas a apoiarem desinteressadamente os movimentos de libertação do Terceiro Mundo. Ia além: arcassem com os custos de transformar nações subdesenvolvidas em sociedades socialistas.

Falava para cerca de 40 delegações africanas e asiáticas. Havia uma causa comum entre Cuba e os representantes daqueles países: a aspiração comum de derrotar o imperialismo.

Uma vitória de qualquer país contra o imperialismo é vitória nossa, dirá. Do mesmo modo, uma derrota de qualquer país é derrota para todos, completará.

Defendia uma posição política e filosófica: só pode existir socialismo se houver uma mudança na percepção do homem capaz de gerar uma nova atitude fraternal para com a humanidade, no plano individual, na sociedade que constrói ou construiu o socialismo, bem como no plano mundial, em relação a todos os povos que sofriam a opressão imperialista.

Conclamou à formação de um grande e compacto bloco de nações para ajudar outras a se libertarem do imperialismo e das estruturas econômicas que tal imperialismo lhes impusera. Defendeu ainda uma atitude solidária dos países socialistas fabricantes de armas: não cobrassem pelo armamento entregue às nações em luta contra o imperialismo.

Novos acontecimentos se precipitaram no Congo. Mercenários brancos liderados pelo mercenário britânico-irlandês Mike Hoare, a soldo do governo, começaram a atacar os rebeldes congoleses. Era uma ameaça concreta às áreas libertadas ao longo da margem oriental do Lago Tanganica. Se Cuba tinha a pretensão de entrar na luta, a hora chegara.

Em 15 de março daquele 1965, Che passa por Cuba. Já está praticamente decidido a seguir para o Congo. Essa passagem por África seria uma espécie de “esquentamento” para a luta na América Latina, onde pretendia desenvolver a guerra de guerrilhas libertadora do continente, ao menos iniciá-la. Há a constatação de uma certa inquietação dele: pretendia entrar em campo o mais breve possível, de modo a poder cumprir, como ele via, a missão histórica dele.

Chega a Dar-es-Salaam em 19 de abril. Com aparência inteiramente diferente, de modo a que ninguém pudesse reconhecê-lo. Ele mesmo relata:

– Um belo dia, apareci em Dar-es-Salaam. Ninguém me reconheceu, nem mesmo o próprio embaixador [Pablo Ribalta], velho camarada de armas, foi capaz de me identificar quando cheguei.

Revolucionario cubano muerto en combate en Bolivia, cuando formaba parte de  la guerrilla internacionalista del Comandante Ernesto Che Guevara. Su  actividad intensa como combatiente internacionalista la desarrolló usando  indistintamente los pseudónimos de

Com ele, Papi Tamayo, emissário itinerante para as guerrilhas, e Víctor Dreke, oficial cubano, negro, designado o comandante oficial da brigada internacional cubana.

Iniciava-se ali um novo capítulo na vida de Che e na de Víctor Dreke. Os três foram alojados numa pequena fazenda nos arredores de Dar-es-Salaam, alugada por Pablo Ribalta. Esperariam a chegada de mais membros da brigada cubana. Che seria conhecido por Tato – três. Papi, Mbili, dois. Dreke era Moja, o número um, tudo do dicionário suaíle.

#omilagrecubano

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