O fracasso deixou o presidente em silêncio, sem aparições públicas e com uma viagem secreta aos Estados Unidos, sem que ninguém saiba o motivo de sua viagem ou com quem ele se encontrou.
O partido governista esperava uma vitória que consolidaria o chamado “novo Equador”, mas a rejeição popular das quatro questões em votação destruiu a narrativa de sucesso que o governo tentou manter após não ceder às demandas do movimento indígena em sua greve nacional.
Noboa chegou ao Palácio Carondelet, sede do Executivo, em 23 de novembro de 2023, após a saída antecipada de seu antecessor, Guillermo Lasso, e em 24 de maio assumiu um novo mandato.
Inicialmente, havia grandes expectativas em relação às estratégias de combate à crise de segurança, com o Plano Fênix, que nunca foi detalhado e ninguém mais fala sobre ele, enquanto o número de homicídios aumenta e 2025 terminará como o ano mais violento da história do país.
Diante da ascensão do crime organizado, Noboa declarou a existência de um conflito armado interno contra as gangues criminosas, medida que promove a militarização e com a qual justifica sucessivos estados de exceção, bem como a presença de pessoal uniformizado nas prisões.
No entanto, nesse contexto, aumentaram os casos de abuso por parte dos militares e os relatos de desaparecimentos forçados, que, segundo organizações de direitos humanos, chegam a 43.
Um desses casos é o dos quatro menores do bairro de Las Malvinas, em Guayaquil, que foram assassinados em dezembro de 2024, após serem detidos por membros da Força Aérea.
Nos dois anos de mandato de Noboa, as promessas quebradas foram inúmeras. Por exemplo, ele deveria não aumentar os impostos, mas com o apoio do parlamento conseguiu elevar o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) de 12% para 15%, supostamente para financiar operações contra a insegurança.
Na primeira consulta popular, em abril de 2024, os equatorianos aceitaram nove questões propostas pelo governante relacionadas à segurança, mas rejeitaram duas, consideradas fundamentais para sua administração: o trabalho por hora e a arbitragem internacional.
No legislativo, Noboa conseguiu aprovar leis com nomes chamativos, como a Lei da Eficiência Econômica, a lei “fim dos apagões” e a Lei da Poupança e Monetização, que até agora não parecem ter surtido qualquer efeito.
Seu capital político se deteriorou quando as medidas econômicas começaram a afetar os cidadãos comuns, especialmente com a eliminação do subsídio ao diesel, o que levou à greve nacional liderada pela Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador.
Os protestos, que decorreram entre 22 de outubro e 22 de novembro, resultaram em perdas económicas, mais de uma centena de detenções, três mortes e inúmeras denúncias de violações dos direitos humanos devido à repressão.
Apagões que duravam 14 horas por dia, o ataque à embaixada mexicana para prender o ex-vice-presidente Jorge Glas, um conflito com sua ex-vice-presidente, Verónica Abad, e mais de 30 viagens ao exterior, principalmente aos Estados Unidos, seu país de nascimento, são alguns dos problemas que marcaram o governo de Noboa.
Em termos de política externa, destacam-se as mudanças promovidas pelo chefe de Estado em relação às posições históricas do país, como a mudança de apoio à causa palestina, o rompimento das relações com a República Árabe Saaraui Democrática e a abstenção na ONU sobre o bloqueio dos EUA contra Cuba.
No âmbito interno, a instabilidade do gabinete é notória, tendo havido mais de 30 ministros em dois anos, com pastas como a da Saúde em constante rotação, em meio a críticas pela falta de suprimentos, medicamentos e pagamentos aos fornecedores.
Um acordo com o Fundo Monetário Internacional, assinado pelo Governo para um empréstimo de cinco bilhões ao longo de quatro anos, define o tom econômico do Equador, com o fim do subsídio ao diesel e outras medidas de redução de custos, enquanto o emprego informal predomina.
Hoje, dois anos após sua chegada ao Palácio Carondelet, o presidente Noboa enfrenta seu momento político mais complexo, marcado pelo desgaste, e o terceiro ano de seu mandato começa com questionamentos sobre sua liderança, sua estratégia e sua capacidade de resolver as crises que enfrenta.