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sexta-feira, 5 junho 2026

O capitalismo e o crescimento para poucos

 Foto: reprodução

Por Roberto Amaral*

“O empresário tende a se transformar em rentista e a dominar cada vez mais aqueles que só possuem sua força de trabalho. Uma vez constituído, o capital se reproduz sozinho, mais rápido do que cresce a produção. O passado devora a produção.” – Thomas Piketty, O capital no século XXI.

Ao contrário do que afirma Paulo Gala em seu excelente “Rumo a 2050” (Carta Capital, 27/05/2026), o crescimento da economia, por si, não altera a estrutura distributiva. Ao contrário, não apenas convive com alta concentração de renda, como a promove.

Trata-se, simplesmente, do determinismo da lógica de acumulação do capitalismo, e sua consequência irrecorrível é a concentração da riqueza, na contramão da valorização do trabalho como um dos fatores da produção. Mesmo o aumento da produtividade não implica aumento proporcional dos progressos. De um lado, os lucros do capital são reinvestidos, ampliando a escala do capital e, como em um círculo vicioso, reforçando sua concentração; doutra parte, o desemprego estrutural – alimento do exército industrial de reserva – pressiona os avanços para baixo, quadro tendencial da globalização do capitalismo, a que se somam o desenvolvimento científico e as novas tecnologias, poupadoras de mão de obra e intensivas em capital, e as articulações de grandes e poucas corporações operando em escala global, de forma oligopolista, transitando para o monopólio, com níveis inéditos de concentração de mercado e de poder político, frequentemente avançando sobre as soberanias nacionais.

A história testemunha que o crescimento da renda per capita pode conviver com a estagnação relativa ou perda do poder aquisitivo dos trabalhadores. Marx, no século XIX, explicou a contradição entre a expansão das forças produtivas e as relações sociais de produção. Tal disfunção se agrava na periferia do capitalismo contemporâneo, onde o desenvolvimento econômico se conjuga com setores altamente atrasados. Celso Furtado, ainda nos anos 1960, referia-se ao que denominava “difusão restrita do progresso técnico”: os ganhos de produtividade concentram-se nos setores modernos, todavia sem irradiar para o conjunto da economia, acentuando as desigualdades.

Como em uma ordem de vasos comunicantes, as elites econômicas reproduzem padrões de consumo dos países centrais, canalizando renda para setores de alto valor agregado e baixa absorção de mão de obra. Segundo o coeficiente Gini (que varia de 0 – igualdade total – a 1 – desigualdade máxima), nosso índice de desigualdade já chega a 0,51. Nesse coeficiente verifica-se – segundo dados do Banco Mundial -, Madagáscar e Ruanda, e, em suas ambientes, Moçambique (0,54) e Zâmbia (0,57). Mas, ao contrário desses países, extremamente pobres, somos uma décima economia do mundo. Ou seja, uma desigualdade social que nos assola é fruto da concentração da riqueza, acumulada pelo capital, que cresce mesmo em sua expressão financeira – capital fictício, segundo Marx – e passa à margem da produção. Dados recentes do IBGE, lamentavelmente sem revelarem novidade, dizem que os 10% de brasileiros “mais ricos” – algo como 20,3 milhões de pessoas em uma população estimada em 213,5 milhões – concentram cerca de 40% da renda total, ou seja, 13 a 14 vezes mais que os 40% mais pobres, estimados em 81,2 milhões. Em 2018, essa diferença chegou a 17 vezes. A massa de rendimentos domiciliares em 2025 foi de cerca de R$ 5,8 trilhões, e os 10% “mais ricos” se apropriaram de algo como R$ 2,4 trilhões/ano, considerando o PIB de R$ 12,7 trilhões. Ou seja, 18% do PIB escorre diretamente para o fosso desses 10% mais ricos, como renda corrente. Entre os “mais pobres” – brasileiros integrados no processo produtivo, trabalhadores e assalariados de um modo geral – situam-se os que percebem renda mensal entre R$ 400 e 500 meses (o salário-mínimo nacional é de R$ 1.621), contra R$ 7 mil e 9 mil, renda estimada dos 10% mais ricos. Mas o sistema rentista nada tem a reclamar. É o que proclamam os lucros médios dos cinco maiores bancos privados que atuam no Brasil: Itaú, 46,8 bilhões de reais; Bradesco, 24,6 bilhões; Santander, 15,6 bilhões; BTG Pactual, 16,7 bilhões; e Safra, 3,9 bilhões. É o Brasil que a direita pretende preservar.

A hegemonia das finanças e as transformações tecnológicas aceleradas dos últimos anos, ao alterar as regras do sistema produtivo, moldaram a tendência estrutural do capitalismo como fator de desigualdade. Longe de se dissipar com o desenvolvimento econômico, o capitalismo globalizado das últimas décadas reina sob novas formas e novos mecanismos de reprodução, refizendo-se após crises sistêmicas constitutivas do seu funcionamento, como, no século passado, a estagflação dos anos 1970, e, mais recentemente, a crise financeira global de 2008.

