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sábado, 15 junho, 2024

Por que o Ocidente reaprendeu a abraçar o fascismo?

Cartoon, autor desconhecido.

Matthew Ehret [*]

Durante a Guerra Fria e especialmente depois de 1991, poucos se perguntaram: do sangue de quem surgiu tamanha abundância e “liberdade”?

No ocidente, muitos foram levados a acreditar que a ideologia do nazifascismo era simplesmente tão má que nada disso poderia acontecer novamente. O romance It Can’t Happen Here, de Sinclair Lewis, 1935, tentou alertar os americanos de que o maior perigo do fascismo ser bem sucedido não estava no seu retrato caricatural dos meios de comunicação, mas sim na ilusão psicológica coletiva de que tal sistema nunca poderia ver a luz do dia num país “amante da liberdade “como os Estados Unidos.

Infelizmente, como temos visto em quase oito décadas desde a vitória dos Aliados em 1945, o fascismo ressurgiu de fato numa expressão mais virulenta do que qualquer um podia imaginar. [1]

À medida que o sistema financeiro atual caminha para um colapso inevitável, não totalmente diferente do rebentar das bolhas da economia de casino em 1929, as forças geopolíticas estão mais uma vez em jogo e mais uma vez evocam a possibilidade muito real de uma nova guerra mundial.

Em vez de tentar evitar um confronto nuclear desastroso e honestamente aceitar as vias diplomáticas oferecidas por estadistas russos e chineses, só se ouve o ruído de espadas belicistas nos salões autocongratulatórios de Davos e da OTAN.

Em vez de se verem esforços para remediar o aniquilamento de formas viáveis de energia, produção de alimentos e capacidade industrial, necessárias para suportar a vida nas nações ocidentais, vê-se a tendência oposta seguir em rigorosa sintonia. Em quase todas as nações apanhadas na jaula da OTAN, encontramos apenas líderes fantoches desprovidos de qualquer substância e que parecem não estar dispostos a inverter a crise de escassez que eles próprios causaram e que ameaça destruir inúmeras vidas.

Alguns até parecem pensar que está era de escassez é uma coisa boa. Os unipolares e transumanistas [nt][2] que se arrastam pelos corredores do poder continuam proclamando que a crise atual é, na verdade, uma “oportunidade” disfarçada.

Mudando definições: Quando “suicídio” se torna “oportunidade”

Seja Mark Carney defendendo esta crise civilizacional como uma oportunidade maravilhosa para tirar a humanidade de sua dependência de hidrocarbonetos combustíveis baratos e abraçar uma nova ordem de energia verde, ou Anthony Blinken celebrando a sabotagem do Nordstream como uma “tremenda oportunidade” para libertar a Europa do gás russo barato. O efeito é sempre o mesmo.

Todas essas elites parecem acreditar que o comportamento coletivo do ocidente transatlântico pode finalmente ser transformado por esta infeliz crise, para que aprendamos a viver com menos, a não possuir nada sendo felizes, a comer inseto em vez de carne “suja” e a reduzir nosso impacto no meio ambiente “tornando-nos verdes”. O presidente francês, Macron, expressou essa visão tecnocrática da maneira mais fria em setembro, quando proclamou que “a era da abundância acabou”.

No meio deste novo ethos surgindo sob o disfarce de um “Grande Reset”, viu-se o governo dos EUA alocar milhões de dólares de fundos públicos para explorar técnicas para bloquear a luz solar que chega à Terra, a fim de impedir o aquecimento global. Até mesmo a molécula de dióxido de carbono, antes valorizada como alimento para as plantas (junto com a luz solar, também demonizada), tornou-se o inimigo número 1, destinado a ser banido do reino humano numa era pós-reset.

Este é o mesmo governo “amante da liberdade” que nos últimos anos investiu vários bilhões de dólares no resgate de bancos zumbis e despejou armas de destruição em massa em nações outrora viáveis como Iraque, Líbia, Síria, Iémen e Ucrânia, enquanto praticamente nada gastou para reconstruir a infraestrutura vital e as indústrias de que desesperadamente os cidadãos necessitam para sua sobrevivência básica.

