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Bolívia

Postado em 20/02/2016 11:49

Pedro Augusto : A Bolívia de hoje

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Pedro Augusto Pinho*

Os jovens de hoje, vejo em meus netos, seus amigos e colegas, mas também nos transportes públicos, estão sempre com um “tablet” ou com um “smart fone” ou algo similar. Já os neologismos e anglicismos que empreguei bem mostram o tipo de cultura que estamos vivendo: importada.
Nada contra a tecnologia, o progresso, mas vamos perdendo um valor importante para nossa autoestima, para nossa própria inserção no mundo: nossa nacionalidade, nossos valores culturais.
E, ao adotarmos modos e práticas estrangeiras acriticamente, estamos nos submetendo aos interesses que não são os nossos e também a ausência de uma capacidade que desenvolvíamos ao jogar o quebra-cabeça: construir uma realidade global, não nos atermos apenas ao particular ou ao egoista cotidiano
Mas é o que se vê, abundantemente, nos veículos de comunicação social hoje, cujo caráter político e ideológico é manifesto desde a manchete.
Não tratarei do Brasil. Meu nacionalismo poderia me levar a uma visão muito particular que diferiria das posições políticas, do entendimento econômico e mesmo da situação social de meus leitores, ainda que por exceção.
Vou tratar da Bolívia que se denomina Estado Plurinacional, que conheci em minha primeira infância, onde iniciei minha alfabetização, ou seja lá se vão 70 anos.
Desde 1952, para não buscarmos muito longe e porque o Presidente de então – Victor Paz Estenssoro – foi reconduzido diversas vezes, a Bolívia, incluindo os períodos de Junta Militar, teve 36 dirigentes. Ou seja, entre 1952 e 2005, 53 anos, a cada ano e meio, um Presidente. Algumas vezes já conhecido, outras vezes triste novidade. Em 2005 foi eleito Juan Evo Morales Aima, então com 46 anos, que governa até hoje. É o Presidente que por mais tempo já governou a Bolívia.
Este País sempre foi um exportador de matéria prima – estanho (fortuna de Antenor Patiño), zinco, soja, arroz e gás natural, que fizeram a riqueza de empresas e pessoas no exterior e a miséria dos habitantes nacionais. No Departamento (Estado) de Panda, a população original sofreu durante décadas a mesma situação que o Prêmio Nobel da Literatura – Mario Vargas Llosa – descreve em seu admirável romance “O sonho do celta”. Carrascos, travestidos de feitores, obrigavam os indígenas a trabalhar até a exaustão, com mutilações, castigos físicos e ameaças.
Vamos conhecer um pouco da população boliviana: 55% é constituída de indígenas, 15% de mestiços e o restante de brancos (europeus, sírios, libaneses) e asiáticos (chineses e coreanos principalmente). Assim, um grande passo para a soberania foi a definição da Constituição de 2009 de Estado Plurinacional. Estava portanto incluída a maioria da população, formada por quíchuas, aimarás, chiquitanos e guaranis, preponderantemente, mas outras 34 nações tiveram também seus idiomas reconhecidos. O idioma é a mais básica identificação da nacionalidade.
A garantia social foi outra importante ação do Governo, mais de 40% da população de 11 milhões de habitantes já se beneficia ou se beneficiou da “Renta Dignidad”, espécie da plataforma Bolsa Família, brasileira. Com isso, o analfabetismo é hoje residual. A CIA World Factbook assinalava, em 2009, 8% da população. Outra importante iniciativa foi promover o engajamento dos movimentos sociais e de trabalhadores, que colaboram nos programas educacionais: “Yo Sí Puedo” e “Yo Sí Puedo Seguir”.
Na área econômica, num projeto de soberania nacional, foram nacionalizadas mais de 20 empresas, inclusive a Petrobrás, e, ao contrário do Brasil, não se concederam vantagens fiscais e creditícias a grupos econômicos de matriz estrangeira, mas estes recursos serviram para impulsionar a produção nacional de sal, da extração mineral (prata, tungstênio, antimônio, cobre) e para concessão do 14º salário a todos os trabalhadores, públicos e privados, após 2014.
No campo cultural, uma das grandes inovações, além da cota parlamentar para população indígena, foi o reconhecimento oficial do sistema judicial indígena camponês e a autonomia e autogestão das comunidades indígenas.
Esta bem sucedida governança, fora dos padrões do sistema financeiro internacional, com prioridades distintas das avaliações das agências de classificação de risco, que apenas aos desinformados impressiona, está fora da imprensa ou denominada, como agressão, de bolivariana, como o faz The New York Times e suas traduções nacionais. Apenas para satisfazer os que privilegiam o econômico, informo que o PIB per capita passou de US$ 2.400, em 2004, para US$ 3.000, em 2014, conforme o periódico boliviano La Razón. E melhor distribuído. O densamente povoado subúrbio El Alto, de La Paz, segundo reportagem, está passando por intensa reforma habitacional, onde se inclui a instalação de unidades comerciais.
O mais relevante a meu ver é o reerguimento da cultura nacional, que dará força à continuidade deste projeto político.
*Pedro Augusto Pinho, avô, aposentado.

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