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sábado, 15 junho, 2024

Os jornalistas e as guerras

(Foto: Sputnik / Said Tsarnaev)

Boaventura de Sousa Santos*

São três histórias atrozes de guerra. Romanceadas? É possível, mas não totalmente inventadas

Quase desde o início da publicação de jornais com grandes tiragens se  fala da crise do jornalismo. Já em 1919 Upton Sinclair publicou The Brass  Check, uma crítica devastadora do poder do capital para corromper a  imprensa e os jornalistas. Mas esta crítica subiu de tom desde o início do  novo milénio, quando se tornou evidente que a manipulação dos meios de  comunicação visava não só os interesses do capital, mas também os  interesses do Estado de segurança nacional. Foi com a invasão do Iraque  (2003) que surgiu um novo tipo de jornalistas, os jornalistas incorporados  (“embedded journalists”), isto é, os repórteres vinculados a unidades  militares envolvidas em conflitos armados e que, portanto, noticiam só o que  as autoridades militares permitem, sujeitando-se, pois, a censura ou auto censura. Criam-se assim consensos mediáticos sobre as guerras que não são  senão uma dimensão entre outras da guerra de propaganda. Patrick  Lawrence, um grande jornalista norte-americano – como curiosidade,  lembre-se que foi ele quem cobriu a Revolução do 25 de Abril de 1974 em  Portugal para o Guardian – autor do livro recente, Journalists and their  Shadows, mostra que a manipulação do jornalismo para servir a política de  segurança nacional começou com a Guerra Fria a partir da década de 1950.  Diz ele:

“Vivi a Guerra Fria, mas apenas nos seus primeiros anos, e as minhas  memórias permanecem vivas. Foi a histeria da imprensa, da rádio e da  televisão que mais me ficou na memória. Estas coisas deixaram cicatrizes  que não se apagam com o tempo, e de certeza que não estou sozinho a este respeito. Esta histeria atingiu o seu ponto mais alto durante os anos cinquenta  e parte dos anos sessenta. Os grandes diários e as cadeias de televisão deram  a esse tempo a sua textura e o seu timbre. Trouxeram a Guerra Fria às nossas  portas, aos rádios dos nossos carros, às nossas salas de estar. Definiram uma  consciência. Disseram aos americanos quem eles eram e o que os tornava  americanos e, em geral, o que fazia da América a América. Uma imprensa  livre era fundamental para essa auto-imagem, e os americanos nutriam uma  profunda necessidade de acreditar que tinham uma. Os nossos jornais e redes  de televisão esforçavam-se ao máximo para dar essa aparência de liberdade  e independência. O facto de isto ter sido um logro – de os meios de  comunicação social americanos se terem rendido ao novo Estado de  segurança nacional e às suas várias cruzadas da Guerra Fria – é agora uma  questão aberta e evidente. Considero-o uma das verdades mais amargas dos  últimos setenta e cinco anos da história americana.”

Uma questão salta aos olhos. Estarão a Europa e América do Norte  mergulhadas hoje numa nova Guerra de propaganda, agora em relação à guerra da Ucrânia? Não tenho dúvidas de que assim é. Quantas verdades amargas sobre a história recente (o nosso presente) da Europa vão ser  conhecidas nos próximos anos?

As questões mais gerais que os leitores menos intoxicados pela  propaganda perguntam são estas. Os jornalistas acreditam nas notícias que dão e no que escrevem? Ou sabem que estão a falsear a verdade e a desinformar, mas essa é a única alternativa para manter o emprego?

*Boaventura de Sousa Santos

Sociólogo português

Publicado no Jornal de Letras, Artes e Ideias, Nº 1382, 20 Setembro 2023

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