Em países da OTAN, as leis de eutanásia são alargadas muito para além dos limites da razão para incluir doentes mentais e menores “maduros” com menos de 18 anos, para obter uma pílula paga pelo contribuinte para cometer suicídio. As drogas que alteram a mente são apontadas por propagandistas como formas de libertação a serem descriminalizadas, enquanto os financeiros da City de Londres e da Wall Street que lavam os dinheiros destas drogas em contas offshore, ficam impunes.

Mesmo “revistas científicas” como a Live Science publicam artigos de propaganda que justificam a noção absurda de que uma “pequena guerra nuclear” poderia realmente beneficiar o meio ambiente ao reverter o aquecimento global que os modelos computacionais do IPCC nos dizem ter ocorrido, apesar de todas as evidências empíricas em contrário.

Se todos os elementos descritos acima são sintomas, a essência particular da expressão moderna do fascismo tem sido difícil de identificar por muitas razões. Talvez a mais importante dessas razões resida no fato de que a mente de qualquer pessoa, demasiadamente bem adaptada à nova modernidade, tornou-se inválida, pela propaganda concebida nesse sentido. Parece duro, mas muitas vezes é assim.

Educado para a estupidez

Enquanto a educação foi baseada em incentivar os alunos a fazerem descobertas e aprenderem a pensar por si mesmos, podiam tornar-se bons trabalhadores e bons cidadãos. Os padrões educacionais de hoje afundaram-se em profundidades de mediocridade que nossos avós não teriam pensado ser possíveis.

Em vez de replicar as descobertas de ideias verdadeiras, os alunos das instituições de ensino superior modernas, aprendem a memorizar as fórmulas necessárias para passar nos exames sem entenderem como ou por quê essas fórmulas são verdadeiras. Em todos os programas STEM, os alunos orientados para a ciência, em vez de usarem seus próprios poderes de raciocínio, aprendem a repetir crenças comummente sustentadas e promovidas pelo consenso dos especialistas que controlam revistas e soberanamente avaliam os textos submetidos.

O brilhante engenheiro agrónomo Allan Savory, que realizou milagres ao transformar regiões desérticas da Terra por meio de práticas básicas do entendimento integral dos fenómenos, descreveu a fraude da lavagem cerebral moderna da revisão dos textos no seguinte pequeno vídeo:

Qu’est-ce que la science? (em francês): pic.twitter.com/cJwjDz2cI4

Os estudantes de história aprendem modelos explicativos que enfatizam leituras higienizadas de nosso passado, obscurecendo a realidade das intenções (pseudónimo de conspirações) e os estudantes de ciências são treinados para pensar em termos de “probabilidade estatística” em vez de princípios de causalidade. A nossa crise é na realidade ainda mais profunda.

O aspeto subjetivo do êxito do fascismo

Embora seja confortável para alguns pensar que a causa de nossos problemas está na corrupção e manipulação de uma elite conspirativa, a verdade é muito mais subjetiva como Shakespeare observou em sua peça Júlio César. Nesta peça, Cássio, adverte o seu co-conspirador Brutus que “nosso destino… não está nas estrelas, mas em nós mesmos que somos súbditos”. Por outras palavras, são necessários dois para o tango.

Nesse sentido, uma das principais razões para o sucesso da ascensão do fascismo após a Segunda Guerra Mundial tem pouco a ver com o planejamento conspirativo das forças oligárquicas que se infiltraram nos nossos governos desde a morte prematura de Franklin Roosevelt, mas muito mais com a subtil corrupção do próprio povo, os cidadãos que constituem o chamado “mundo livre”.

Com poucas exceções, os cidadãos do ocidente “livre e democrático baseado em regras” consideraram-se livres simplesmente por desfrutarem um alto nível de conforto e abundância, enquanto a maior parte do mundo não.

Se a Segunda Guerra Mundial não tivesse sido inteiramente vencida pelos “nossos bons rapazes”, como nos disseram, como seria possível a nossa liberdade pessoal de consumir o que queremos, votar em quem queremos e dizer o que queremos?

A libertação sexual e a liberdade de “fazer o que se quer” tornaram-se as novas normas de liberdade e a ideia de que a liberdade depende de princípios morais ou do peso da consciência tornou-se sinónimo de “autoritarismo” e “sabedoria obsoleta de europeus falecidos”.

