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sexta-feira, 1 março, 2024

Porta vozes da Casa Branca no Brasil censuram Putin ao dar aula de soberania, antineoliberalismo e multilateralismo global

– Foto Sputnik

César Fonseca 

Mais de 48 depois da entrevista presidente da Rússia, Vladimir Putin, ao jornalismo americano, Tucker Carlson, divulgada no X de Elon Musk, com repercussão mundial, porta-vozes de Washington, no Brasil, como O Globo e a Folha de São Paulo, escondem a informação dos seus leitores e telespectadores; demonstram sua essência fundamental: censurar tudo que incomoda Tio Sam; destaque-se que o Estadão divulgou parcialmente o evento, distinguindo-se do comportamento dos Frias e dos Marinho, cães de guarda da Casa Branca em terras tupiniquins.

Carlson abriu os microfones ao líder russo para explicar sua versão da guerra na Ucrânia, onde forças americanas e da Otan apoiam o governo neonazista de Zelenski para tentar a grande façanha do capitalismo financeiro ocidental: mudar o regime político na Rússia.

Como as forças do ocidente, capitaneadas por Washington, não conseguiram tal intento imperialista, jornalista conservador americano – parabéns para ele – foi a Moscou conversar com o presidente; iniciou perguntando, como seria natural, do ponto de vista americano, porque a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, levantando a ira e a versão “definitiva” ocidental de que os russos iniciaram a guerra.

A resposta longa de Putin, que se iniciou em explicações largas de história, para demonstrar formação do território russo desde o ano 862, até chegar em 2022, alinhavando o que considera razões russas para proteger seu território das agressões imperialistas americanas e otanistas, é, antes de mais nada, lição de história que todos precisam saber, como instrução social de ordem geoeconômica e política de amplitude geral.

Concordar com ele não vem ao caso, no momento, porque guardam possibilidades de contestações, o que os especialistas, realmente, abordarão; o fato fundamental, no entanto, é a liberdade de imprensa, que o ocidente eliminou para não deixar circular as razões russas sobre o porquê Putin teve de reagir contra a escalada neonazista ucraniana financiada pelos EUA-OTAN, rompendo todas as tentativas de acordos prévios que Putin destaca com conhecimento enciclopédico.

EXPLICAÇÃO EXUBERANTE

A performance do líder russo já seria justificativa mais que suficiente para exibição dos seus argumentos como fator de educação histórica, econômica e política mundial, a fim de demonstrar, a partir da visão dele, como o imperialismo americano recusou todas as tentativas de aproximação da Rússia do ocidente depois da guerra fria, quando se extinguiu a União Soviética.

Putin diz algo que o ocidente não escuta: que, depois do colapso da União Soviética, a Rússia guardava diferenças ideológicas internas com o socialismo leninista e se mostrava disposta a aproximar-se dos Estados Unidos, ou seja, da ordem capitalista, como deixara claro ex-presidente russo, Boris Yeltsin, em sua visita aos Estados Unidos.

Washington, porém, sempre desconfiada, entronizou o argumento de que a restauração do velho nacionalismo russo, orgulho nacional histórico, ancorado ideologicamente no catolicismo ortodoxo, seria passo decisivo para retorno ao socialismo bolchevique, razão pela qual a luta fundamental continuaria sendo capitalismo x comunismo.

Putin, nacionalista, ri desse temor de Washington, porque sua missão, na reconstrução russa, ancorou-se no nacionalismo burguês, orgulhoso de sua história por ter derrotado a concepção comunista leninista, embora guardasse crítica a Stalin por sua vocação ditatorial marcada pela agressão violenta aos direitos humanos etc.

Ou seja, Putin, a partir de 2000, quando assume o governo russo, buscava aproximação com os Estados Unidos e não a sua rejeição; lembra ele ao jornalista americano que o momento crucial da sua tentativa de aproximação com o ocidente foi sua proposição favorável à construção conjunta – Rússia, Europa e Estados Unidos – de um sistema de defesa antimíssil.

Os líderes americanos, orgulhosos por terem derrotados a União Soviética socialista e dado partida ao neoliberalismo financeiro, como arma de dominação econômica internacional, recuaram diante da proposta de Putin e dobraram aposta de avanço do ocidente, EUA-OTAN, rumo ao Leste, para impor à Rússia o modelo neoliberal.

RESISTÊNCIA RUSSA AO NEOLIBERALISMO

Foi, então, diz Putin, que a Rússia partiu para proteger sua soberania, construindo para si o sistema antimíssil, consciente de que se não fizesse isso seria engolida por Washington e seu poder bélico, espacial e atômico, impulsionado pelo keynesianismo de guerra.

Resultado: a Rússia conquistou sua independência atômica e antimíssil, virando adversária, muito mais potente de Washington, o que a levaria, geopoliticamente, mais tarde, à união com a China, como, efetivamente, aconteceu em fevereiro de 2022, com início da guerra por procuração, na Ucrânia, armada pelos Estados Unidos e Otan.

Putin e Xi Jinping, a partir de então, juntaram, para valer, o destino comum Rússia-China, na escalada das novas fronteiras econômicas, com Rota da Seda, expansão dos BRICs etc, ambas unidas tornando-se vanguarda irresistível do desenvolvimento global multilateral.

Sobretudo, a entrevista de Putin demonstra a formação da cabeça de um líder político que ironiza, hoje, a Europa, que recuou aos argumentos russos, em favor de construção de uma defesa ocidental – Rússia-Europa-Estados Unidos – dizendo que estavam sendo pressionados pelos americanos; pergunta ele, sorrindo: como é possível uma Europa livre, sem tem medo de pressões de Washington quando está em jogo seus próprios interesses?

Os meios de comunicação, dominados pelo dólar e pelo euro, por interesses econômicos e financeiros ocidentais, que amargam prejuízos crescentes diante do nacionalismo russo e da aliança Rússia-China, decidem não discutir as palavras de Putin.

Fazem-se cegos diante de Rússia e China que, juntas, estruturam nova economia mundial por intermédio dos BRICs, colocando em xeque-mate a moeda americana.

A mídia ocidental foge da sinceridade das palavras de Putin, em sua exposição sobre os erros cometidos pelas lideranças americanas e europeias, aliadas na OTAN, na tentativa frustrada de mudar o regime político na Rússia.

Estreparam-se nessa tarefa e como consequência colhem, no ambiente da financeirização econômica comandada pelos Estados Unidos, perda da corrida tanto armamentista como econômico-financeira, para os russos e chineses e sua estratégia de fixar novas relações multilaterais colocando em xeque o unilateralismo ultra neoliberal.

FUGA DO NEOLIBERALISMO

O horror do ocidente a Putin é que o líder russo – como também o líder chinês, Xi Jinping – não viram no neoliberalismo a saída correta para a Rússia pós-União Soviética, que se identificaria, crescentemente, com a China social-nacionalista, para resistir ao ocidente neoliberal.

A realidade atual é a Rússia vencedora da guerra na Ucrânia, aliada da China, que, juntas, ergueram o BRICS, hoje, mais forte que a economia ocidental.

A entrevista de Putin é aula de geopolítica e abertura de espaço para novo entendimento mundial a partir do multilateralismo que está na base das propostas dos BRICs, enquanto o neoliberalismo unipolar washingtoniano, frente à união Rússia-China, tenta evitar que a pregação do líder russo e do seu colega chinês, Xi Jinping, seja alcançada na totalidade do ocidente por meio de censura neoliberal decadente.

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