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quinta-feira, 13 junho, 2024

O grande vencedor das eleições legislativas na Venezuela é Barack Obama

VenezuelaDiário Liberdade – [Alejandro Acosta]
O grande vencedor das recentes Eleições Legislativas, na Venezuela, em que a direita venceu de maneira arrasadora, foi a Administração Obama.

Essa é a mesma política que conseguiu ser aplicada na Argentina, com a vitória de Macri, e que está sendo colocada contra o Brasil, encurralando o governo do PT.

Trata-se de uma vitória frágil, já que a direita, em todos esses países, não consegue impor uma frente única da mesma maneira que o fez nos anos de 1980 para impor as políticas neoliberais.

Agora, essa direita tenta por em pé uma nova frente única mas, por causa do acelerado aprofundamento da crise capitalista, tratam-se de frentes muito frágeis.

Na Argentina, Maurício Macri ganhou por escassa diferença de votos do candidato da ala direita do kircherismo, Daniel Scioli. Macri estabeleceu uma aliança com os elementos mais direitistas do kirchenerismo, principalmente os governadores, a ala direita do peronismo, como o candidato derrotado Sergio Massa e outros, e parte da burocracia sindical peronista.

No Brasil, a pressão da direita tem implodido a base da “governabilidade” petista. Foram impostos vários ministros abertamente direitistas e o governo Dilma Rousseff, cada vez mais, foi transformado numa “rainha da Inglaterra”. O governo atual já aplica boa parte do ajuste, embora não o faça com a intensidade que os monopólios gostariam. Mas, apesar de enorme fragilidade, ainda controla os movimentos sociais, por meio da CUT, o MST, a UNE e outros.

Na Venezuela, a direita não tem a mínima condição de aplicar o ajuste, sem provocar uma revolução, se não contar com o apoio da ala direita e burocratizada do chavismo. Essa mesma ala precisa da direita para aplicar o ajuste, dado o colapso das finanças públicas. É preciso acompanhar o desenvolvimento da situação política no próximo período, o congresso extraordinário do PSUV, as reuniões de Maduro com os movimentos sociais, a reforma ministerial, a nova Assembleia Nacional, que assumirá no dia 5 de janeiro, e a reação das massas perante os inevitáveis ataques.

Obama e a crise política nos EUA

A política da Administração Obama encabeça, neste momento, a direita tradicional norte-americana. No próximo ano, acontecerão eleições presidenciais nos Estados Unidos. Perante o fortalecimento da ala mais direitista, essa ala mudou de política a partir do mês de junho, quando o chefe da diplomacia, John Kerry, visitou a Rússia (na cidade de Sochi) para encontrar-se com Vladimir Putin (presidente) e Serguei Lavrov (ministro da Relações Exteriores).

A política de Obama (da ala que ele representa, que é integrada também por políticos do Partido Republicano) passa pela desescalação das tensões nas principais regiões no mundo para estabilizar o Oriente Médio. Desta maneira, as tensões na Ucrânia foram desescaladas nas repúblicas de Donetsk e de Lugansk pela primeira vez desde o início dos conflitos. No Mar do Sul da China, a agressividade do Pentágono, que direcionou para essa região nada menos que a metade do orçamento, foi relaxada.

Na América Latina, foram acelerados os acordos com Cuba e com as FARC-EP na Colômbia. A direita equatoriana foi contida pelo próprio Papa, em julho. Capriles encabeçou a contenção da direita Venezuela e o triunfo eleitoral.

Apesar de tratar-se de uma política de crise e muito precária, é a política que está colocada para este momento. No Oriente Médio, o foco da crise, a Administração Obama se aliou com inimigos tradicionais para estabilizar a região: a Rússia, o Irã e “seus amigos” (a poderosa milícia libanesa Hizbollah e as milícias xiitas), os chineses e os curdos. Essa política gerou um aumento das tensões com os aliados tradicionais (sauditas, sionistas israelenses, Turquia, Catar, Emirados Árabes). Mas, apesar das contradições, é essa, e não a política abertamente golpista, a que está em pauta neste momento.

Os vencedores afiliados, os perdedores e o ajuste

Os vencedores afiliados da Administração Obama, nas eleições legislativas na Venezuela, foram a direita agrupada na MUD (Mesa da Unidade Democrática), uma parte do chavismo, principalmente uma parte dos governadores (conforme o próprio Capriles declarou), e os grandes empresários locais.

Os grandes perdedores foram, em primeiro lugar, o povo venezuelano, para quem sobrará o ajuste, e a ala do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) ligada, em alguma medida, às lutas sociais.

O ajuste, contra a população, somente poderá ser aplicado pela Assembleia Nacional com o apoio de setores do chavismo, que terão como missão controlar as massas, que estão muito radicalizadas, como já é possível sentir nas ruas.

A situação da economia venezuelana é falimentar. Escapou do controle do governo chavista por causa dos preços do petróleo terem despencado de US$ 110 para US$ 37. Não há mágica. A guerra econômica aprofundou o problema, mas por esse motivo ela não conseguiu ser contida como o tinha sido até o ano passado.

O orçamento público está implodido. O estado de espírito da população é hiper explosivo.

A direita não apresentou o programa que irá aplicar até hoje, além de medidas secundárias, como libertar os presos políticos da direita, eliminar as gigantescas filas para comprar alimentos da cesta básica etc, mas sem dizer o como irá fazer isso.

Vazou uma conversa entre um grande empresário, o dono da Polar, e um deputado da MUD. A “saída” seria um empréstimo do FMI por US$ 50 bilhões, que, obviamente, virá carregado de condições truculentas contra a população.

Na mira do Ajuste, estão, em primeiro lugar, as Misiones, que consomem 42% do orçamento estatal e os subsídios. Com US$1, a população compra 100 bilhetes de Metrô em Caracas e 50 litros de gasolina. Os alimentos subsidiados permitem que o grosso da população sobreviva com um salário de US$ 20 mensais, que é complementado pelos demais subsídios e pelas Misiones.

Há uma bolha social altamente explosiva. Controlar a população será difícil, principalmente, no contexto do aprofundamento da crise capitalista mundial. A tendência do colchão de controle social é ruir.

O chavismo tende a se implodir, apesar dos esforços da ala hegemônica, que é encabeçada pelo presidente Nicolás Maduro, apoiado por Diosdado Cabello. É evidente que a ala direita tenderá a apoiar a direita da MUD enquanto a ala esquerda, pressionada pelas massas, tende a acelerar a luta nas ruas.

Alejandro Acosta é cientista social, colaborador do Diário Liberdade e escreve para seu blog pessoal.

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