A nova geração de baby boomers, que aprendeu a “não confiar em ninguém com mais de 30 anos”, a “viver o momento” e a “deixar acontecer”, imbuiu-se de uma ética de pós-verdade relativamente estranha à civilização ocidental. Se, para muitos dos que viveram aquela época, foi uma inocente mudança de valores, para uma relação mais “emocional” com a verdade, baseada na “empatia”, no amor, não na guerra, com a adoção do relativismo moral algo muito mais sombrio se insinuou.

À medida que a geração do “flower power” que se ligou, se desligou e se tornou a geração do “eu” do mundo corporativo dos anos 80, o mito da derrota final do fascismo ficou ainda mais enraizado no “zeitgeist” (espírito do tempo). Definições cada vez mais fluidas de verdade e valor deslocaram-se para o relativismo, tais como instrumentos financeiros especulativos e derivativos, com pouca relação com a realidade, sendo vistos como formas legítimas de valor na nova sociedade orientada pelo mercado. Culturalmente, as gerações mais jovens perderam o acesso a modelos iliberais mais antigos que demonstravam verdade e dignidade, levando a um deslizamento mais profundo em direção ao niilismo entre a geração X, a geração Y e os do milénio.

Durante a Guerra Fria e especialmente após a desintegração da União Soviética em 1991, poucas pessoas se perguntavam: em que se fundava essa abundância e “liberdade”? Por que líderes nacionalistas na África, América Latina ou mesmo no nosso próprio ocidente transatlântico morreram horrivelmente ou sofreram golpes sob a cuidadosa coordenação e financiamento de agências de serviços secretos ligadas aos governos da Inglaterra e Estados Unidos?

Se nós, ocidentais, deixássemos de produzir os bens industriais que necessitamos para nosso próprio consumo, quem preencheria o vazio? Onde estariam as colónias de escravos que Hitler e seus apoiantes imaginaram na nossa era moderna? É possível que a intenção por detrás do flagelo global da guerra, do radicalismo e da fome que assola o Terceiro Mundo desde 1945 tenha algo a ver com as forças que administram os sistemas económicos aos quais os antigos povos coloniais têm sido levados a adaptar-se de acordo com as mesmas potências coloniais que nos disseram ter-lhes concedido a independência nos últimos 70 anos?

Reformulando o ponto essencial: a verdadeira razão pela qual o domínio hediondo do fascismo está mais uma vez a ser sentido, tem muito a ver com o fato de que muitos de nós desfrutamos dos frutos que ele trouxe aos do “primeiro mundo” que beneficiaram da sua existência após a Segunda Guerra Mundial e, portanto, simplesmente se recusam a vê-lo.

Podemos lamentar a incompetência criminosa e os programas maliciosos que estão empurrando a nossa sociedade para uma nova era das trevas, mas apenas quando percebermos que o povo deve ter os líderes políticos que merece, é que podemos começar a curar as feridas que infligimos a nós próprios ao longo de várias gerações.

Atualmente, as nações da Eurásia demonstraram não desejar apagar sua história, sistemas de herança cultural antigos ou valores tradicionais perante um Grande Reset. Eles não querem a guerra, prefeririam a cooperação com ganhos mútuos (win-win) com as nações ocidentais.

O conceito de “adaptação à escassez” foi rejeitado em favor da criação de abundância através da adoção do progresso científico e tecnológico nas nações da aliança multipolar e nenhum estadista na Rússia, China ou Índia expressou a intenção de travar guerra ou sacrificar seu povo no altar de Gaia. Com tantas nações representando tantos povos e culturas diversas do mundo desejando rejeitar o fascismo (também na versão do neofeudalismo transumano) no meio da nossa atual era de crise, por que não devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para expiar os pecados do ocidente, lutando para nos juntar a esse movimento antifascista?

NT

[1] Recorde-se a reflexão de B. Brecht: “O fascismo não é o contrário da democracia burguesa é a sua evolução em tempos de crise”.

[2] Transumanismo, movimento intelectual que visa transformar a condição humana com o uso de tecnologias, alcançando as máximas potencialidades, basicamente através de meios cibernéticos para melhorar capacidades e experiências genéticas.

[*] Jornalista, conferencista e fundador da Canadian Patriot Review.

O original encontra-se em strategic-culture.org/news/2022/10/26/why-did-the-west-learn-to-embrace-fascism-again/

Este artigo encontra-se em resistir.info

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