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domingo, 23 junho, 2024

O Roubo real da Grã-Bretanha

Michael Roberts [*]

Neste sábado (06/05), na Grã-Bretanha, aconteceu a “coroação” do Rei Carlos III. Todas as demais monarquias que restam na Europa (Escandinávia, Países Baixos, Bélgica, Espanha) pouco se preocupam com a coroação, mas a monarquia britânica teve um papel muito mais proeminente ao ajudar o Estado britânico a construir o seu enorme império global no século XIX. A coroação faz parte dos rituais desenvolvidos para cimentar está relíquia feudal na máquina do Estado.

O custo da coroação para o erário público está estimado em 100 milhões de libras. A família real britânica poderia facilmente pagar esta festa. Cálculos recentes situam a riqueza pessoal de Carlos em 1,8 mil milhões de libras. Algumas estimativas apontam para um valor ainda mais elevado. O monarca britânico é “um dos indivíduos mais ricos do mundo”, de acordo com o Financial Times, possuindo propriedades no valor de 15,6 bilhões de libras, para além dos 1,8 bilhões de libras detidos em terras chamadas Ducados da Cornualha e de Lancaster. A Brand Finance, uma consultora de avaliação de marcas, avalia a riqueza de toda a família em 44 bilhões de libras!

Terras do Carlos.

Uma parte fundamental da riqueza dos monarcas britânicos é a terra que afirmam possuir. A família real possui mais de 1% de todas as terras do Reino Unido – em comparação, os 10 maiores latifundiários dos Estados Unidos detêm em conjunto 0,7% das terras.

O direito da família a estas terras e ao rendimento com elas obtido é duvidoso. Certamente, estas terras deveriam fazer parte do patrimônio nacional e não ser propriedade de uma só família. De fato, após a guerra civil em Inglaterra, em meados da década de 1640, quando a Inglaterra teve uma república durante dez anos sob o comando de Cromwell, estas terras foram nacionalizadas. Com a restauração da monarquia sob o último rei Carlos, a família real Stuart recuperou-as. A política do Partido Trabalhista na década de 1930 consistia em torná-las propriedade pública, mas o governo trabalhista após a Segunda Guerra Mundial não conseguiu pô-la em prática.

A propriedade do Ducado da Cornualha aumentou para mais de 130 000 acres [526 km2] em 20 condados do sul de Inglaterra e do País de Gales. Os ativos incluem terras agrícolas e florestais, bem como o campo de críquete Oval em Londres, escritórios, alugueres para férias e empreendimentos residenciais. A família também beneficia do Crown Estate – mais uma coleção de propriedades de terra, esta com origem na conquista normanda no século XI. Atualmente, este portfólio de 15,6  bilhões de libras esterlinas (19,4 mil bilhões de dólares) inclui propriedades importantes como a Regent Street, em Londres, o Windsor Estate, centros comerciais, grande parte da costa e até o fundo marinho até 12 milhas náuticas da costa. O arrendamento do leito do mar para parques eólicos está a contribuir para o aumento dos lucros.

Ao contrário dos ducados, a propriedade da Coroa é gerida pelo governo e os seus lucros revertem a favor do tesouro do Estado. Mas uma determinada percentagem vai para a realeza, sob a forma de “Subsídio do Soberano”, destinado a viagens e espetáculos oficiais, manutenção da propriedade e salários dos funcionários. Uma cláusula de “catraca dourada” (golden ratchet) significa que o subsídio anual não pode diminuir, mesmo que os lucros diminuam. O último Subsídio Soberano ascendeu a 86,3 milhões de libras – ou seja, 1,29 libras por pessoa na Grã-Bretanha (cerca de 1,60 dólares). Além disso, a segurança da família real é paga separadamente, a partir do orçamento da Polícia Metropolitana e estima-se que seja consideravelmente maior do que o subsídio soberano.

