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domingo, 26 maio, 2024

O Império não se farta de torturar o Afeganistão

– Mesmo depois de consumada a sua retumbante derrota, a OTAN não se farta de infligir dor e miséria à terra dos afegãos.

Pepe Escobar [*]

Era uma vez, numa galáxia nem tão remota, o Empire of Chaos disparou a chamada “Guerra ao Terror” contra um empobrecido cemitério de impérios, na encruzilhada onde se encontram a Ásia Central e o Sul da Ásia.

Em nome da segurança nacional, a terra dos afegãos foi bombardeada até que o Pentágono ficou sem alvos a destruir, como se lastimava àquela época o seu chefe, Donald Rumsfeld, viciado em “conhecidos desconhecidos”.

Operação ‘Cativeiro Duradouro’

Durante anos, a rotina foi servir-se de alvos civis, também conhecidos como “dano colateral”. Multidões tiveram de fugir para nações vizinhas em busca de abrigo, ao mesmo tempo em que dezenas de milhares foram encarcerados por razões desconhecidas, alguns dos quais até despachados para um gulag imperial numa ilha tropical no Caribe.

Os mais variados crimes de guerra foram cometidos – alguns dos quais denunciados por uma organização liderada por um jornalista excepcional, logo depois encarcerado e desde então submetido a anos de tortura psicológica pelo mesmo Império, obcecado com extraditá-lo para dentro da prisão-distopia mantida pelo mesmo Império.

Durante todo esse tempo, a autorreferente, enfatuada, civilizada ‘comunidade internacional’ – abreviatura de Ocidente Coletivo – manteve-se virtualmente cega, surda e muda. O Afeganistão foi ocupado por mais de 40 países – sempre repetidamente atacado por drones e bombas do Império, que nunca receberam qualquer condenação pela agressão; nada de pacotes e mais pacotes de sanções; nada de confisco de centenas de milhares de milhões de dólares; absolutamente nenhuma punição.

Vítimas da NATO.

A primeira baixa de guerra

No pico de seu momento unipolar, o Império podia fazer testes e experiências com absolutamente qualquer coisa, no Afeganistão, porque grassava a mais completa impunidade. Dois casos surgem logo à mente: Kandahar, distrito de Panjwayi, Março de 2012: um soldado do Império mata 16 civis e em seguida incinera os cadáveres. Abril de 2018, em Kunduz: uma cerimônia de formatura recebe as congratulações de um míssil Hellfire, que fez mais de 30 civis mortos.

O ato final dessa “não agressão” imperial contra o Afeganistão foi um ataque de drone em Kabul que não atingiu “vários suicidas-bomba”; em vez disso, destripou uma família de dez pessoas, dentre as quais várias crianças. A “ameaça iminente” em questão, identificada pela inteligência dos EUA como um “facilitador do ISIS”, era na verdade um trabalhador que voltava para ver a família. Durante vários dias, a ‘comunidade internacional’ cuspiu os mesmos jorros e jorros de propaganda imperial. Até que começaram a aparecer perguntas bem sérias.

Também continuaram a aparecer questões sobre o treinamento, pelo Pentágono, de pilotos afegãos, para pilotarem o Super Tucano A-29 fabricado pelo Brasil durante os anos de 2016 e 2020, e que completaram mais de 2.000 missões de apoio ao Império, contra o Afeganistão. Durante o treinamento na base Moody da Força Aérea nos EUA e também depois, mais da metade dos pilotos afegãos desertaram e quase todos davam sinais de não tolerar o já incalculável “dano colateral”, i.e., os mortos na população civil. Evidentemente, o Pentágono não guarda qualquer registro do número de afegãos mortos.

O que a Força Aérea dos EUA muito bem registou e promoveu foi, isso sim, a eficácia dos Super Tucanos, ao disparar bombas de laser contra ‘alvos inimigos’: combatentes Taliban que “gostam de se esconder em cidades e em outros locais” onde vivem civis. Noticiava-se enfaticamente também o modo como, por milagre – e graças à “precisão” dos ataques – a “população local foi preservada ilesa”.

Não confere exatamente com o relato de um refugiado afegão, que a família mandou para a Grã-Bretanha aos 13 anos, e revelado há um mês, referindo-se à vila onde vivia em Tagab: “Todo o tempo havia combates. A vila pertence aos Taliban (…) Minha família ainda está lá, não sei se vivos ou mortos. Nunca mais tive qualquer contato com eles”.

Diplomacia de drones

Uma das primeiras decisões de política exterior do governo Obama, no início de 2009 foi super turbinar uma guerra de drones sobre o Afeganistão e as áreas tribais no Paquistão. Anos depois, um pequeno grupo de analistas de inteligência de outros países da NATO começou a divulgar alguns dos registos da impunidade da CIA: os drones tinham luz verde para atacar, mesmo quando se previsse bem claramente, desde o início da operação, que haveria número escandaloso de baixas na população civil. – E assim aconteceu, não só no ‘AfPak’, mas também em outros teatros de guerra na África Ocidental e no Norte da África.

Mas a lógica imperial é feroz. Os Taliban eram por definição ‘terra-ristas’ – no gaguejo que virou marca registrada de Bush. Por extensão, vilarejos nos desertos e montanhas afegãos estavam sempre cheios de ‘terra-ristas’ que ajudavam ‘terra-ristas’. Assim, mesmo que os drones fizessem algumas vítimas civis, o ‘caso’ não se tornaria questão de ‘direitos humanos’.

