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domingo, 30 novembro, 2025

Poderiam os Estados Unidos enfrentar um Iémen ampliado e aprimorado na Venezuela?

Por Sergio Rodríguez Gelfenstein*

Nos últimos dias, temos vivido sob uma forte onda de desinformação a respeito de uma possível “invasão” ou intervenção militar dos EUA contra a Venezuela, temperada pelas já naturais contradições da retórica do presidente Trump.

É claro que não se pode ignorar na análise que a Venezuela possui as maiores reservas certificadas de petróleo do planeta e as quartas maiores reservas de gás, além de ser uma grande produtora de bauxita, ferro e coltan e ter enormes recursos hídricos, de oxigênio, de terra e de biodiversidade, o que a torna um país rico que os Estados Unidos gostariam de controlar.

Ao analisar esse conflito em termos geopolíticos, é importante considerar também que os países latino-americanos governados por forças de esquerda, democráticas e progressistas podem se tornar um importante corredor marítimo para a China, como alternativa às rotas tradicionais, especialmente para o comércio com os enormes mercados europeus e do Sul Global, que estão sendo prejudicados e sob forte pressão dos Estados Unidos.

As ameaças de Washington contra a Venezuela, a Colômbia e o México baseiam-se na possibilidade de um realinhamento geopolítico global no qual a América Latina e o Caribe poderiam desempenhar um papel fundamental, algo que os Estados Unidos querem evitar a todo custo. O recente estabelecimento de uma rota marítima entre a China e a Venezuela, que reduzirá o tempo de trânsito de mercadorias de 70 a 90 dias para aproximadamente 20 a 25 dias, conectando o porto chinês de Tianjin aos portos venezuelanos de La Guaira e Puerto Cabello, aponta nessa direção.

Esta iniciativa otimizará a logística, reduzirá custos, facilitará o comércio e fortalecerá os laços econômicos entre os dois países.
Além disso, quando essa decisão é combinada com a inauguração do porto de Chancay, no Peru, onde a China fez a maior parte do investimento e detém 60% das instalações; a aliança formada em fevereiro deste ano entre a Sociedade Portuária Buenaventura, na costa do Pacífico da Colômbia, e a empresa chinesa Cosco Shipping (que também é proprietária de Chancay), conectando diretamente a Colômbia à Ásia; e o acordo assinado entre a China e o Brasil para iniciar estudos técnicos para um projeto ferroviário bioceânico que conectaria o porto de Ilhéus, na costa atlântica do Brasil, a Chancay, na costa do Pacífico, para agilizar o transporte de produtos sul-americanos para a Ásia, podemos entender que uma mudança radical na posição global da América Latina está em curso, gerando possibilidades reais para sua transformação em um ator geopolítico de primeira linha.

Por outro lado, a crise econômica e financeira dos EUA continua a se agravar, com a dívida pública ultrapassando US$ 38 trilhões, o que representa aproximadamente 140% do seu PIB. Isso supera em muito a capacidade econômica do país, visto que seu PIB gira em torno de US$ 26 trilhões. Estamos diante de uma economia em declínio, ameaçada por um colapso do mercado de ações devido à forte queda nos preços das ações.

Essa é uma das razões — talvez a mais convincente — que explica o extremo interesse da atual administração americana no Irã e na Venezuela, ambos com enormes reservas de energia. Suas ações contra esses países não podem ser vistas apenas em termos de um conflito bilateral. Trata-se também de uma forma de dificultar o avanço da China em mercados que historicamente têm sido considerados sob influência dos EUA.

Se os Estados Unidos conseguissem subjugar o Irã, teriam dado um passo significativo em seus esforços para isolar a China do acesso aos mercados da Europa e do Oriente Médio, especialmente os do Golfo Pérsico. Isso está em consonância com a visão estratégica de Washington e sua determinação em manter a hegemonia. O mesmo se aplicaria à Venezuela, caso fosse controlada e contida.

No entanto, nesse contexto, emerge um risco geopolítico subestimado pelos Estados Unidos, decorrente da experiência da luta e resistência do Iêmen contra a tripla agressão da Arábia Saudita, do sionismo e do imperialismo. Se os Estados Unidos quisessem aprender com esse conflito, não deveriam iniciar uma guerra contra a Venezuela.

A observação dos acontecimentos mostra que, quando iniciaram sua agressão contra o Iêmen em 2015, a Arábia Saudita e os Estados Unidos se depararam com um grupo de beduínos em condições de extrema fragilidade, em um país que atravessava uma situação caracterizada por altos níveis de pobreza e escassez de alimentos e que não possuía o mínimo de desenvolvimento tecnológico ou armamento para enfrentar países infinitamente superiores em termos militares.

Os planos delineavam o cenário, sugerindo que o Iêmen seria subjugado em uma a três semanas e, após sua rendição, poderia ser tomado pela Arábia Saudita e pelo Ocidente. Isso permitiria que esses países controlassem o Estreito de Bab el-Mandeb, o Oceano Índico e o Mar Vermelho a seu critério.

Contudo, a Arábia Saudita e seus aliados permanecem atolados em um conflito que já dura 10 anos e que não conseguiram resolver. Nesse contexto, em 2019, os iemenitas haviam desenvolvido com sucesso um sistema avançado de mísseis e drones de longo alcance, obtido com assistência tecnológica e conhecimento especializado do Irã. Na realidade, porém, foram cientistas e especialistas iemenitas que desenvolveram sua própria tecnologia, incluindo a produção de mísseis hipersônicos de diferentes níveis e alcances. Esses mísseis foram usados ​​para atingir, por exemplo, as instalações da refinaria da Saudi Aramco, considerada a maior do mundo, demonstrando que os sistemas de defesa aérea americanos e europeus não conseguiam proteger essa gigante do setor energético. Naquela época, em 2019, a Aramco havia acabado de abrir seu capital, iniciando um processo pelo qual buscava listar suas ações pela primeira vez em bolsas de valores nacionais e internacionais.

