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sexta-feira, 5 junho 2026

Tecnologia da quebrada: empreendedorismo 2.0 nas favelas cria novos e inclusivos rumos no setor

Com uma população de 2 milhões de pessoas, cerca de 40% dos moradores das favelas do estado do Rio de Janeiro atuam no próprio negócio, conforme o Instituto Data Favela. Reportagem especial da Sputnik Brasil mostra como a tecnologia amplia oportunidades, impulsiona o empreendedorismo e transforma realidades em locais marcados pela exclusão digital.

Flávia Vilela
Lucas Morais
Era a pandemia da COVID-19, período que intensificou o uso da tecnologia por conta da necessidade de isolamento social e, ao mesmo tempo, escancarou as desigualdades de inclusão digital. Foi nesse contexto que a engenheira elétrica e empreendedora social Thaís Santana teve um sonho: uma sala de aula cheia de adolescentes. Inicialmente, o significado parecia distante, mas a imagem nunca mais saiu da cabeça.
“Amadurecendo essa ideia, lembrei que meu pai tinha uma serigrafia no fundo da nossa casa. Ele ajudava jovens a atuarem nessa área, com estampas de camisas, panfletos e até sacolas personalizadas. Eu falei: ‘Cara, que incrível!’. E pensei que era preciso criar algo voltado para esse sentido educacional para os jovens daqui”, conta Santana à Sputnik Brasil.
Ao mesmo tempo, a empresa em que trabalhava iniciou um programa para a capacitação de jovens periféricos na área de programação. Ao participar da iniciativa, Santana teve a ideia de levar esse aprendizado para o Complexo da Coruja, segunda maior favela de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, onde vivia.
O sonho virou realidade e, em 2021, nasceu o Futuroon Tecnologia. Inicialmente voltado para jovens, o projeto incluiu novos focos ao longo dos anos e encontrou no curso de letramento digital para a melhor idade um dos seus maiores sucessos. Em pouco mais de cinco anos, já tem uma meta ambiciosa: tornar-se o maior polo tecnológico de favelas do estado do Rio de Janeiro até 2030.

“A favela precisa ser pensada e olhada como lugar de inovação, e não de criminalidade. Existem pessoas dentro da favela mudando esse conceito e levando o que têm de melhor. Se eu pudesse perguntar ‘quem é o maior empreendedor que você conhece?’, talvez fosse um colega periférico fazendo algo diferente, criando algo diferente”, afirma.

Desde a fundação, mais de 300 alunos já passaram pelas salas de aula do instituto, que conta com professores voluntários e se mantém por meio de editais e doações.
“O jovem periférico já é empreendedor. Quando ele vende sacolé dentro da favela para o tio, para o primo, para o amigo, isso já é uma forma de empreender. O que a gente faz é trazer um empreendedorismo diferente. Quando estimulamos os jovens a criarem seus próprios perfis, a serem designers, programadores e criarem seus próprios estúdios, já estamos falando de novos caminhos e novas possibilidades”, complementa.
Coordenador e cofundador do Futuroon, Marlon de Souza ajudou Thaís a transformar esse sonho em realidade. Os dois estudaram em um colégio público no Complexo da Coruja e, anos mais tarde, se reencontraram na Internet.

Ele conta que a paixão pela tecnologia veio do pai, que sempre foi um entusiasta das inovações e, em uma realidade bem distante para a época, comprou um computador quando ainda era criança.

Marlon de Souza é coordenador e co-fundador do Instituto FuturoON, que oferece cursos gratuitos em São Gonçalo. 29 de maio de 2026 - Sputnik Brasil
Marlon de Souza é coordenador e cofundador do Instituto Futuroon, que oferece cursos gratuitos em São Gonçalo. São Gonçalo, Rio de Janeiro, 29 de maio de 2026

“Este é o propósito do projeto: aproximar as pessoas da tecnologia. E o empreendedor raiz está na favela. Então o Futuroon tenta trazer esse profissionalismo para quem empreende. Temos cursos para ajudar a entender os cálculos, o caixa, os custos e quanto cobrar pelos serviços ou produtos. A inteligência artificial também nos ajuda muito nisso e, em breve, vamos abrir uma ementa de curso só para IA”, revela.

