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terça-feira, 23 junho 2026

Por que a esquerda perde poder na América Latina?

Foto Ilustração G1

César Fonseca  

Porque virou sistema e deu oportunidade à direita de dizer que sua plataforma política é antissistema.

América Latina, a partir dos anos 1990, depois das temporadas ditatoriais, havia virado à esquerda, quando, com retorno do regime democrático, derrotou a direita por assumir programas econômicos liberais-neoliberais.

Porém, ao chegar ao poder, a esquerda, sem programa nacional, renegando o socialismo e se enganando com a social democracia, rasgou seu discurso antineoliberal e virou, também, neoliberal, ou seja, virou sistema, deixando o seu perfil histórico de lado, de ser antissistema capitalista.

A exceção ocorreu na Venezuela, onde o chavismo-bolivarianismo-madurismo, por resistirem ao sistema, foi derrubado pelo imperialismo trumpista, e se encontra, no momento, tutelada.

No restante, a direita, agora, diante do estresse neoliberal – comandado por esquerda antiideológica, no poder, propensa à concessão política conservadora –, ganha força e vai voltando ao poder, no cenário latino-americano, sob o império americano trumpista, na nova versão da Doutrina Monroe.

O sistema capitalista neoliberal, historicamente, vestido de direita, depois de derrotado nas urnas pela esquerda, entendida, também, historicamente, como antissistema, muda de face.

A direita passa a vestir o antissistema, acusando a esquerda de sistema, por deixar de lado suas bandeiras históricas, como, por exemplo, o socialismo.

Os progressistas latino-americanos ganharam a cara do sistema ao assumirem o discurso do Consenso de Washington, especialmente, depois da crise do subprime, de 2008 – repeteco piorado da crise de 1929 – com quebra de grandes bancos americanos.

O Banco Central americano(FED), sob a presidência de Ben Bernanke, sucessor de Alan Greenspan, que acaba de morrer, aos 100 anos, salvou os bancos da bancarrota e, em seguida, intensificou, para a periferia capitalista, os ditames do consenso washingtoniano.

A ordem geral passou a ser não a do crescimento econômico, mas do ajuste fiscal e privatizações, seguindo modelo neoliberal:  metas inflacionárias, câmbio flutuante e superavit primário.

Assim, foram ajustadas, neoliberalmente, as contas públicas, enquanto o próprio império e seus aliados deixavam o neoliberalismo por considerá-lo ineficaz.

A esquerda latino-americana, em peso, embarcou na canoa furada.

O NOVO CENÁRIO

Agora, a situação muda de cor, em favor da direita, porque a esquerda no poder, rendida ao modelo neoliberal, não dá certo.

A sociedade, em geral, cansou do neoliberalismo, a proclamada solução que virou problema, herdada pela esquerda, politicamente, correta, conciliadora, ao conquistar o poder.

Abriu-se espaço para a direita, que passa a levantar a bandeira do antissistema como alternativa política para vencer a esquerda, taxada de sistema.

A esquerda, que, historicamente, se incorporou do espírito antissistema, para vencer a direita, vista como o sistema, virou, no poder, o próprio sistema, dando chances à adversária, que se autoproclama o que nunca foi: o antissistema.

É hilário ver a ultradireita na Argentina, Chile, Paraguai, Peru, Colômbia, Equador, El Salvador, ganhar eleições com a proclamação de antissistema que derrota a esquerda que incorporou, estando no poder, o sistema que dizia combater.

A praga pode pegar no Brasil, em 2026, alvo da sanha fascista do presidente Donald Trump?

FARSA FISCAL: VERDADE OCULTA DO SISTEMA

No Brasil, o Consenso de Washington, na Era FHC, criou, o critério falso-duvidoso de separar déficit primário – receita menos despesas, excluindo pagamento de juros da dívida pública – de déficit nominal, que incorpora o primário mais os juros, para aferição das contas públicas.

O objetivo de tal critério deturpado foi e continua sendo atender interesses do mercado financeiro, que, através dele, sustenta a taxa de juros mais alta do mundo.

Por meio de mídia corrupta, porta-voz do modus operandi político neoliberal, a sociedade foi convencida a viver sob farsa fiscal para denominar o que os neoliberais consideram farra fiscal.

Não é racional tal critério, bastando sentir suas consequências: se o déficit primário(gastos sociais e de infraestrutura) representa, atualmente, cerca de 0,5% PIB, o déficit nominal alcança 9% do PIB.

No entanto, para combater o déficit público, os neoliberais, seguindo os ditames do Consenso de Washington, recomendam ajustes fiscais não em cima do déficit nominal, valor maior, mas sobre o déficit primário, valor-menor.

O que é prioritário para o interesse público: os gastos sociais, que, essencialmente, são investimentos, que geram retornos para a sociedade em forma de desenvolvimento, ou os gastos financeiros especulativos, que não dão retorno algum e, fundamentalmente, destroem salários e qualidade de vida dos trabalhadores, para beneficiar, tão somente, os rentistas?

A farsa fiscal, travestida de farra fiscal, como se o Estado tivesse gastando mais do que arrecada, predomina como critério utilitarista.

Trata-se, dessa forma, de aprofundar o subdesenvolvimento expresso nos ditames do Consenso de Washington, popularmente, conhecido como o tripé neoliberal: metas inflacionárias, câmbio flutuante e superavit primário.

Sob tal tripé econômico, extremou-se a financeirização econômica, a concentração da renda, de um lado, e a desigualdade social, de outro, intensificando, exponencialmente, tensões sociais.

EFEITO POLÍTICO ANTIDEMOCRÁTICO

As consequências políticas decorrentes do neoliberalismo financista, que a esquerda, no poder, incorporou no seu anti-programa antidesenvolvimentista, são, equivocadamente, a volta da direita ao poder, com o hipócrita discurso antissistema.

Ou seja, a direita, ironicamente, a matriz essencial do próprio sistema, assume, na oposição, a condição de antissistema, que é a característica histórica da esquerda.

Isso foi possível porque a esquerda assumiu o modelo neoliberal, em seu processo de acomodação às teses da direita, para permanecer no poder, em condição desvantajosa de minoria política no parlamento.

Desse modo, enquanto perdurar o modelo neoliberal, que considera negativos gastos sociais, que elevam a produção, o consumo, a renda, o aumento dos salários, da arrecadação e dos investimentos, para privilegiar despesas financeiras, que não dão resultados econômicos, a tendência da sociedade é ver, de forma alienada, a realidade em sua versão invertida: a direita e ultradireita como esquerda que se perdeu.

Detentora do modo de produção capitalista, por meio da propriedade privada dos meios de produção, a direita consegue, via poder midiático, seu porta-voz, fazer crer que a esquerda, outrora porta-voz do proletariado, virou o seu contrário.

No neoliberalismo em crise, verdades e mentiras estão trocadas: a esquerda, ao chegar ao poder, rasgou seu ideário histórico, para enganar e confundir farsa fiscal com farra fiscal.

Eis porque, neste momento, perde poder na América Latina.

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