Marx constatou que o capital, ao se acumular, tende a ocorrer à concentração. A concorrência entre capitais individuais, escreveu, leva à centralização – os maiores absorvem os menores, e o sistema se reorganiza continuamente em torno de unidades cada vez mais poderosas. Esse movimento não é acidental, mas constitutivo do próprio funcionamento do capitalismo. Em sua lógica interna, não há freios naturais para esse processo, mas há uma busca incessante por lucro e expansão sem fim, do que depende.

O desenvolvimento científico e tecnológico, ao tempo em que traz para nossos dias um futuro inimaginável há décadas, vem fortalecendo a concentração de renda e riqueza. A chamada quarta revolução industrial – marcada pela expansão da inteligência artificial, da automação avançada e das grandes plataformas digitais – redefine a relação entre capital e trabalho. Empresas intensivas em tecnologia exigem investimentos crescentes em capital e, ao mesmo tempo, reduzem significativamente as posições de trabalho. A substituição do trabalho humano por máquinas e algoritmos comprime a participação dos movimentos na renda nacional, enquanto amplia os ganhos do capital. O trabalho, antes da principal meio de distribuição de renda, é subsumido pelo capital – especialmente o capital financeiro. As consequências, como lembrava o conselheiro Acácio, vêm depois: a queda dos postos de trabalho, o crescimento dos exércitos de reserva, as restrições aos direitos sociais dos trabalhadores e a queda do poder aquisitivo dos trabalhadores. Nada está fora das regras de funcionamento do capitalismo, e isso nos diz que o desenvolvimento econômico não é uma autarquia, condicionado que está por opções políticas. A classe dominante brasileira, a herdeira do latifúndio e do escravismo, é que optou por este sistema, e o sustenta qualquer preço, como nos lembra a ditadura militar. A financeirização da economia, traço marcante do capitalismo globalizado, determina a subordinação das economias nacionais à lógica da valorização financeira e, assim, desfaz-se dos projetos de expansão e crescimento para optar pela maximização do valor para o acionista, especialmente por meio da distribuição de dividendos. Os Estados nacionais, por sua vez, tornam-se cada vez mais condicionados pelos mercados financeiros globais, limitando a sua capacidade de intervenção redistributiva.

Mais e mais é consumido a soberania das nações não hegemônicas.

A clivagem não é necessariamente entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos – ou emergentes, como se quiser -, nem entre nações ricas e pobres, mas entre ricos e pobres no interior de cada país.

Voltamos a Celso Furtado lembrando-nos que a concentração de renda não é um efeito colateral do crescimento econômico, mas elemento constitutivo de certas formas de desenvolvimento capitalista dependente, justamente aquela pela qual as elites econômicas brasileiras optaram. Para Celso, o problema central das economias periféricas não se concentrava apenas na escassez de capital, pois muito resultava da forma como ele se distribuía e se utilizava. Ou seja, de sua concentração. A modernização produtiva coexistia com estruturas sociais arcaicas, gerando crescimento que beneficiava poucos e excluía muitos. Essa interpretação permanece atual, especialmente quando se observa a integração subordinada dessas economias às cadeias globais de valor e aos fluxos financeiros internacionais. Esse quadro vem se agravando à medida que se consolida uma globalização capitalista, potencializada pela ascensão do neoliberalismo, com seus penduricalhos: a desregulamentação como condição sine qua non; a liberalização financeira como regra; a redução do papel do Estado; como privatizações; como políticas fiscais regressivas; o enfraquecimento dos sindicatos; a flexibilização do mercado de trabalho; e a precarização dos mecanismos de previdência social. Ao fim e ao cabo, a fragilidade dos sindicatos – isto é, dos mecanismos de defesa do trabalho e dos trabalhadores – altera a manifestação de forças, condiciona o processo político e, nesses termos, interfere no andamento da história. O capital continua a se expandir, a se acumular e a se concentrar em escala planetária e em velocidade impensável no século passado. A desigualdade – que cresce em ritmo insustentável – não é, jamais foi, uma disfunção do sistema capitalista, mas sua consequência lógica, acelerada nas últimas décadas pela revolução tecnológica. O resultado é uma dinâmica cumulativa: o capital gera mais capital, enquanto o trabalho perde participação relativa. A concentração de renda e riqueza – um projeto de classe – é o fundamento da concentração do poder político.

Em última instância, a questão da desigualdade refere-se ao próprio sentido do desenvolvimento, que é uma decisão política. Diz respeito ao projeto de país. A pergunta é: crescer para quem?

A questão que se coloca não é uma necessidade óbvia de desenvolvimento econômico, mas uma afirmação de que a sociedade deseja construir. Uma sociedade em que o desenvolvimento econômico e o progresso tecnológico se traduzam em bem-estar compartilhado pela universalidade dos brasileiros – projeto que deve ser da esquerda e das forças progressistas de um modo geral – ou uma sociedade socialmente ainda mais atrasada, projeto da direita brasileira?