Quem se juntou mais tarde ao time foi Luíza Carmelo, coordenadora pedagógica do instituto. Também de realidade periférica, ela diz que, até hoje, o acesso tecnológico ainda está concentrado entre a população com maior poder aquisitivo.
“O que fazemos aqui é deixar a pessoa confortável e confiante de que, sim, ela vai aprender, entender que esse conteúdo também é para ela e que essa área pode ser ocupada por ela, seja um novo negócio ou um novo projeto”, afirma.
Luíza Carmelo, coordenadora pedagógica do instituto FuturoON, mostra funcionamento de uma impressora 3D. São Gonçalo, 29 de maio de 2026 - Sputnik Brasil
Luíza Carmelo, coordenadora pedagógica do Futuroon, mostra funcionamento de uma impressora 3D. São Gonçalo, 29 de maio de 2026
Segundo Carmelo, a população dessas regiões costuma optar por opções mais restritas de negócios por falta de oportunidades.
“Tem gente na periferia que não se identifica com trabalhos que sempre aparecem para elas e quer outras possibilidades, mas acha que não é capaz. A gente tenta mostrar que essa possibilidade existe. A área de games, por exemplo, é uma das mais amadas pelos alunos, enquanto a aula da melhor idade é a mais procurada”, exemplifica.
Há dez anos aposentada de uma multinacional chinesa, Rosimara Pereira Chagas tentou voltar ao mercado de trabalho, sem sucesso. Ao atribuir a dificuldade ao etarismo, ela encontrou no Futuroon uma possibilidade de vencer o preconceito da idade por meio do trabalho on-line.
“Tenho vontade de voltar a trabalhar, mas acima dos 50 anos é sempre muito difícil. Também estudo, juntamente com uma amiga, marketing digital. É algo interessante para quem está aposentado poder trabalhar de casa, pelo celular”, diz.
Potência criativa que nasce na Rocinha
Do outro lado da Baía de Guanabara, na Zona Sul da capital fluminense, outra potência criativa que desconstrói estereótipos pulsa na favela da Rocinha, em São Conrado.
Pelo menos 30 colaboradores, produções diárias de videoclipes e ensaios fotográficos para artistas de diferentes países e mais de 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais. Esses são alguns dos números da Favela Content, a maior produtora de conteúdo da Rocinha, idealizada em 2020, também durante a pandemia, pela fotógrafa e empresária Kimberly Duarte, hoje com 28 anos.
Conhecida na comunidade como Salem, ela lembra que a iniciativa surgiu da própria demanda dos moradores por entender as ferramentas e a linguagem do audiovisual.

“Estamos em uma favela da Zona Sul cercada pelos bairros mais caros da cidade do Rio de Janeiro. Tudo isso faz com que a Rocinha tenha um pouco menos de conflitos, e acho que tanto a polícia quanto o tráfico e outros atores que mediam esses conflitos têm uma mentalidade diferente. E a Rocinha é muito grande, oferece muitas paisagens, muitos espaços abertos e permite circulação com vans e carros. Tudo isso faz com que seja possível realizar grandes produções”, pondera.

