“Fortalecimento da democracia, da esperança (**) e do bem-estar.” Este foi o tema central do XIII Encontro Nacional do Movimento Fé e Política, que reuniu líderes e grupos ativistas de todo o país em São Bernardo do Campo (São Paulo), entre 24 e 26 de abril.
Vale ressaltar que esses encontros constituem, há décadas, um espaço singular de convergência entre espiritualidade, compromisso social e reflexão crítica sobre a realidade brasileira.
Mais do que simples eventos, eles funcionam como autênticos laboratórios de cidadania, onde diferentes tradições religiosas, movimentos pastorais, movimentos populares, sindicatos e ativistas políticos se reúnem para refletir sobre caminhos concretos de transformação social à luz de valores éticos e espirituais.
Em um país como o Brasil, marcado por profundas desigualdades, esses encontros desempenham um papel fundamental na reafirmação de que a fé não pode se restringir à esfera privada. Pelo contrário, ela possui implicações públicas e políticas, sobretudo quando inspirada por princípios como justiça, solidariedade e dignidade humana.
Nesse sentido, o Movimento Fé e Política contribui para a recuperação de uma compreensão mais ampla da espiritualidade, vinculando-a às lutas por direitos, à defesa da democracia e à construção de uma sociedade mais justa.
O Movimento Fé e Política é pluralista por natureza. Seus encontros reúnem participantes de diversas denominações cristãs, bem como representantes de outras tradições religiosas e indivíduos sem filiação religiosa institucional, mas comprometidos com valores humanistas inspirados pelos grandes mestres da espiritualidade. Essa diversidade fomenta o diálogo, combate o sectarismo e amplia horizontes. Em tempos de polarização e intolerância, a simples experiência da escuta mútua e da convivência respeitosa torna-se, por si só, um testemunho político relevante.
Além do diálogo inter-religioso, encontros locais, regionais e nacionais também promovem a conexão entre fé e prática social. Oficinas, mesas-redondas e celebrações proporcionam oportunidades para compartilhar e fortalecer experiências concretas, como o trabalho em periferias urbanas, a defesa de comunidades ancestrais, a economia solidária e os direitos humanos. Isso contribui para a formação de redes e o surgimento de novas iniciativas comprometidas com a defesa da democracia e a transformação social.
A dimensão formativa é outro pilar importante. Ao reunir líderes e ativistas de base, agentes pastorais, teólogos e cientistas sociais, esses encontros oferecem suporte teórico e espiritual para uma ação política mais consciente e informada. É um espaço onde se aprofunda a compreensão das estruturas sociais, sem perder de vista a dimensão ética e simbólica que sustenta o compromisso. Assim, o Movimento Fé e Política não apenas mobiliza, mas também forma indivíduos críticos e engajados.
A reunião foi marcada por quatro objetivos principais, conforme indicado na Carta de Compromisso assinada ao final:
“1) Confrontar a extrema-direita no Brasil e no mundo, fortalecendo a democracia por meio de candidatos progressistas em 2026 comprometidos com as lutas sociais, a esperança e o bem-estar;
2) Fortalecer o trabalho de base, contribuindo para a construção de um projeto nacional orientado para o Socialismo, o Bem-Estar e o Reino de Deus;
3) Manter viva a memória e expandir as lutas sociais e políticas, especialmente as das mulheres, dos movimentos negros, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais;
4) Destacar o papel das artes, da cultura e da juventude na criação de novos protagonismos na luta social e política nas periferias. Os encontros também servem a uma função de memória e continuidade. Revisitar trajetórias históricas de resistência e engajamento social ajuda a preservar uma tradição que muitas vezes se torna invisível. Ao mesmo tempo, abrem espaços para novas gerações, garantindo a renovação e a atualização das agendas. Essa combinação de memória e inovação é essencial para manter viva a visão libertadora que anima o movimento.
Nesse sentido, permanece um desafio significativo, especialmente para as pessoas mais velhas (os de cabelos grisalhos), uma expressão que se popularizou entre nós. Trata-se de conscientizar a população para abrir caminho para uma maior participação dos jovens. A Carta de Compromisso da reunião indica a necessidade de:
“1) Proporcionar espaços reais de escuta e diálogo com os jovens, reativar mecanismos permanentes de participação e garantir uma presença qualificada da juventude nos processos de tomada de decisão, com coordenação partilhada e igualdade em todas as áreas, conforme iniciado no XIII Encontro Nacional do Movimento Fé e Política.