Outras partes da enorme riqueza do monarca britânico estão em posses obscuras, como a coleção filatélica real, considerada a melhor coleção de selos do mundo, contendo centenas de milhares de selos, alguns dos quais foram obtidos pelo bisavô de Carlos, Jorge V, nos Correios Britânicos e nas colónias, no valor de pelo menos 100 milhões de libras. Além disso, o pai de Carlos, Filipe, e a avó do rei, a rainha-mãe, eram ávidos colecionadores de arte e compraram muitas peças a preços de saldo que, se fossem vendidas hoje, teriam um valor muito superior ao preço original. Entre elas conta-se um Monet comprado pela rainha-mãe em Paris, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando os preços eram baixos, por 2 000 libras. Um avaliador de arte estimou que poderia valer atualmente 20 milhões de libras. Além disso, quase 400 peças de arte conhecidas (pode haver mais) nas coleções reais “privadas” ou “pessoais” estão avaliadas em 24 milhões de libras. Muitas delas foram “presentes” de potentados estrangeiros.

A coroa que o rei Carlos III usou na coroação pesa cinco libras [2,27 kg] de ouro maciço, veludo, arminho e pedras preciosas. Outra coroa é adornada com 2.868 diamantes. A Carlos foram também entregue cetros com joias, espadas, anéis e um globo. Depois, de percorrer as ruas de Londres numa carruagem dourada. Na verdade, o valor de todas as 54 joias privadas “pertencentes” ao monarca está estimado em 533 milhões de libras.

E há ainda outros direitos privados bizarros. O novo rei será tecnicamente proprietário de todos os cisnes da Inglaterra e do País de Gales e de uma série de criaturas marinhas, incluindo todas as baleias, golfinhos e botos das águas do Reino Unido.

Estes são os ativos físicos, mas a realeza também recebe serviços gratuitos, por exemplo, vive em palácios e outras casas financiadas pelo Estado, mas para seu uso pessoal exclusivo. Na verdade, existe uma dificuldade real em separar a riqueza privada da família da propriedade pública. A família real tem uma frota de carros de luxo para uso em atividades e eventos públicos. Mas estes “carros do Estado” são muitas vezes utilizados em privado, como foi o caso da Princesa Eugenia, que nunca foi uma realeza ativa, que chegou ao seu casamento num Rolls-Royce Phantom VI de 1977 “de Estado” no valor de 1,3 milhão de libras.

Uma política recente afirma que os presentes recebidos numa “capacidade oficial” não são “propriedade privada” da família real. Ainda assim, a ambiguidade do termo “oficial” permitiu que a falecida Rainha Isabel reivindicasse cavalos oferecidos por líderes mundiais como presentes pessoais que não precisavam de ser declarados.

E depois há os impostos. Ou a ausência deles. Carlos não pagou um único cêntimo de imposto sucessório sobre a fortuna que a falecida Rainha lhe deixou no ano passado. O patrimônio do Ducado da Cornualha, no valor de mil milhões de libras – anteriormente herdado por Carlos e recentemente transferido para o seu herdeiro, o Príncipe Guilherme – não está sujeito ao imposto sobre as sociedades nem ao imposto sobre as mais-valias. O Ducado de Lancaster proporciona, a quem se sentar no trono, lucrativos pagamentos anuais de cerca de 20 milhões de libras por ano. Mais uma vez, sem impostos. Carlos “ofereceu-se” para pagar o imposto sobre o rendimento. Como diz o jornal The Guardian: “Oferecer-se para pagar impostos é um pouco como um criminoso procurado que se oferece para se entregar às autoridades. Não parece ser algo em que o resto da população tenha escolha”. É obrigatório para o resto de nós, como parte de um contrato social que não se aplica a esta família real.

A resposta habitual a estas questões é que o monarca britânico está a prestar um “serviço público” ao país. E o rei Carlos aparentemente está empenhado em garantir que seja visto a fazer isso. E ainda diz que todos nós deveríamos fazer a nossa parte. Carlos exortou toda a gente a celebrar a seu reinado ajudando o banco alimentar local.