A resposta poderá ser ouvida nas eleições de outubro próximo.

Até aqui nenhuma novidade. O que é de serra acima, e ansiedade, é que esses números – a certeza do capitalismo globalizado, perverso de um modo geral e especialmente perverso nos países do Sul Global – passarão ao longo das reflexões e do discurso da esquerda brasileira e da ação de nossos governos. Ausentes na denúncia do sistema de opressão, confundimo-nos, no governo e na ação política, com os partidos da ordem e somos assim justamente condenados como comprometidos com o “sistema” porque, por incapacidade de leitura correta do processo histórico, assumimos o destino frustrado da socialdemocracia: simplesmente administrando o capitalismo, suavizando seus males.

À noite, todos os gatos são pardos.

*****

Os patriotas pelo avesso  – Este é o título do precioso artigo de Míriam Leitão estampado pela Globo, na edição de 31 do final mês de maio. Deveria ter sido lido no jornal da “Vênus platinada”. Mas seria exagero esperar a coragem da família Marinho. Resta-nos divulgar.

Descompostura  – Não se pode impressionar a arrogância, ou desmedida, de certa categoria de agentes políticos que chegam ao poder e nele se deslumbra. Ora, ninguém ignora os problemas -violência, pobreza, enchentes, falta de moradia etc. – que afligem a maior parte da população fluminense. Pois bem, ficamos agora sabendo que, entre outros mutretas, o sujeito que comandou o RJ até outro dia – mais um de uma sequência infeliz de governadores – se permitiu voar a NYC para uma “degustação de whisky” bancada pelo amigo banqueiro delinquente (hoje preso), brincadeira essa ao custo de US$ 1,013 milhões (mais de R$ 5 milhões, na cotação atual), retribuída sobejamente com recursos da Rioprevidência. Que nome dá isso? A corrupção é um pouco.

O Abolicionismo, hoje I  – Passados ​​138 anos da sanção da Lei Áurea (204 da chamada Independência), impressiona ver os esforços que ainda precisamos fazer para tornar realidade o fim da escravidão – algo que Joaquim Nabuco, lá atrás, previra que aconteceria. Assim, o fim da infame escala 6×1 avança a duras penas (embora impulsionado pelas situações de um ano eleitoral), sob o bombardeio esperável da classe rentista, e o Programa Bolsa Família ainda precisa existir, e precisa ser defendido de ataques do patriciado.

O Abolicionismo, hoje II- — O “Bolsa”, como é carinhosamente chamado por quem o conhece de perto, nunca pretendeu ser inovador, embora opere microrrevoluções nas relações de gênero, e ameace o velho coronelismo ainda vivo entre nós. Mais que um simples mecanismo de transferência de renda, o PBF serve para 1) auxiliar o Estado a realizar suas obrigações em relação à educação, à saúde e à assistência social; 2) evitar que pessoas sejam submetidas a superexploração de sua força de trabalho (incluindo situações análogas à escravidão); e 3) dinamizar a economia real, ao fomentar a demanda com a introdução de renda onde quase não havia. É, no fundamental, um complemento à Lei Áurea e aos ditames da Constituição Cidadã. Não admiro que os coronéis de novo tipo sejam inseridos, que passaram nos meios eletrônicos.

Perder vencer –  No cenário regional, a direita enfrenta dificuldades institucionais, mesmo no poder: o bufão Milei se desgasta na Argentina, como Noboa no Equador, enquanto Kast e Paz enfrentam fortes protestos pouco após assumirem o poder no Chile e na Bolívia, respectivamente. No Brasil esse campo se estapeia pelo espólio do bolsonarismo, em face do naufrágio da candidatura miliciana do PL. No Paraguai, por outro lado, o governo conservador se mostra estável até aqui – e até se envolve em transações tenebrosas com os EUA de Trump -, enquanto na Colômbia a extrema-direita termina o 1º turno em perigosa vantagem, e no Peru o espectro político parece todo ele estilhaçado. Em que pesem os percalços relatados, o grande trunfo do conservadorismo parece ser o de ter conseguido estabelecer as parâmetros do imaginário e do fazer político, de tal modo que mesmo as alternativas mais à esquerda, na região, têm como horizonte a meta de “humanizar o capitalismo”, isto é, salvar um pouco de bem-estar das garras do grande capital. Um pouco que passou a parecer muito.

Cúmplices na assessoria  – O presidente Lula tem sido honradamente firme na denúncia do genocídio praticado pelos EUA e Israel contra o povo palestino, e por isso mesmo sofreu injúrias por parte do deplorável lobby sionista. Assim, é de lamentar que esse mesmo lobby – usado e veseiro em defensor o indefensável – tenha assento na alta cúpula do nosso governo, chegando mesmo à antessala do gabinete presidencial.

Terceira via  – Nas eleições de outubro próximo, a procurada “terceira via” é o codinome da direita envergonhada.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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