© SP. Foto Paulo Pinto/Agencia Brasil
A Sputnik Brasil separou cinco ocasiões em que os Estados Unidos atuaram de forma direta ou indireta contra a soberania brasileira e ampliaram sua influência militar, política e estratégica sobre o país.
A presença do porta-aviões USS Nimitz no Rio de Janeiro para a operação Southern Seas 2026 reacendeu debates sobre a relação militar entre Brasília e Washington. A embarcação chegou ao país para participar da 11ª edição do programa de cooperação naval promovido pela Marinha norte-americana com dez países da América Latina, entre eles Argentina, Chile, Colômbia e Peru.
A iniciativa envolve exercícios conjuntos, treinamentos de interoperabilidade, operações aéreas e marítimas e ações diplomáticas voltadas à ampliação da presença estratégica estadunidense na região.
Embora os exercícios conjuntos sejam apresentados oficialmente como iniciativas de cooperação e treinamento, a história mostra que momentos de aproximação entre as Forças Armadas dos dois países também estiveram ligados a episódios de pressão política, espionagem e ameaças diretas à soberania brasileira.
A Sputnik Brasil lembra de cinco casos que servem de alerta no debate sobre a presença militar norte-americana no Brasil como risco a soberania.
Golpe Militar de 1964 no Brasil
O episódio mais importante e simbólico da interferência norte-americana no Brasil foi o apoio ao golpe militar de 1964, que derrubou o presidente João Goulart, A participação dos Estados Unidos no processo é amplamente documentada por arquivos oficiais e comunicações diplomáticas da época.
Com a deterioração das relações entre Washington e o governo Goulart, considerado excessivamente nacionalista e próximo de setores de esquerda em plena Guerra Fria, o governo norte-americano articulou formas de garantir o sucesso de uma eventual revolta militar no Brasil. Participaram das conversas o embaixador norte-americano Lincoln Gordon, autoridades da Casa Branca e militares conspiradores brasileiros, entre eles o general Humberto de Alencar Castelo Branco.
Sob os auspícios de John F. Kennedy e, depois, Lyndon B. Johnson, foi elaborada a chamada operação Brother Sam, um plano de apoio, diplomático, militar e logístico aos golpistas. Em termos práticos, a ação previa o envio de combustível para abastecer as tropas revoltosas, além do posicionamento de uma esquadra no literal brasileiro para intimidar qualquer resistência. O componente naval reunia o porta-aviões USS Forrestal, um porta-helicópteros, seis destróieres da Segunda Frota e quatro petroleiros militares.
Em cenários extremos, autoridades norte-americanas chegaram a discutir a possibilidade de uma grande operação terrestre no Brasil. No entanto, quando o gole foi deflagrado em 31 de março de 1964, a operação foi oficialmente acionada, mas foi desativada antes de produzir efeitos concretos diante da rápida vitória dos militares insurgentes.
De qualquer forma, a operação revela o grau de envolvimento de Washington na derrubada do governo brasileiro e a disposição da Casa Branca em apoiar militarmente uma mudança de regime no país.
Tentativa de retomada das bases de Fernando de Noronha e Natal
Conhecida como o “Trampolim da Vitória”, a cidade de Natal (RN) teve papel central na estratégia militar dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Entre 1942 e 1945, os norte-americanos instalaram na região a base de Parnamirim Field, considerada a maior base aérea estadunidense fora de seu território. De lá partiam aviões rumo à África e à Europa. O arquipélago de Fernando de Noronha também foi utilizado como ponto estratégico de apoio e vigilância no Atlântico Sul.
Após o fim da guerra, Washington buscou manter influência sobre essas estruturas militares. Documentos mostram que setores diplomáticos e militares defendiam acesso privilegiado dos norte-americanos às instalações em Natal e Fernando de Noronha, consideradas fundamentais para controle aéreo e marítimo da região. Durante a Guerra Fria, Noronha voltou a ser usada pelos norte-americanos em operações de monitoramento ligadas à corrida espacial e à vigilância de mísseis.
