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segunda-feira, 11 maio 2026

Cinco vezes em que os EUA representaram risco militar a soberania brasileira

© SP. Foto Paulo Pinto/Agencia Brasil

A Sputnik Brasil separou cinco ocasiões em que os Estados Unidos atuaram de forma direta ou indireta contra a soberania brasileira e ampliaram sua influência militar, política e estratégica sobre o país.

A presença do porta-aviões USS Nimitz no Rio de Janeiro para a operação Southern Seas 2026 reacendeu debates sobre a relação militar entre Brasília e Washington. A embarcação chegou ao país para participar da 11ª edição do programa de cooperação naval promovido pela Marinha norte-americana com dez países da América Latina, entre eles Argentina, Chile, Colômbia e Peru.
A iniciativa envolve exercícios conjuntos, treinamentos de interoperabilidade, operações aéreas e marítimas e ações diplomáticas voltadas à ampliação da presença estratégica estadunidense na região.
Embora os exercícios conjuntos sejam apresentados oficialmente como iniciativas de cooperação e treinamento, a história mostra que momentos de aproximação entre as Forças Armadas dos dois países também estiveram ligados a episódios de pressão política, espionagem e ameaças diretas à soberania brasileira.
Sputnik Brasil lembra de cinco casos que servem de alerta no debate sobre a presença militar norte-americana no Brasil como risco a soberania.
Um iPhone exibe os aplicativos do Facebook e do Messenger (plataformas proibidas na Rússia por extremismo), em Nova Orleans. EUA, 11 de agosto de 2019 - Sputnik Brasil, 1920, 09.05.2026

Notícias do Brasil

De Maduro às terras raras: o Brasil na mira da nova guerra pela soberania digital

Golpe Militar de 1964 no Brasil

O episódio mais importante e simbólico da interferência norte-americana no Brasil foi o apoio ao golpe militar de 1964, que derrubou o presidente João Goulart, A participação dos Estados Unidos no processo é amplamente documentada por arquivos oficiais e comunicações diplomáticas da época.
Com a deterioração das relações entre Washington e o governo Goulart, considerado excessivamente nacionalista e próximo de setores de esquerda em plena Guerra Fria, o governo norte-americano articulou formas de garantir o sucesso de uma eventual revolta militar no Brasil. Participaram das conversas o embaixador norte-americano Lincoln Gordon, autoridades da Casa Branca e militares conspiradores brasileiros, entre eles o general Humberto de Alencar Castelo Branco.
Sob os auspícios de John F. Kennedy e, depois, Lyndon B. Johnson, foi elaborada a chamada operação Brother Sam, um plano de apoio, diplomático, militar e logístico aos golpistas. Em termos práticos, a ação previa o envio de combustível para abastecer as tropas revoltosas, além do posicionamento de uma esquadra no literal brasileiro para intimidar qualquer resistência. O componente naval reunia o porta-aviões USS Forrestal, um porta-helicópteros, seis destróieres da Segunda Frota e quatro petroleiros militares.
Em cenários extremos, autoridades norte-americanas chegaram a discutir a possibilidade de uma grande operação terrestre no Brasil. No entanto, quando o gole foi deflagrado em 31 de março de 1964, a operação foi oficialmente acionada, mas foi desativada antes de produzir efeitos concretos diante da rápida vitória dos militares insurgentes.
De qualquer forma, a operação revela o grau de envolvimento de Washington na derrubada do governo brasileiro e a disposição da Casa Branca em apoiar militarmente uma mudança de regime no país.
Base Aérea de Natal com aviões durante a Cruzex IV 2008 em Natal, Rio Grande do Norte. Brasil, 24 de novembro de 2008 - Sputnik Brasil, 1920, 12.01.2026

Notícias do Brasil

Bases de Noronha e Natal: EUA podem usar o argumento do ‘direito histórico’ para intervir no Brasil?

Tentativa de retomada das bases de Fernando de Noronha e Natal

Conhecida como o “Trampolim da Vitória”, a cidade de Natal (RN) teve papel central na estratégia militar dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Entre 1942 e 1945, os norte-americanos instalaram na região a base de Parnamirim Field, considerada a maior base aérea estadunidense fora de seu território. De lá partiam aviões rumo à África e à Europa. O arquipélago de Fernando de Noronha também foi utilizado como ponto estratégico de apoio e vigilância no Atlântico Sul.
Após o fim da guerra, Washington buscou manter influência sobre essas estruturas militares. Documentos mostram que setores diplomáticos e militares defendiam acesso privilegiado dos norte-americanos às instalações em Natal e Fernando de Noronha, consideradas fundamentais para controle aéreo e marítimo da região. Durante a Guerra Fria, Noronha voltou a ser usada pelos norte-americanos em operações de monitoramento ligadas à corrida espacial e à vigilância de mísseis.
O tema voltou ao debate recentemente após relatórios publicados entre 2025 e 2026 apontarem articulações informais de diplomatas e aliados do presidente Donald Trump para ampliar novamente a presença operacional dos Estados Unidos nesses locais estratégicos. Segundo as informações divulgadas, integrantes ligados ao Partido Republicano defendem um suposto “direito histórico” de retorno às bases devido aos investimentos realizados pelos norte-americanos na década de 1940.
O presidente da China, Xi Jinping (à esq.), ao lado do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita oficial a Brasília em novembro de 2024 - Sputnik Brasil, 1920, 08.05.2026

