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sábado, 15 junho, 2024

O mundo não enfrenta uma crise do trigo após o fim do acordo com a Ucrânia

William Engdahl [*]

Desde que a Rússia anunciou em 17 de julho que não renovaria seu acordo Iniciativa de Cereais do Mar Negro (Black Sea Grain Initiative) intermediado pela Turquia e o Reino Unido, para permitir exportações de cereais da Ucrânia com passagem segura a partir de Odessa e dois outros portos ucranianos do Mar Negro, a grande mídia ocidental afirma que a recusa criará fome global e aumento dos preços alimentares. Um ataque ucraniano à grande ponte que liga a Rússia do continente à Península da Crimeia, programado precisamente para por fim ao acordo dos cereais, provocou um ataque maciço de retaliação das forças russas, danificando gravemente Odessa e portos cerealíferos das proximidades. Qual é realmente a situação do abastecimento de alimentos do “Celeiro da Europa”, como era chamada a Ucrânia?

Em 19 de julho, o Indian Express publicou a manchete:   “O mundo enfrenta a perspectiva de ‘jogos da fome’ enquanto a China arrecada cereais e a Rússia se retira do acordo”. Eles declararam ainda: “Uma crise de fome pode estar a aguardar o mundo no próximo ano devido à retirada da Rússia de um importante acordo de cereais alimentícios com a Ucrânia, ao impacto do armazenamento de grãos alimentícios pela China, o maior consumidor mundial de arroz, advertiu um analista”. O LA Times foi igualmente alarmista: “A Rússia interrompe o acordo que permite à Ucrânia exportar cereais, num golpe para a segurança alimentar global”. CNN, Yahoo e outros media ocidentais publicaram histórias alarmistas semelhantes. Nenhum deles se incomodou a entrar em pormenores quanto à situação atual. Ela é muito menos alarmante do que se afirma. O mundo pode enfrentar escassez de cereais em breve, mas não será por causa das ações da Rússia na Ucrânia.

Em 19 de julho, dois dias após o cancelamento, os preços futuros mundiais dos cereais dispararam cerca de 8%, após a notícia de que a Rússia agora considerava qualquer navio que atracasse em Odessa ou em outros portos da Ucrânia como suspeito de transporte de armas e alvo de mísseis russos. Desde então, os meios de comunicação do ocidente afirmam que a Rússia está a provocar fome mundial potencial com o encerramento do acordo de exportação de grãos da Ucrânia. Quais são os fatos reais?

Porque a Rússia o interrompeu

O acordo Iniciativa de cereais do Mar Negro foi assinado em julho de 2022, depois de acusações de que as ações militares da Rússia na Ucrânia criavam graves problemas de escoamento de cereais para a África e outros países pobres. A Rússia, com a participação da ONU, acordou um acordo que garantia uma passagem segura pelo Mar Negro a partir de portos cerealíferos ucranianos. Em contrapartida o ocidente levantaria as sanções à exportação de trigo e fertilizantes russos, inclusive o levantamento da proibição do uso do SWIFT pelo maior banco estatal russo de exportação de cereais. Rússia, Ucrânia, Turquia e Nações Unidas chegaram a um acordo em 22/julho/2022 para estabelecer um corredor marítimo humanitário destinado a navios que transportassem alimentos e fertilizantes dos portos ucranianos do Mar Negro. Em 18/maio/2023 a Rússia estendeu por 60 dias o acordo do Black Sea Grain Initiative, até 17 de julho.

Houve um grande problema. O Ocidente recusou-se a honrar a parte russa do acordo. De acordo com o sítio web estatal russo Sputnik, “o trato é parte integral de um pacote de acordos. A segunda parte – o memorando Rússia-ONU, concebido para três anos – prevê o desbloqueamento das exportações russas de alimentos e fertilizantes, a reconexão do Banco Russo da Agricultura ao SWIFT, a retomada de fornecimentos de maquinaria agrícola, peças sobressalentes e serviços, a restauração do pipe-line de amónia Togliatti-Odessa (que a Ucrânia sabotou em junho) e uma série de outras medidas. Moscou afirma que esta parte do pacote de acordos ainda não foi implementada”.

Em 17 de julho, o dia em que a Rússia anunciou a não renovação do acordo, a Ucrânia, auxiliada pela inteligência dos EUA e do Reino Unido, lançou um ataque mortal à única ponte que liga a Crimeia, onde está baseada a frota naval russa do Mar Negro, à Rússia do continente. A faixa de rodagem de veículos foi gravemente danificada por um drone naval ucraniano e dois civis foram mortos, com um terceiro em coma. Moscou lançou represálias mortais nas noites seguintes com grandes ataques de bombardeamento que destruíram grande parte da infraestrutura portuária de Odessa e de outros portos próximos do Mar Negro.

Terminais cerealíferos e infraestrutura portuária na Ucrânia foram alvo de ataques russos nas noites de 18 e 19 de julho, causando grandes danos que levarão pelo menos um ano para serem totalmente reparados, segundo o Ministério de Política Agrária e Alimentar da Ucrânia. Uma parte significativa da infraestrutura do porto de Chornomorsk foi destruída e 60 mil toneladas de grãos também foram destruídas. Infraestrutura de comercializadores e transportadores de cereais, internacionais e ucranianos, como a Luxemburg-Ukrainian Kernel, Viterra, uma parte do enorme grupo suíço Glencore, o maior trader de commodities do mundo, e o grupo francês CMA CGM foram danificados.