O tema voltou ao debate recentemente após relatórios publicados entre 2025 e 2026 apontarem articulações informais de diplomatas e aliados do presidente Donald Trump para ampliar novamente a presença operacional dos Estados Unidos nesses locais estratégicos. Segundo as informações divulgadas, integrantes ligados ao Partido Republicano defendem um suposto “direito histórico” de retorno às bases devido aos investimentos realizados pelos norte-americanos na década de 1940.
Pressões no Programa Nuclear Brasileiro
Durante a década de 1970, Washington tentou impedir o avanço do programa nuclear brasileiro. O principal foco da disputa foi o acordo firmado entre o governo brasileiro e a então Alemanha Ocidental em 1975, que previa transferência de tecnologia, construção de usinas nucleares e domínio do ciclo do combustível atômico.
Para o regime militar brasileiro, o projeto representava uma oportunidade de ampliar a autonomia energética e tecnológica do país, reduzindo dependências externas em um setor considerado estratégico. Contudo, o governo de Jimmy Carter passou a pressionar fortemente o Brasil contra o acordo sob o argumento de combate à proliferação nuclear.
Washington temia que a transferência de tecnologia pudesse permitir ao país desenvolver capacidade de enriquecimento de urânio e, futuramente, até armamentos atômicos. A Casa Branca utilizou canais diplomáticos, pressão econômica e ameaças de restrições comerciais para tentar forçar Brasília a rever os termos da parceria com os alemães.
Autoridades brasileiras da época interpretaram a postura norte-americana como uma tentativa de limitar o desenvolvimento soberano do país e manter o controle tecnológico nas mãos das grandes potências. O governo militar argumentava que o Brasil tinha direito ao uso pacífico da energia nuclear e denunciava um “duplo padrão” internacional, no qual países desenvolvidos buscavam impedir o avanço tecnológico de nações periféricas enquanto preservavam seus próprios arsenais e capacidades estratégicas.
Espionagem da NSA
Em 2013, documentos vazados pelo ex-analista da Agência de Segurança Nacional (NSA) Edward Snowden revelaram um amplo esquema de espionagem norte-americana contra autoridades brasileiras. Os arquivos mostraram que a agência monitorava comunicações da então presidente Dilma Rousseff, além de ministros, assessores do governo e diplomatas ligados a áreas estratégicas.
As revelações também mostraram que a NSA espionava a Petrobras, acompanhando trocas de mensagens, telefonemas e dados internos da estatal. O caso levantou suspeitas de que o interesse norte-americano não estava ligado apenas à segurança internacional, mas também ao monitoramento de informações econômicas e estratégicas relacionadas ao setor energético brasileiro, especialmente após as descobertas do pré-sal.
O episódio provocou forte reação do governo brasileiro. Dilma Rousseff cancelou uma visita oficial que faria a Washington e levou a denúncia à Assembleia Geral da ONU, onde classificou as ações dos Estados Unidos como uma violação da soberania nacional e dos direitos internacionais. O governo brasileiro também passou a discutir mecanismos de proteção de dados, segurança cibernética e independência tecnológica diante da vulnerabilidade revelada pelo caso.
A espionagem da NSA aprofundou a percepção, dentro de setores políticos e diplomáticos brasileiros, de que os Estados Unidos mantinham operações permanentes de monitoramento sobre o país mesmo em tempos de relações amistosas e cooperação bilateral.
Ameaças de classificar facções como terroristas
As tensões recentes entre Brasil e Estados Unidos, iniciadas pelas tarifas unilaterais norte-americanas, também passaram a envolver temas de soberania jurídica e segurança pública.
Um desses temas foi o desejo da Casa Branca de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais. medida permitiria ampliar sanções financeiras globais, congelar bens e aumentar a atuação de órgãos de segurança dos EUA em investigações relacionadas às facções brasileiras.
O governo brasileiro, por meio do chanceler Mauro Vieira, manifestou oposição formal à proposta em conversas com o secretário de Estado Marco Rubio. Especialistas e autoridades brasileiras argumentam que as facções possuem motivação econômica, e não política ou ideológica, o que descaracterizaria a definição de terrorismo.








