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segunda-feira, 16 março 2026

Grã-Colômbia: um sonho a ser revivido

Por Juan J. Paz-y-Miño Cepeda*

Os movimentos independentistas na América Latina, que fomentaram uma consciência compartilhada de liberdade e mobilizaram esforços coletivos, marcaram o início de uma identidade latino-americana que prevaleceu apesar das diferenças surgidas entre os novos Estados, mesmo em meio a conflitos e guerras. O latino-americanismo, como vínculo histórico e cultural, permanece uma característica definidora que une nossos povos e fundamenta nossa resistência a todas as formas de imperialismo, embora certos grupos dominantes tenham carecido dessa identidade.

Nesse contexto, a recente proposta do presidente colombiano Gustavo Petro de reconstruir a Grã-Colômbia reabriu um debate que, embora aparentemente enraizado no século XIX, permanece totalmente relevante. Ao insistir na “ideia de Bolívar de uma Grã-Colômbia, com um parlamento comum e uma presidência colegiada”, como faz a União Europeia, Petro revive um projeto originário do movimento independentista e se alinha à tradição progressista que contou com Eloy Alfaro (1842-1912) entre seus mais fervorosos defensores. Assim, a iniciativa atual se apresenta como parte de uma linhagem histórica que aspirava a uma unidade latino-americana capaz de enfrentar ameaças externas e transcender as limitações dos Estados-nação.

Petro propôs que os povos dos territórios que outrora compunham a Grã-Colômbia caminhem rumo a uma “confederação de nações soberanas” por meio de poder constituinte e acordos entre governos. Sua proposta, feita em um contexto de tensões internacionais e rejeição à intimidação militar dos EUA no Caribe, parte da convicção de que os problemas globais exigem respostas regionais próprias. A ideia de ativar comitês constituintes da sociedade civil remete às práticas insurgentes e de integração popular que caracterizaram o liberalismo latino-americano no final do século XIX.

Essa tradição encontrou um de seus expoentes mais consistentes em Eloy Alfaro. Como discuti em um estudo anterior ( https://t.ly/HAzjR ), Alfaro foi formado desde jovem em um ambiente liberal, maçônico e profundamente latino-americanista, nutrido por leituras que exaltavam “os direitos do homem, as doutrinas liberais e a cruzada maçônica comprometida com a transformação romântica do mundo em um lugar de paz e fraternidade”. Suas primeiras ações contra o regime de García Moreno e seu prolongado exílio no Panamá solidificaram sua visão da causa liberal como uma empreitada continental. Por essa razão, o historiador Alfredo Pareja o descreveu como “cada vez mais, um cidadão das Américas”.

Alfaro concebia a luta revolucionária como uma rede transnacional. Mantinha laços com patriotas cubanos, liberais colombianos, líderes centro-americanos e presidentes como Joaquín Crespo (Venezuela) e José Santos Zelaya (Nicarágua). Em sua Proclamação de 1883, conclamou a “coroação da grande obra do libertador Bolívar e do imaculado Sucre”, colocando a reconstituição da Colômbia como uma aspiração essencial. A partir de então, seu compromisso com a unidade da Grã-Colômbia adquiriu um caráter estratégico e profundamente pessoal.
O ideal tomou forma em esforços diplomáticos sem precedentes. Em 1887, de Lima, Alfaro enviou seu irmão Marcos como Agente Diplomático para a reconstrução da Grã-Colômbia, com plenos poderes para forjar uma aliança federal entre Venezuela e Equador. Esses atos, que concederam funções governamentais a um movimento revolucionário, demonstram a extensão em que ele concebia a integração como uma tarefa urgente e alcançável. Os liberais da região compartilhavam dessa visão, enxergando na união um mecanismo de defesa contra o imperialismo e as tensões internas.

Durante sua presidência, Alfaro não abandonou o projeto. Entre 1898 e 1900, ele insistiu repetidamente para que o Congresso criasse uma Confederação entre Venezuela, Colômbia e Equador, a fim de resolver disputas de fronteira e fortalecer uma política externa comum. Embora a Guerra dos Mil Dias (1899-1902) tenha frustrado essas aspirações, ele continuou a promover congressos e pactos, como o Tratado de Amapala, assinado com Crespo, Zelaya e Uribe, por meio do qual os liberais se comprometeram com apoio mútuo. Seu prestígio levou a Junta Patriótica Colombiana a proclamá-lo “Diretor Supremo da Grande Confederação da Velha Colômbia” em 1901. Simultaneamente, ele apoiou a independência de Cuba, negociou com seus líderes, garantiu ajuda militar e convocou um congresso continental em 1896 para discutir o assunto e, sobretudo, submeter a Doutrina Monroe à legislação pública americana, o que foi boicotado pelos Estados Unidos.
A derrota do liberalismo equatoriano e a morte violenta de Alfaro em 1912 fecharam temporariamente a porta para a possibilidade de uma união grão-colombiana. Mas o ideal latino-americano persistiu. José Martí, por exemplo, concebia “Nossa América” ​​como um corpo comum que precisava se afirmar contra o imperialismo e defendia uma identidade compartilhada que transcendesse as fronteiras republicanas. Manuel Ugarte percorreu o continente clamando pela unidade política latino-americana; Haya de la Torre concebia o indo-americanismo como um projeto de integração; e José Carlos Mariátegui sustentava que a América Latina deveria construir uma unidade baseada na justiça social. Essas correntes demonstram que o sonho grão-colombiano estava intrinsecamente ligado a um amplo horizonte latino-americanista nos séculos XIX e XX.

Em Petro, os ideais bolivarianos e alfaro encontram eco contemporâneo: o reconhecimento de que os Estados latino-americanos, fragmentados por estruturas econômicas desiguais, necessitam de uma integração ousada para sustentar sua soberania. Contudo, no presente, esse projeto só seria viável se a Venezuela, a Colômbia, o Panamá e o Equador tivessem governos com uma orientação latino-americanista e progressista. Como no passado, os setores conservadores, neoliberais ou libertários se subordinaram a interesses transnacionais e demonstraram pouca ou nenhuma conexão com a identidade latino-americana.

A proposta de Petro não deve ser interpretada como nostalgia, mas sim como uma atualização necessária de um projeto com raízes históricas. Assim como Alfaro idealizou a resolução de disputas de fronteira dentro de uma federação fraterna, os desafios energéticos, ambientais e econômicos atuais exigem cooperação supranacional. A Grã-Colômbia do século XXI seria uma confederação moderna, capaz de projetar um bloco regional autônomo, independente dos governos vigentes, mas sim focado em uma integração ideal e exemplar.

Assim, Petro surge como herdeiro do bolivarianismo: um sonhador pragmático que reconhece que a história da unidade latino-americana ainda não terminou. Sua proposta serve como um lembrete de que a integração continua sendo um projeto ousado, porém alcançável, que aguarda governos que compartilhem esse ideal comum e o concretizem.

*Juan José Paz y Miño Cepeda. Equatoriano. Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Santiago de Compostela. Coordenador Acadêmico no Equador da Associação de Historiadores da América Latina e do Caribe (ADHILAC). Membro da Academia Nacional de História. Dirigiu o Workshop de História Econômica (THE) na Faculdade de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Equador (PUCE). Foi Decano da Faculdade de Comunicação, Artes e Humanidades da Universidade UTE em Quito. Também atuou como Cronista da Cidade. Professor visitante em diversas universidades da América Latina, América do Norte e Europa. Considerado um dos pioneiros da História Contemporânea. É autor de inúmeros livros e artigos sobre o Equador e a América Latina.

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