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sábado, 2 março, 2024

Os caminhos do retrocesso neoliberal

Um ano depois da tentativa de golpe, Lira não foi a Brasilia e tomou café com Bolsonaro em Alagoas (Reprodução)

Pedro Augusto Pinho*

Poderia parecer aos mais desavisados que o Brasil está vivendo as incertezas e pressões que correram a A (mérica Latina no século das independências, o século 19, quando se formavam e se desfaziam uniões contra o domínio espanhol, vitórias eram seguidas de derrotas e muito pouco, se algum, homem do povo acompanhava as mudanças políticas. O que também ocorreu no Brasil que nem mesmo o regime monárquico, nem a família imperial foram trocados.

Há pontos de contato, como a escravidão, então legal e explícita, hoje sob a cobertura legislativa dos microempreendedores individuais (MEI) e da uberização que se espalha pelos serviços. Também a propriedade territorial, isenta de impostos por leis locais ou reduzidas a valores ínfimos, porque a propriedade financeira faz do Brasil excepcionalidade mundial, não taxando dividendos.

Enfim, neste paraíso do rentismo e da submissão do trabalho, o evento agressivo à nacionalidade, ocorrido em 8 de janeiro de 2023, é visto como disputa política do totalitarismo fascista com a democracia liberal.

Ambos convivem no país do centrão cujo líder, atual presidente da Câmara dos Deputados se reúne com o, na melhor hipótese, inspirador do movimento depredador de bens e ideias que completou ontem o aniversário, o ex-presidente conforme reportagem de colunista Natália Portinari para o UOL:

“antes de faltar ao evento de 8 de Janeiro em Brasília, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, recebeu o ex-presidente Jair Bolsonaro em sua casa em Barra de São Miguel (AL)”.

O motivo alegado para ausência foi algum desconforto de saúde do Prefeito de Barra de São Miguel, Benedito Lira, de 81 anos, pai do deputado federal que recepcionou Bolsonaro, o que não constitui crime, mas desfeita aos três poderes da República, recepcionados pelo Presidente do Senado, senador por Minas Gerais, Rodrigo Pacheco.

Para os que assistiram ao evento no Senado, o que mais marcou foram as diferenças de comportamento, de educação diriam nossos avós, do uso adequado do idioma pátrio, do respeito que deve prevalecer entre pessoas que tem pensamentos e objetivos conflitantes, mas se respeitam mutuamente.

Não houve, no quadriênio anterior, qualquer solenidade que se aproximasse da que pudemos acompanhar pela rede de televisão aberta, neste 08 de janeiro de 2024.

O que culminou no ato de selvageria, desprezo ao País, que vimos há um ano e foi revisto por cenas transmitidas neste 8 de janeiro no Senado, não foi algo espontâneo e muito menos da ignorância que prevalece entre as lideranças insufladoras e seus adeptos.

Foi a persistente desconstrução do Brasil que se firmava como potência mundial, usando sua imensa riqueza para o desenvolvimento do País, iniciada com a Revolução de 1930 e que teve como último dirigente um combatente daquela Revolução, o general Ernesto Geisel, fechando o que se denomina “Era Vargas”.

Desde o primeiro momento, o poder então representado pelos bancos ingleses, com o apoio interno dos Liras de então, procuraram pretexto para volta ao passado, da “aristocracia escravista rural”, o Brasil da República Velha, cuja Revolta de 1932, tinha na Constituição mero pretexto.

Recordemos a análise de Alzira Vargas do Amaral Peixoto: “a Revolução Constitucionalista de São Paulo não era nenhuma dessas três coisa. Não era uma revolução. Era uma represália. Não era constitucionalista, pois apenas contribuiu para perturbar a constitucionalização do País. E, por estranho que pareça, também não era paulista. O fermento veio do Rio Grande do Sul e a massa que se servia da juventude e do solo bandeirantes, como campo de batalha, era feita dos grãos de ódio de todos os reacionários, de todos os tempos e de todos os Estados” (Alzira Vargas, “Getúlio Vargas, meu pai”, Editora Globo, Porto Alegre, 1960).

Foi simbólico que a Era Vargas terminasse com o presidente cujo pai, general Euclides de Figueiredo, foi dos líderes derrotados em 1932. E marca a tomada do poder pelas finanças apátridas, onde os capitais dos banqueiros ingleses se faziam presente. Eram os 50 anos gloriosos que retrocediam ao poder da Primeira República, com seus centrões e destruído, sob pretexto antidemocrático, o desenvolvimento econômico, social (vide a previdência e a saúde), tecnológico e industrial alcançado pelo Brasil.

Hoje o Brasil está órfão de nacionalistas, trabalhistas, que acreditam no povo, em sua política. Todos se unem no combate aos 50 anos gloriosos, em nome de inexistente democracia; pois esta exige a participação nas decisões que é sonegada aos brasileiros.

Notícias dignas de crença apontam que o lucro líquido dos quatro maiores bancos do país listados na Bolsa de Valores de São Paulo: Banco do Brasil, Bradesco, Itaú-Unibanco e Santander Brasil, somaram R$ 25,2 bilhões no 3º trimestre de 2023, conforme publica poder360 (poder360.com.br/economia/maiores-bancos-lucram-r-252-bilhoes-no-3o-trimestre).

Em cinco anos, isto é, após o golpe de 2016, de 2018 a 2023, o lucro dos bancos aumentou 36,9%, de R$ 18,4 bilhões para R$ 25,2 bilhões. E não se vê medidas que revejam esta plutocracia à brasileira.

Esta extrema direita que se esconde com falso nacionalismo, fazendo da bandeira nacional apenas uma fantasia, não tem o respeito nem certamente é capaz de ouvir o Hino Nacional com o respeito que a Manifestação no Senado demonstrou, ao iniciar os depoimentos sobre o oito de janeiro.

Vai mal o Brasil onde a mentira e o cinismo preponderam, porém menos mal quando a estas péssimas qualificações se agregam a selvageria, o ódio e a destruição de bens nacionais, do patrimônio público e do desprezo ao valor do trabalho e, acima de tudo, a ausência da Questão Nacional que morreu com Leonel Brizola.

*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

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