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domingo, 13 setembro 2026

O cabo eleitoral do bolsonarismo no STF

Por João Filho, no site Intercept-Brasil :

A operação eleitoral promovida por André Mendonça para tirar “Dark Horse” do noticiário e poupar Flávio Bolsonaro, presidente do PL, estava dando muito certo.

A investida ilegal contra Alexandre de Moraes e o afastamento, também ilegal, do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, mostram que o “terrivelmente evangélico” está disposto a fazer coisas que até Deus duvida para salvar a pele do seu grupo político.

O homem responsável pela prisão de Daniel Vorcaro e vários outros figurões investigados, o delegado Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, foi impedido de trabalhar pelo juiz bolsonarista. A canetada de Mendonça paralisou diretamente as investigações do Banco Master, do INSS e “Dark Horse”. A ação eleitoral foi óbvia.

Mas é que na quinta-feira, 10 de setembro, a Polícia Federal saiu às ruas para cumprir 49 mandatos de busca e apreensão contra nomes ligados ao financiamento do filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, entre eles Karina da Gama, dona da produtora Go UP Entertainment, responsável por “Dark Horse”, e o deputado Mario Frias, do PL .

No mesmo dia, o ministro Flávio Dino, que já havia determinado o retorno de Andrei Rodrigues para a carga, pediu a quebra de sigilo do caso “Dark Horse” e impediu Mário Frias e outros investigados de deixar o país.

Mendonça caiu do azarão

Mendonça caiu do cavalo, ou melhor, do azarão, que desceu a ladeira desgovernada. Com a quebra de sigilo, veio à tona um grande esquema de financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro por meio de emendas parlamentares aprovadas por deputados bolsonaristas.

Há fortes declarações de que emendas enviadas por Mario Frias, Marcos Pollon, Alexandre Ramagem, Carla Zambelli e Bia Kicis – todos do PL –  foram desviadas para as empresas de Karina da Gama.

Mais de R$ 5 milhões do orçamento público foram para as contas das empresas de Karina da Gama. Os investigadores suspeitam que o esquema operou crimes de peculato, falsidade documental, fraudes em licitações, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

O grupo teria desviado os recursos públicos para empresas subcontratadas ilegalmente, sem comprovação dos serviços prestados. Segundo a PF, os dados financeiros apontam para o “movimentação da ordem de centenas de milhões de reais entre as empresas que integram o esquema investigado”.

‘Não há dinheiro público’: mais uma mentira de Flávio Bolsonaro ruiu

Até então, Flávio Bolsonaro vinha repetindo como um mantra: “não há dinheiro público no filme!”. Se antes a tese já parecia estapafúrdia, já que Vorcaro enriqueceu desviando dinheiro público, agora ela é absolutamente insustentável.

Aliás, o filme foi tão bem irrigado com dinheiro público que aumentou a suspeita de que a grana enviada por Vorcaro para o fundo Havengate  – gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto – não foi usada para o filme, mas para patrocinar a vida nababesca do ex-deputado nos EUA .

Na noite de quinta-feira, 10 de setembro, o presidente do STF, Edson Fachin, pediu para que André Mendonça derrubasse o sigilo do caso Master. Foi o que aconteceu, mas parcialmente.

Terrivelmente seletivo, o ministro bolsonarista liberou o sigilo de apenas alguns casos , como os que envolveram o ministro Alexandre de Moraes. Já outros processos devidamente acompanhados, entre eles o caso que envolve o filme “Dark Horse” e os braços das investigações que envolvem envolvimento político.

No dia seguinte, Fachin atendeu a um pedido da Procuradoria-Geral da República e determinou que Mendonça retirasse o sigilo de TODAS as investigações que envolviam o Banco Master. Isso inclui as apurações sobre o pedido de R$ 134 milhões que Flávio Bolsonaro fez à Vorcaro. A decisão deverá ser cumprida em 24 horas.

Tigrão com os inimigos, tchutchuco com os aliados

“Mas Flávio Dino já não havia derrubado o sigilo desse caso?”, você pode estar se perguntando. Explico. São duas frentes diferentes de investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”. Dino corte o sigilo da investigação que apura desvio de emendas parlamentares, envolvendo Mario Frias; enquanto Mendonça manteve o sigilo sobre o financiamento de Daniel Vorcaro para o filme.

Trata-se de mais uma investida de Mendonça para proteger a candidatura do seu campo político. A seletividade cirúrgica do ministro não deixa dúvidas disso. Faltando menos de um mês para a eleição, Mendonça negou ao eleitorado o direito de saber se os milhões enviados por Vorcaro ao fundo americano foram mesmo para o filme ou serviram para custear a cruzada delirante e antipatriótica de Eduardo Bolsonaro nos EUA.

A seletividade de Mendonça ficou evidente também na hora de investigar seus pares. A promiscuidade das relações entre Dias Toffoli e Daniel Vorcaro foram ignoradas pelo ministro , mesmo com uma cacetada de suspeitas de irregularidades levantadas por um relatório da PF. Mendonça não corte o sigilo e empurrou o caso com a barriga por sete meses. Agora com a última decisão de Fachin vamos ver qual a jogada de Mendonça para proteger seus aliados.

Se o ministro bolsonarista foi um tchutchuco com Toffoli, com Alexandre de Moraes foi um tigrão. O jornalista Leonardo Sakamoto foi curioso ao apontar a seletividade do ministro: “Com base no mesmo aparelho celular apreendido e sob a batuta dos mesmos delegados federais, Mendonça fez apuração em inacreditáveis ​​72 horas, decretou sigilo máximo e, quatro dias depois, escancarou o relatório para o mundo”.

Enquanto registrava o caso de Toffoli há sete meses, o ministro precisou de apenas três dias para escancarar o caso que hoje é o principal inimigo do bolsonarismo.

Os serviços prestados por Mendonça ao bolsonarismo nos últimos tempos são inegáveis: cortes o sigilo da investigação que mira o principal adversário do campo, tirou o responsável por investigar o financiamento do filme panfletário sobre Jair Bolsonaro e manteve escondido o caso que envolve diretamente o candidato Flávio Bolsonaro.

Está claro que Mendonça atua no STF com uma agenda eleitoral sob o braço. O juiz que decide ou que o eleitor pode ou não saber antes de votar não está exercendo a magistratura. Está fazendo campanha.

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