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quinta-feira, 13 junho, 2024

O dia dos presidentes rebeldes

O resultado mais marcante Cúpula de Mar del Plata foi o ‘não’ à ALCA. Não houve na história uma reunião entre Estados tão exitosa contra Washington.

Martín Granovsky, publicado em Página/12

Nunca antes aconteceu. No grande feito daquele ano de 2005, os presidentes se viram forçados a discutir de forma multilateral um tema que já estava cozinhado e congelado no âmbito técnicos, entre os chanceleres e vice-chanceleres. Foi assim que os 34 chefes de Estado e de governo, membros de uma Cúpula das Américas ainda sem Cuba, terminaram debatendo cara a cara sobre se era ou não conveniente formar uma Área de Livre Comércio das Américas – a famigerada ALCA.

A conclusão nos níveis inferiores já havia resultado numa resposta negativa. Contudo, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, quis pressionar seus colegas, exercendo seu poder de “comissário do planeta”, como definiu o então presidente do Paraguai, Nicanor Duarte.

Nunca antes se havia visto algo assim. Embora as sessões em Mar del Plata entre 4 e 5 de novembro de 2005 fossem fechadas, as câmaras continuaram filmando. O presidente argentino Néstor Kirchner, quando tudo terminou, ordenou guardar as cópias e distribuí-las entre vários amigos esparramados pela América Latina. Agora, o conteúdo – horas de disputa cara a cara, entre brigas e comentários irônicos e ofensivos, manobras e acordos – finalmente passou a ser público. Foi como se um conclave para eleger o Papa fosse filmado e tivesse suas imagens difundidas.

Não há como negar que assistir às cenas provoca uma sensação única, para um momento único da história do continente americano. O resultado mais marcante daquela reunião de presidentes da Cúpula de Mar del Plata foi o “não” à formação da ALCA. Não houve na história, a esse nível, numa reunião entre Estados, outro momento de rebelião coletiva tão exitosa contra um projeto de Washington. Houve sim Estados que se rebelaram, e povos que se rebelaram, mas nunca antes havia acontecido uma rebelião de cinco Estados juntos, com seus líderes encabeçando e travando um projeto de livre comércio que, a rigor, significava a formação de um bloco americano dirigido pelos Estados Unidos.

As cúpulas americanas só podem chegar a acordos por consenso. Não se vota como na Assembleia Geral das Nações Unidas. Se não há consenso não tem acordo. Os presidentes do Mercosul (o anfitrião argentino Néstor Kirchner, o paraguaio Nicanor Duarte, o uruguaio Tabaré Vázquez e o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva), junto com o presidente Hugo Chávez, da Venezuela – e com a presença de um Evo Morales que ainda não era presidente mas já despontava como candidato favorito nas eleições que estavam próximas –, coordenaram seus esforços para derrubar um projeto que, segundo a definição de Lula naquele então, seria pior que o Nafta – que incluía somente os Estados Unidos, o México e o Canadá.

Os cinco liquidaram o consenso que Bush tentou impor, ajudado pela ação dos presidentes do México, Vicente Fox, e do Panamá, Samuel Lewis, além do primeiro-ministro canadense Paul Martin. Com uma postura que Kirchner sintetizou dizendo que “somos nações”, a negociação foi encerrada, com o mesmo resultado que antes havia sido conseguido graças ao trabalho dos diplomatas argentinos Jorge Taiana (chanceler) e Alfredo Chiaradía, e dos brasileiros Celso Amorim (chanceler), Marco Aurélio Garcia, Samuel Pinheiro Guimarães e Adhemar Bahadian.

Carta Maior

Tradução: Victor Farinelli

Créditos da foto: wikipedia

 

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