A fotógrafa ressalta que uma das propostas da produtora é fugir dos estereótipos que costumam perseguir as favelas e os seus moradores por meio de uma rede colaborativa no audiovisual.
Apesar disso, ela lamenta a persistência do preconceito com o território por parte de profissionais do mercado.
“Esse olhar vertical — eles sempre acham que a gente merece menos, que somos menos profissionais porque somos de favela. A gente sempre precisa debater a questão dos cachês. Não é porque é a comida daqui que ela é mais barata. E ser pobre custa muito mais caro”, afirma, ao falar das dificuldades logísticas e da falta de acesso a determinados produtos dentro do morro.
Salem afirma que a produção audiovisual movimenta toda uma economia circular na região, que conta com 25 sub-bairros e abriga mais de 72 mil pessoas — a maior população em uma favela no Brasil.
“Sempre bato na tecla de que o transporte deve ser feito, prioritariamente, pelos mototáxis da comunidade. Cada produção que realizamos movimenta dezenas de profissionais locais. Na hora da alimentação, a preferência também é pelos restaurantes e buffets daqui. Tem tanta gente qualificada na Rocinha que isso acaba acontecendo de forma natural. A gente consegue envolver moradores em praticamente todas as etapas da produção, da direção criativa ao styling, maquiagem, produção local e apoio de set”, finaliza.
A empresária conta que, na adolescência, nunca cogitou cursar faculdade.
“Não sabia que existia algo depois do ensino médio. Para mim, eu ia trabalhar no shopping ou ia ser como a minha mãe, a minha avó, a minha bisavó: ia ser doméstica. Era tudo o que o mundo tinha reservado pra mim. Descobrir o audiovisual e ver que ele é muito popular hoje em dia me fez sentir que a gente tem mais uma profissão para escolher”, relata.
Hoje, ela vê jovens de 16 anos já trabalhando em campanhas, canais e teatros. “Realmente acredito nisso como uma nova saída.”
Histórias como de Favela Content e Futuroon se multiplicam, gerando renda e inserção produtiva no mercado digital, usando tecnologia e dados para conectar territórios populares a um mercado emergente de inteligência e inovação.
Aglomerado de casas no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. 26 de dezembro de 2024 - Sputnik Brasil
Aglomerado de casas no Complexo do Alemão. Rio de Janeiro, 26 de dezembro de 2024
Quando empreender é resolver problemas
Somente no Rio de Janeiro, as favelas abrigam mais de 2 milhões de pessoas e, em todo o Brasil, cerca de 18 milhões, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Se representasse um estado brasileiro, essa população seria a terceira maior do país.
Nessa fronteira entre o real e o virtual cada vez mais frágil, os negócios periféricos que já sofriam com a falta de apoio e de oportunidades no “asfalto” enfrentam obstáculos parecidos no mundo virtual.
Acessar, produzir e dominar esse ambiente digital são as novas formas de exercer poder e garantir direitos, já que a parcela da população excluída, seja dentro ou fora da nuvem, é historicamente a mais pobre e negra. E os empreendedores de favelas estão protagonizando transformações, segundo a coordenadora de comunidades do Sebrae Rio, Juliana Oliveira.
“Não temos dúvidas de que esses territórios e esses empreendedores têm nas mãos o que é preciso para trazer esse desenvolvimento, e só precisam de suporte. Daí vem a importância de instituições que ofereçam capacitação, consultoria e treinamento para ajudar não só esses negócios, mas também as famílias impactadas pelas soluções ofertadas”, afirma.
Oliveira salienta que a arte de “resolver problemas”, geralmente ignorados pelo Poder Público, chega a outro patamar com o uso de ferramentas digitais:
“Quando a gente pega esse conceito e leva para as favelas, a gente dá um zoom, porque sabemos que são territórios com muita potência, que movimentam muita criatividade, mas também são territórios com muitas questões a serem resolvidas. Então, hoje, quando olhamos para essa temática de impacto, conseguimos perceber que há cada vez mais pessoas, principalmente da nova geração, dispostas a empreender, mas a empreender com propósito, resolvendo problemas”, explica.
Favela Holding: 1ª holding social do mundo é brasileira
Companhias de áreas diferentes formam o Favela Holding, que engloba uma rede de influenciadores digitais, empresa de outdoors e uma série de negócios com foco no mercado de periferia e que explora “esse mar de oportunidades que ainda não foi visto pelas grandes empresas”, como exemplificou o empreendedor social Marcus Vinicius Athayde, presidente global da Central Única das Favelas (CUFA) e da iniciativa.
“É a primeira holding social do mundo. […] estamos conectando marcas que querem encontrar influenciadores com pequenos criadores que surgem nas favelas. São pessoas que, apesar de não terem abrangência nacional ou estadual, conseguem influenciar sua própria comunidade.”
Para Athayde, a dimensão econômica desse movimento é frequentemente subestimada por quem olha de fora. “Se a gente pega o PIB [produto interno bruto] dessas pessoas, do que estão movimentando, do que estão comprando e produzindo, a gente tem um PIB maior do que o nosso vizinho Uruguai”, frisa. “Essa potência que é produzida dentro das favelas empodera as pessoas para que saibam o seu potencial — e permite que o governo e as empresas consigam se aproximar e entender o valor que existe dentro desse mercado.”
Uma das principais empresas do grupo é a Favela Log, especializada em logística para dentro das favelas. Segundo Athayde, o negócio ajuda a resolver problemas históricos enfrentados pelos moradores.
“Se hoje os moradores do Capão Redondo, de Paraisópolis e de Heliópolis não precisam sair de casa para receber encomendas, como acontecia há cinco anos, é porque empresas como essa identificaram um problema, buscaram soluções, encontraram parceiros e se desenvolveram tecnologicamente”, afirma.
Athayde também cita a empresa São Cofa, que trabalha com o desenvolvimento de tecnologia solar a partir de painéis solares para os moradores e negócios dentro das favelas.
A companhia foi uma das centenas que participaram da feira de negócios Expo Favela 2026, em março, no Rio de Janeiro.
“Um dos projetos vencedores, uma das empresas dos negócios vencedores, foi o ‘Mulheres que Codam’, para desenvolvimento e educação de mulheres na área da programação dentro das favelas brasileiras, principalmente, nesse caso, do Rio de Janeiro, mas não se limitando a ele”, diz ao frisar que existe uma expansão de projetos de digitalização, codificação e programação nas favelas.
Projetos como o Favela Água, que transforma resíduo em carvão vegetal e sabonete, são outros exemplos, segundo ele, desse “processo revolucionário” que está crescendo fortemente dentro das favelas.