A monarquia britânica é um exemplo particular de uma instituição feudal arcaica que foi convertida numa instituição capitalista com o objetivo de representar e reforçar a ideia de império. O império britânico, construído a partir de meados do século XVIII até ao final do século XIX, foi um dos maiores projetos imperialistas de sempre. A manutenção de uma monarquia familiar herdada no topo foi um ingrediente vital para sustentar o império.

A atual família real britânica chama-se Windsor. Tinham apenas uma ténue pretensão de serem a presente família real. O sítio web real admite que havia 52 candidatos com melhor pretensão ao trono do que o antepassado dos Windsors, Georg Ludwig, Eleitor de Hanôver, quando este se tornou Jorge I em 1714. Os Windsors são, portanto, de origem alemã e chamavam-se originalmente “Saxe-Coburgo e Gotha” – até que a primeira guerra mundial com a Alemanha obrigou a uma mudança de nome em 1917. A família estava intimamente relacionada com as monarquias absolutistas alemã e russa.

Muitos membros da família têm opiniões políticas extremas. Um livro da biógrafa norte-americana Kitty Kelley, cuja venda foi proibida na Grã-Bretanha, conta que a Princesa Margarida, irmã de Isabel II, saiu do filme A Lista de Schindler a queixar-se de “filmes cansativos sobre o Holocausto”. Kelley: “Do que ela se ressentia era do fedor persistente da ligação alemã no tempo da guerra que continuava a pairar sobre a sua família. Os seus segredos de alcoolismo, toxicodependência, epilepsia, homossexualidade, bissexualidade, adultério, infidelidade e ilegitimidade não tinham paralelo com a sua relação com o Terceiro Reich”.

Poucos se lembram do rei Eduardo VIII (tio de Margarida) que foi forçado a abdicar em 1936 e que apoiou a Alemanha nazi como salvadora da Europa. Há fotografias da futura Rainha Isabel a fazer a saudação hitleriana em criança, em 1933, treinada pelo seu tio que apoiava o nazismo. O marido de Isabel, o Príncipe Filipe da Grécia, tinha as suas próprias ligações nazis. As suas irmãs casaram com nobres alemães, um dos quais, o príncipe Christoph de Hesse, era um coronel das SS do pessoal de Heinrich Himmler. Em homenagem ao Führer, deram ao filho o nome de Karl Adolf.

As “tradições” reais que estão a ser representadas hoje em dia remontam, supostamente, à história da Grã-Bretanha. Mas os rituais de coroações, casamentos reais, aberturas do parlamento e funerais de Estado são, na verdade, um produto artificial desenvolvido no século XIX para sustentar o império britânico. Em 1952, quando Elisabeth II iniciou o seu reinado, mais de 70 países e territórios faziam parte do “seu” império. Mas esse império já estava a desaparecer. Aquando da sua morte, Elisabeth II continuava a ser chefe de Estado em apenas 14 países para além da Grã-Bretanha. E agora seis países das Caraíbas indicaram que tencionam seguir o mesmo caminho que Barbados e pôr fim à ligação com o Estado monárquico britânico e à sua exploração da escravatura nessas ilhas.

Já em 1844, Engels observava que: “Este culto repugnante do rei… a veneração de uma ideia vazia… é o ponto culminante da monarquia”. No entanto, a coroação do novo monarca foi amplamente celebrada e acompanhada. A monarquia britânica mantém uma maioria de apoio. Segundo a última sondagem, 62% dos inquiridos são a favor da manutenção da monarquia. Mas isso é menos do que os 75% de há apenas dez anos. E 25% querem que a monarquia seja substituída por um chefe de Estado eleito. Além disso, entre os britânicos mais jovens (18-24 anos), apenas 36% querem manter a monarquia. E a maioria dos britânicos não quer que o governo pague a coroação de Carlos.

06/maio/2023

[*] Economista.

O original encontra-se em thenextrecession.wordpress.com/2023/05/06/britains-royal-rip-off/

Este artigo encontra-se em resistir.info

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