Moscou não só acusa a ONU e o Ocidente de se recusaram a honrar a parte russa do acordo. Também acusa o ocidente de utilizar os navios protegidos para entregar armas da OTAN e outras fontes à Ucrânia a fim de alimentar a guerra – dificilmente um ato humanitário.

Trigo para a UE?

Apesar de o Ocidente afirmar que o bloqueio russo ao tráfego de navios de Odessa e outros portos da Ucrânia estava a criar um desastre humanitário em África e outros países pobres, o trigo, assim como o milho e o óleo de girassol ucranianos, não estava a ser encaminhado para os países mais pobres do Sul. Ao invés disso, até uma grande revolta de agricultores na Polónia, Bulgária, Roménia e outros países da UE [teve de] forçar Bruxelas a proibir temporariamente a importação dos cereais baratos da Ucrânia. Segundo a ONU, a UE foi a principal beneficiária do Acordo de Cereais do Mar Negro: 38% de todos os cereais ucranianos foram enviados para a Europa, apesar de a UE ser um exportador líquido de trigo. Outros 30% foram para Turquia e 24% para a China. Apenas 2% foram para nações do Sul Global.

Em abril, enfrentando uma grande revolta de agricultores contra uma inundação de importações baratas de cereais ucranianos, a Polónia, Eslováquia, Hungria e Bulgária aprovaram uma proibição temporária de produtos agrícolas da Ucrânia depois de fracassarem nas suas repetidas exigências de que a UE de Bruxelas impusesse uma proibição geral e permitisse que o cereal fosse para a África e outros estados de acordo com o acordo original.

Alguns fatos concretos do USDA

Embora grande parte das estatísticas do governo dos EUA hoje não valham muito, devido a décadas de manipulações políticas, as do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) para a produção global de trigo são geralmente consideradas razoavelmente precisas pois os cartéis mundiais de cereais dependem dos dados para estabelecer o preço do grão. No seu relatório de 12 de julho, pouco antes de acabar a renovação russa do acordo do Mar Negro, um relatório do USDA, intitulado Grain: World Markets and Trade, observava o seguinte: “Quando o ano comercial de 2022-23 chega ao fim, a Rússia solidificou sua posição como o maior exportador de trigo do mundo”. Eles observaram: “Estima-se que a Rússia exporte 45,5 milhões de toneladas em 2022-23. Seus destinos primários são o Oriente Médio, Norte da África e Ásia Central… Prevê-se que as exportações de trigo da Rússia alcancem outro recorde de 47,5 milhões de toneladas em 2023-24”.

O relatório do USDA continua dizendo que os combates na Ucrânia afetaram as suas melhores regiões produtoras de grãos. “A área plantada da Ucrânia caiu significativamente devido à guerra com a Rússia. A produção em 2023-24 está prevista em 17,5 milhões de toneladas, a menor safra em mais de uma década. Com a oferta drasticamente reduzida e a incerteza em torno do futuro da Iniciativa de Cereais do Mar Negro, prevê-se uma redução das exportações de trigo da Ucrânia em 2023-24 para 10,5 milhões de toneladas, uma queda de mais de 40% em relação à média pré-guerra. Se bem que a Iniciativa de Grãos do Mar Negro tenha ajudado a Ucrânia a exportar 16,8 milhões de toneladas de trigo em 2022-23, 39% do trigo abandonou o corredor de cereais (sobretudo através de despachos terrestres para a Europa Oriental).”

Assim, se se subtrair os 6,6 milhões de toneladas de trigo que foram para a UE por rotas terrestres, então cerca de 10,2 milhões de toneladas de cereais ucranianos não estão agora disponíveis para os mercados mundiais via Mar Negro. Contudo, isso equivale quase exatamente ao volume de trigo ucraniano que inundou os mercados locais da UE no ano passado.

Rússia promete cereais para a África

Em 27 de julho, na Segunda Cimeira Anual Rússia-África em São Petersburgo, o presidente russo Putin prometeu que a Rússia forneceria cereais gratuitamente a países africanos selecionados que [antes] os recebiam da Ucrânia: “Estaremos prontos a fornecer a Burkina Faso, Zimbabue, Mali, Somália, República Centro-Africana e Eritreia 25 a 50 mil toneladas de cereais gratuitos a cada um nos próximos 3 a 4 meses“.

A OTAN e os grandes meios de comunicação do ocidente estão a manipular uma narrativa unilateral destinada a culpar a Rússia por algo que suas próprias ações corruptas provocaram. A suspensão russa do acordo de cereais, que eles declararam pronto para reabrir desde que haja garantias de que o compromisso com a Rússia será cumprido, não está a criar uma catástrofe global. Muito mais perigoso para o mundo são as ações deliberadas da UE e da administração Biden de impor cortes drásticos à produção mundial de fertilizantes sob a assim chamada Agenda do Carbono Verde Zero (Green Zero Carbon Agenda).

[*] Analista de riscos.

O original encontra-se em www.williamengdahl.com/gr31July2023.php

Este artigo encontra-se em resistir.info

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