“O nosso papel, não só enquanto terceiro setor, enquanto empresa, mas também enquanto governo, como sociedade civil como um todo, é ajudar, apoiar e fazer com que isso tudo cresça”, defende o empreendedor.

Dados que inspiram: da favela, pela favela e para a favela
Mas nem só de business trata o Favela Holding, explica Athayde. Na disputa dessa nova geografia digitalizada, iniciativas com uso de tecnologia para o desenvolvimento cidadão se destacam nesses territórios, cuja coletividade é marca registrada.
Os polos de inovação e criatividade para gerar renda e prosperar caminham juntos com iniciativas para engajar e empoderar moradores por meio da tecnologia. Logoproduzir, trabalhar e divulgar dados se tornou uma necessidade, e o instituto de pesquisa Data Favela foi criado, em 2016, com esse propósito, conta o empreendedor:
“Quem vai a campo é de favela, quem se profissionaliza para entender como fazer a pesquisa e receber por isso são moradores de favela. Todos esses negócios que surgem dentro das comunidades mantêm essa característica de ter um cunho social capaz de agregar outras pessoas do seu entorno.”
Hoje, com dez anos de existência, o instituto é referência nacional, e suas pesquisas são utilizadas por governo, organizações sociais e até empresas.
Uma parceria relevante nesse percurso foi com o IBGE, entre 2022 e 2024, por meio do projeto Favela no Mapa, conta ele. Para o Censo Demográfico brasileiro de 2022, o Data Favela ajudou a encontrar pessoas que o governo não conseguia localizar por outras vias.

“Nosso objetivo é empoderar essas pessoas. Nós, moradores de favelas e periferias, podemos criar nosso próprio instituto de pesquisa para produzir conteúdo, informação e dados que retratem o que acontece na prática e descobrir causas que, muitas vezes, nem conhecemos”, defende o ativista.