Notícias do Brasil

Rivalidade sino-estadunidense é oportunidade única para o Brasil se fizer o ‘dever de casa’

Pressões no Programa Nuclear Brasileiro

Durante a década de 1970, Washington tentou impedir o avanço do programa nuclear brasileiro. O principal foco da disputa foi o acordo firmado entre o governo brasileiro e a então Alemanha Ocidental em 1975, que previa transferência de tecnologia, construção de usinas nucleares e domínio do ciclo do combustível atômico.
Para o regime militar brasileiro, o projeto representava uma oportunidade de ampliar a autonomia energética e tecnológica do país, reduzindo dependências externas em um setor considerado estratégico. Contudo, o governo de Jimmy Carter passou a pressionar fortemente o Brasil contra o acordo sob o argumento de combate à proliferação nuclear.
Washington temia que a transferência de tecnologia pudesse permitir ao país desenvolver capacidade de enriquecimento de urânio e, futuramente, até armamentos atômicos. A Casa Branca utilizou canais diplomáticos, pressão econômica e ameaças de restrições comerciais para tentar forçar Brasília a rever os termos da parceria com os alemães.
Autoridades brasileiras da época interpretaram a postura norte-americana como uma tentativa de limitar o desenvolvimento soberano do país e manter o controle tecnológico nas mãos das grandes potências. O governo militar argumentava que o Brasil tinha direito ao uso pacífico da energia nuclear e denunciava um “duplo padrão” internacional, no qual países desenvolvidos buscavam impedir o avanço tecnológico de nações periféricas enquanto preservavam seus próprios arsenais e capacidades estratégicas.
Grafite contra o imperialismo estadunidense em um muro em Caracas, Venezuela. - Sputnik Brasil, 1920, 27.04.2026

Panorama internacional

‘Continuidade de relações unilaterais’: quais são os mecanismos do colonialismo contemporâneo?

Espionagem da NSA

Em 2013, documentos vazados pelo ex-analista da Agência de Segurança Nacional (NSA) Edward Snowden revelaram um amplo esquema de espionagem norte-americana contra autoridades brasileiras. Os arquivos mostraram que a agência monitorava comunicações da então presidente Dilma Rousseff, além de ministros, assessores do governo e diplomatas ligados a áreas estratégicas.
As revelações também mostraram que a NSA espionava a Petrobras, acompanhando trocas de mensagens, telefonemas e dados internos da estatal. O caso levantou suspeitas de que o interesse norte-americano não estava ligado apenas à segurança internacional, mas também ao monitoramento de informações econômicas e estratégicas relacionadas ao setor energético brasileiro, especialmente após as descobertas do pré-sal.
O episódio provocou forte reação do governo brasileiro. Dilma Rousseff cancelou uma visita oficial que faria a Washington e levou a denúncia à Assembleia Geral da ONU, onde classificou as ações dos Estados Unidos como uma violação da soberania nacional e dos direitos internacionais. O governo brasileiro também passou a discutir mecanismos de proteção de dados, segurança cibernética e independência tecnológica diante da vulnerabilidade revelada pelo caso.
A espionagem da NSA aprofundou a percepção, dentro de setores políticos e diplomáticos brasileiros, de que os Estados Unidos mantinham operações permanentes de monitoramento sobre o país mesmo em tempos de relações amistosas e cooperação bilateral.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é recebido pelo presidente norte-americano Donald Trump na Casa Branca. 7 de maio de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 07.05.2026

Panorama internacional

Reunião de Lula com Trump desmonta mito de confronto irreconciliável entre os dois, diz analista

Ameaças de classificar facções como terroristas

As tensões recentes entre Brasil e Estados Unidos, iniciadas pelas tarifas unilaterais norte-americanas, também passaram a envolver temas de soberania jurídica e segurança pública.
Um desses temas foi o desejo da Casa Branca de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais. medida permitiria ampliar sanções financeiras globais, congelar bens e aumentar a atuação de órgãos de segurança dos EUA em investigações relacionadas às facções brasileiras.
O governo brasileiro, por meio do chanceler Mauro Vieira, manifestou oposição formal à proposta em conversas com o secretário de Estado Marco Rubio. Especialistas e autoridades brasileiras argumentam que as facções possuem motivação econômica, e não política ou ideológica, o que descaracterizaria a definição de terrorismo.

Embora a classificação não foi concretizada, essa iniciativa estadunidense se encaixa em um contexto de influência norte-americana na América Latina, especialmente após a intervenção e sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Sob o pretexto de “narcoterrorismo”, Washington poderia aumentar o uso de sanções e até mesmo realizar operações em solo brasileiro.

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