Nesse contexto, nem mesmo os Estados Unidos, com todo o seu poderio militar, conseguiram proteger a Arábia Saudita, deixando-a sozinha e indefesa contra os ataques cada vez mais implacáveis ​​de mísseis e drones iemenitas. Anos depois, quando organizações político-militares palestinas lançaram a Operação Inundação de Al-Aqsa em solidariedade ao povo palestino, o Iêmen bloqueou a passagem de navios do Mar Vermelho para Israel. Após a intervenção dos EUA, que incluiu a chegada de uma frota naval composta por porta-aviões de propulsão nuclear, esse pequeno e empobrecido país frustrou as estratégias de sucessivas administrações, primeiro a de Biden e depois a de Trump, apesar de ter sofrido mais de 1.500 ataques.

Diversos relatórios elaborados por think tanks ligados ao Pentágono indicam que muitas lições podem ser aprendidas com a guerra naval travada pela Marinha dos EUA contra o Iêmen no Mar Vermelho. A pesquisa conduzida pelo Dr. John T. Kuehn, professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército dos EUA (CGSC) em Fort Leavenworth, Kansas, destaca-se. Ele concluiu que os Estados Unidos aprenderam no Mar Vermelho que os porta-aviões devem ser posicionados bem além do alcance dos mísseis e drones iemenitas, tornando aquela área marítima insegura para porta-aviões e destróieres americanos.
Voltando à Venezuela, a distância entre Caracas e Miami, Flórida, é de aproximadamente 2.200 quilômetros, uma distância semelhante à entre Sana’a, capital do Iêmen, e Tel Aviv, capital da entidade sionista que tem sido implacavelmente atacada por mísseis e drones iemenitas. Atualmente, não possuo informações que me permitam afirmar que a Venezuela tenha drones capazes de atingir o território americano.

Mas se o Iêmen, que não possui os diversos e abundantes recursos naturais da Venezuela, conseguiu construir um vasto sistema de mísseis e drones em quatro anos, com um alcance de 2.500 a 3.000 quilômetros, a Venezuela, com o apoio de seus aliados, principalmente Irã e Rússia, e suas ricas reservas de recursos minerais e energéticos, certamente poderia ter um sistema de mísseis e drones similar ou até mais avançado que o do Iêmen em menos de um ano, garantindo assim sua autodefesa e dissuasão eficaz contra qualquer ataque estrangeiro. As experiências iemenita e iraniana estão disponíveis para a Venezuela graças a laços inabaláveis ​​de amizade e solidariedade. O mesmo se aplica à República Popular Democrática da Coreia, outro país que assegurou sua segurança e autodefesa por meio da dissuasão proporcionada pela posse de armamentos capazes de atingir bases militares americanas na Coreia e no Japão.

Seria um erro estratégico para o presidente Trump permitir-se ser arrastado para um conflito que colocaria em risco a segurança dos Estados Unidos, impulsionado pela facção neoconservadora de seu governo, liderada hoje por Marco Rubio, que pretende conduzir Washington a uma nova guerra fria ideológica, assumindo o papel de defensor da luta contra o “comunismo internacional” no século XXI, personificado pelo Partido Comunista Chinês e seus aliados.

Uma simples observação revela essa realidade. É certo que a comunidade de inteligência dos EUA, particularmente as agências ligadas ao Pentágono, também a estão percebendo, inclusive com uma quantidade maior de dados e detalhes analíticos que lhes permitem determinar os riscos que a aventura militar para a qual Marco Rubio e os neoconservadores querem conduzir os Estados Unidos pode acarretar.

Uma invasão ou ocupação militar — entendida como o desembarque de contingentes militares maiores que uma divisão — é muito difícil, quase impossível no momento. Gaza, com 300 quilômetros quadrados e 2,5 milhões de habitantes, resiste a Israel, aos Estados Unidos e a todo o establishment ocidental há mais de dois anos, e estes não conseguiram derrotar e destruir a resistência armada palestina.

A Venezuela não é Gaza, nem a Síria. Diante de uma agressão militar dos EUA, a Venezuela, com seus quase um milhão de quilômetros quadrados e população de 30 milhões, sua riqueza, sua história e sua grandeza, com uma liderança consolidada, uma sólida unidade entre o povo, o governo e as Forças Armadas mobilizadas e prontas para lutar em todo o território nacional, e com uma vontade de lutar e vencer, se transformaria em uma versão muito maior e mais poderosa do Iêmen.
Os tomadores de decisão deveriam levar isso em consideração.

*Sérgio Rodríguez Gelfenstein

Com formação em Estudos Internacionais, mestrado em Relações Internacionais e Globais e doutorado em Ciências Políticas, possui uma vasta e diversificada produção acadêmica, incluindo ensaios e trabalhos jornalísticos. Até o momento, publicou 17 livros como autor e outros como editor, além de inúmeros artigos e ensaios em cerca de 20 revistas na Venezuela, México, Chile, Peru, Brasil, Argentina e República Dominicana, entre outros. Também coordenou, compilou e contribuiu para diversas publicações coletivas em aproximadamente 10 países da América Latina e Europa, além de vários livros temáticos de menor escala. Seus artigos de opinião semanais circulam em diversos jornais e portais online em cerca de 15 países da América Latina, Europa e Ásia Ocidental.

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