As pesquisas também ajudam a desmistificar estereótipos. Em um levantamento realizado em 2025 sobre empreendedorismo nas favelas brasileiras, 50% dos entrevistados afirmaram que o programa de distribuição de renda do governo federal Bolsa Família ajuda na criação de novos negócios.
“As pessoas que moram nas favelas não têm dinheiro disponível para fazer um primeiro investimento. Então, o Bolsa Família serve como uma espécie de capital inicial para que elas possam começar seus negócios.”
A mesma pesquisa apontou que o empreendedorismo é, atualmente, um dos principais desejos dos moradores de comunidades como caminho para melhorar de vida economicamente.
Os estudos também revelam entraves estruturais. Apenas 20% a 25% dos negócios nas favelas possuem CNPJ, evidenciando a alta informalidade. Entre as barreiras estão o custo mensal do MEI e a falta de informação sobre como acessar benefícios e programas de incentivo.
Empreendedorismo atrelado à cidadania e à autonomia digital
Na Zona Norte do Rio de Janeiro, o Data Labe é outra iniciativa que vê na produção de dados uma ferramenta poderosa para fortalecer as narrativas vindas das periferias. O projeto foi criado há dez anos no Complexo da Maré.
Ao destacar a centralidade dos dados na disputa contemporânea por poder e direitos, a cofundadora do projeto, Clara Sacco, relata como é crucial a participação da sociedade civil nesse processo:

“O Data Labe surge dessa necessidade de democratizar as ferramentas de trabalho com dados, principalmente as digitais, e de tornar visíveis dados produzidos longe dos grandes institutos de pesquisa. Também nasce da discussão sobre que tecnologia e Internet queremos construir”, comenta.

Segundo ela, o empreendedorismo digital também exige garantias de direitos no ambiente on-line, especialmente para populações mais vulneráveis, já que muitas das desigualdades presentes no mundo físico se reproduzem nos algoritmos e nas plataformas digitais.
Para isso, explica, é preciso descomplicar a cultura de dados. “Como discutimos a produção oficial de dados? Como esse conhecimento é disseminado? E como as comunidades podem criar metodologias próprias para produzir dados capazes de transformar suas realidades?”, questiona.
Além da produção de pesquisas, o Data Labe desenvolve ações de formação, capacitação e engajamento por meio de materiais didáticos, reportagens, relatórios e conteúdo para redes sociais.
Cocozap
Primeiro projeto de geração cidadã de dados do Data Labe, o Cocozap surgiu de uma demanda da Maré por informações mais confiáveis sobre saneamento básico. Segundo Sacco, dados oficiais apontavam que 98% da comunidade tinha acesso a esgotamento sanitário, mas a realidade observada pelos moradores era diferente.
“Qualquer voltinha que você dá em uma das favelas da Maré mostra que é impossível que isso seja verdade.”
Em parceria com as ONGs Casa Fluminense e Redes da Maré, o projeto reuniu denúncias de moradores por meio do WhatsApp e construiu, ao longo de cinco anos, uma base de dados sobre saneamento. A iniciativa foi concluída, mas inspirou outros territórios a desenvolverem processos semelhantes.
“Participamos da revisão do plano municipal de saneamento com a Carta da Maré. Recentemente, Nova Holanda passou por uma ação civil pública sobre saneamento básico, na qual as concessionárias foram condenadas.”
Sacco alerta que os desafios se tornam mais complexos com o avanço das tecnologias e exigem respostas cada vez mais coletivas. Entre as frentes de luta, cita o combate a algoritmos racistas de reconhecimento facial que discriminam pessoas negras e a resistência à instalação de datacenters em territórios ribeirinhos, que podem agravar crises hídricas.
“A gente precisa conversar sobre inteligência artificial com aqueles corpos que são mais atingidos pelo avanço desgovernado dessas tecnologias”, defende.
Para ela, no entanto, o horizonte não é apenas de ameaças, e lembra que lutas, resiliência, criatividade e resistência das periferias também são históricas, e na era digital não seria diferente.
Muitos empreendedores de favela, salienta, que também esbarram nos limites de acesso a direitos, liberdade e segurança nas redes, têm se apropriado das novas tecnologias não apenas para prosperar, como também para superar obstáculos à cidadania.
Em diferentes frentes, as iniciativas estão ampliando o acesso ao mercado de trabalho, com soluções inovadoras, potencial econômico, produção de dados territoriais e formação de mão de obra qualificada.

“A mesma força criativa humana que inventa estruturas de dano também inventa saídas, redes de solidariedade e proteção. Acredito que a gente consegue dar respostas à altura”, conclui Sacco.

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