2) Superar a resistência centrada nos adultos dentro das organizações e encorajar coletivos, grupos pastorais e líderes a acompanharem os jovens, ouvindo-os com humildade, compartilhando responsabilidades e reconhecendo seu papel de liderança.
3) Abraçar a agenda climática como prioridade para a juventude e incorporar a justiça socioambiental em ações e treinamentos. Compreender que a crise climática afeta diretamente a vida, a terra, o presente e o futuro dos jovens.
4) Renovar as metodologias de trabalho com jovens para gerar maior interesse. Repensar a linguagem utilizada, os encontros e os processos de formação, adotando métodos mais participativos, criativos e digitais, conectados às realidades dos jovens. Essa renovação deve ser realizada por meio de um processo de escuta ativa dos jovens e de suas necessidades.
5) Valorizar o testemunho de diferentes gerações e sua conexão com a prática, fortalecendo uma liderança coerente e acessível, capaz de dialogar com base na experiência concreta.
Finalmente, os encontros nacionais do Movimento Fé e Política reafirmam a esperança como força política. Ela se torna “esperançosa”, na expressão precisa de Paulo Freire. Em contextos de crise, descrença e contratempos, unir pessoas em torno de um projeto comum, inspirado por valores éticos, evangélicos e espirituais, é um ato profundamente desafiador. Não se trata de otimismo ingênuo, mas de uma esperança ativa que se traduz em um compromisso concreto com a justiça e a dignidade. Mais uma vez, a Carta de Compromisso nos desafia:
“O momento que estamos vivendo, de uma perspectiva global, é extremamente complexo e desafiador. Em particular, o continente latino-americano e caribenho, fragmentado social e politicamente, ativou seus sinais de alerta diante de tendências fascistas que buscam mantê-lo como quintal de potências estrangeiras.”
Do nosso continente, este encontro deu origem ao sonho de uma reformulação global, onde os países se respeitem mutuamente, para que a soberania de cada um se torne o ideal da convivência pacífica, fundada na justiça entre os povos. Isso implica focar na multipolaridade, com forte impacto no Sul Global, onde países soberanos como o Brasil precisam ter uma influência decisiva na política mundial. Reafirmamos aqui, em particular, o clamor por uma Palestina livre, do rio ao mar! Basta! Não aceitaremos o genocídio do povo palestino nem a invasão de tantos territórios soberanos no Oriente Médio e em todo o mundo.
A Carta de Compromisso, entre outros desafios urgentes e importantes, também fortalece as lutas das mulheres, das pessoas com deficiência e das pessoas neurodivergentes, da população LGBTQIA+ e dos grupos que lutam pelo direito à terra, à moradia e à reforma agrária.
A importância desses encontros do Movimento Fé e Política reside na sua capacidade de articular fé, reflexão e ação, promovendo um diálogo pluralista comprometido com a transformação social e a defesa da democracia. Num mundo fragmentado, marcado pela violência e pela ascensão do neofascismo, eles oferecem um espaço único de encontro e comunhão, onde as diferenças não se tornam divergências, mas são colocadas a serviço de um projeto comum de humanidade e da conquista da paz como resultado da justiça.
Rmh/fb-cr
(*) Claudio Ribeiro: Investigador e professor na área das Ciências da Religião e da Teologia, frequentemente associado à análise dos movimentos populares e da “esperança” como resistência política.
(**) O educador brasileiro Paulo Freire popularizou e redefiniu a expressão “ter esperança”, diferenciando-a do simples ato de esperar. Freire defendia que a esperança não deveria ser uma mera espera passiva, mas uma atitude ativa em relação à vida, um verbo de ação.
Frei Betto, escritor brasileiro e frade dominicano, é internacionalmente conhecido como teólogo da libertação. É autor de 60 livros em diversos gêneros literários — romances, ensaios, ficção policial, memórias, literatura infantojuvenil e obras religiosas. Recebeu o Prêmio Jabuti, a mais prestigiosa premiação literária do Brasil, duas vezes, em 1985 e 2005. Em 1986, foi eleito Intelectual do Ano pelo Sindicato dos Escritores Brasileiros. Conselheiro de movimentos sociais como as Comunidades Eclesiais de Base e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, participa ativamente da política brasileira há cinco décadas.
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