Quando o dano colateral são populações afegãs – ou palestinas – mortas, não é grave. Quando se tornam refugiados de guerra, são ameaça. Mas as mortes de civis ucranianos são meticulosamente catalogadas; e quando se tornam refugiados, são tratados como heróis.

Uma derrota maciça

Como o ex-diplomata britânico Alastair Crooke observou, o Afeganistão foi caso exemplar e definitiva vitrine do tecno-gerencialismo, melhor campo de testes possível para “toda e qualquer inovação em tecno-gestão de projetos” reunindo Big Data, Inteligência Artificial e sociologia militar, incorporada em ‘Equipes Humanas em Campo’ (‘Human Terrain Teams’). E esse experimento ajudou a disseminar a ‘ordem internacional baseada em ordens’ (do Império).

Mas então, o regime fantoche-dos-EUA que havia em Cabul colapsou, não num bang, mas num gemido: a mais impressionante “derrota orientada por dados” (data-driven defeat).

Não há fúria maior que fúria de Império escarnecido pelos próprios ‘súditos’. Como se todas as bombas, os drones, anos de ocupação e danos colaterais em série não fossem miséria suficiente, uma Washington envenenada pelo ressentimento tenta coroar o próprio desempenho – a própria derrota – com o roubo flagrante, ostensivo, de US$7 bilhões do Banco Central do Afeganistão. Dinheiro que pertence a quase 40 milhões de cidadãos afegãos maltrapilhos e famintos.

Agora, afegãos exilados organizam-se para impedir que familiares das vítimas do 11/Set nos EUA se apoderem dos US$3,5 bilhões de dinheiro afegão, para supostamente pagar dívidas que supostamente seriam de responsabilidade dos Taliban – os quais absolutamente nada têm a ver com o 11/Set.

Ilegal é muito pouco para qualificar o confisco dos bens de uma nação empobrecida afligida por uma moeda em queda livre, inflação alta e aterrorizante crise humanitária, cujo único ‘crime’ foi ter derrotado, em campo de batalha justo e limpo, a ocupação imperial. Sob todos os critérios, se essa monstruosidade se consumar, cabe aí, rigorosamente, uma condenação por “crime internacional de guerra”. E o dano colateral a enterrar será, nesse caso, a “credibilidade” que ainda reste à “nação indispensável”.

O total das reservas afegãs deve ser devolvido ao Banco Central Afegão. Mas todos sabem que não acontecerá assim. No máximo, talvez sejam liberadas parcelas mensais, apertadamente suficientes para estabilizar preços e permitir que afegãos médios comprem itens essenciais como pão, óleo de cozinha, açúcar e gasolina.

A ‘Rota da Seda’ do ocidente chegou já morta ao destino

Já ninguém lembra que o Departamento de Estado dos EUA apareceu com a ideia própria de uma Nova Rota da Seda, em julho de 2011, anunciada formalmente por Hillary Clinton, então secretária de Estado, em discurso na Índia. O objetivo de Washington, pelo menos em teoria, era reconectar o Afeganistão com a Ásia Central e o Sul da Ásia, privilegiando a segurança acima da economia.

Os especialistas falavam em “converter inimigos em amigos, e ajuda, em comércio”. Mas a realidade era impedir que Cabul se integrasse à esfera de influência Rússia/China – representada pela Organização de Cooperação de Xangai (OCX) – depois da quase-retirada das tropas norte-americanas em 2014 (o Império só foi formalmente expulso em 2021).

A Rota da Seda norte-americana viria finalmente a permitir que avançassem projetos como o gasoduto TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia) de gás natural, o anel de transmissão (linha elétrica) CASA-1000, a central termoelétrica de Sheberghan e um anel nacional de fibra ótica no setor de telecomunicações.

Houve muita conversa sobre “desenvolvimento de recursos humanos”; construção de infraestrutura – ferrovias, rodovias, barragens, zonas econômicas, corredores de recursos; promoção de práticas de boa governação; construção de capacidade para “acionistas locais”.

Império zumbi

Feitas as contas, os norte-americanos fizeram menos que nada. Os chineses, jogando o longo jogo, estarão na liderança do renascimento afegão, depois de terem esperado pacientemente que o Império fosse expulso.

O Afeganistão por seu lado, será bem-vindo nas Novas Rotas da Seda reais: a Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE), completada com financiamento que virá do Banco Rota da Seda e do Banco Asiático para Infraestrutura e Investimento (BAII), e interconectada com o Corredor Econômico China-Paquistão (CECP), o Corredor Ásia Central da ICE, e finalmente a União Econômica Eurasiana (UEE) liderada pela Rússia; e o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (CITNS), liderado por Irã, Índia e Rússia.

Comparem e vejam o contraste que há entre isso e os lacaios congregados na OTAN, cujo “novo” conceito estratégico resume-se a mais e mais belicismo requentado e sempre em expansão, contra o Sul Global e dali em diante – incluídas galáxias distantes. Sabemos, pelo menos, que, caso a OTAN algum dia ceda à tentação de voltar ao Afeganistão, lá encontrará à sua espera, mais e mais humilhação ritual, excruciante.

Ver também:

[*] Analista político.

O original encontra-se em thecradle.co/Article/Columns/12648 . Tradução de Vila Mandinga

Este artigo encontra-se em resistir.info

 

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