Diante da vitrine com os dois objetos que me pertencem emprestados para a Exposição no MAR, expliquei como eles chegaram às minhas mãos a alguns amigos ali presentes: o linguista Marcos Maia, a doutora em Artes Visuais Chang Wan e a antropóloga Maria José Alfaro, cujo pai é meu melhor amigo.
O estranhamento de Andrew talvez se deva ao formato retangular da palmatória da terra dos Donald, o pato e o Trump. Ou porque muito mais jovem, Andrew deu mais sorte nas escolas na Califórnia do que eu, aluno nos anos 1950 da dona Lourdes Normando, no bairro de Aparecida, em Manaus. Sexta-feira, dia de sabatina, a “Mãe dos Burros” – assim ela chamava a palmatória – tirava o couro de quem errava a tabuada. Eu saía daquele reino da “paudagogia” com as mãos inchadas. Ela conseguiu… Sou ruim de tabuada até hoje.
Língua e Memória, Palavra tem Poder, Palavra tem Espírito e Terra é Viva são os nomes das salas da Exposição, lembra Majoí Gongora. No percurso, concebido em forma circular, o público é guiado por um rio desenhado no chão, que carrega os belos versos do poema Chuva de Palavras de Daiara Tukano e de suas versões em diversas línguas indígenas. Uma dessas línguas foi usada na abertura da Exposição por Daiara e seu tio Carlos Tukano, que cantaram e saudaram o público no idioma tukano. Carlos lembrou que essa violência testemunhada pelo jesuíta se repetiu até o final do séc. XX nos internatos salesianos do Rio Negro, onde muitas crianças eram castigadas física e moralmente se fossem flagradas falando sua língua. Os depoimentos de Carlos e de Álvaro Tukano são dramáticos. Com as línguas proibidas se apagava saberes ancestrais e as palavras sagradas que nelas circulavam oralmente.
A Exposição, que marca a Década Internacional das Línguas Indígenas, mostra as tentativas coloniais de exterminar essas línguas e as narrativas que nelas circulam. A resistência e a preservação da memória explicam seu nome Nhe´ẽ Porã – “um conceito dos povos Guarani que significa ´belas palavras´, a fala de divina sabedoria carregada de bons sentimentos” como explica no texto do Catálogo Carlos Papá, sábio do povo Mbyá.
P.S. – Não poderia deixar de registrar aqui. Fiquei todo besta, todo “flosô”, quando na abertura do evento fui homenageado por Daiara, que me convidou a subir no palco com Carlos Tukano. Minha emoção subiu lá em cima. É pena que o edifício do MAR tenha apenas seis andares.