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Papo do Dia

Postado em 24/02/2016 5:51

MÍDIA CRIA OS FANÁTICOS (E LUNÁTICOS) DA “LAVA-JATO”

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Por Osvaldo Bertolino, em seu blog:
Doutor Sérgio Moro. É assim que muitos incautos pelas ruas se referem ao juiz que comanda a ação persecutória que recebeu o nome de “Operação Lava Jato”. Há um culto ao doutor no Brasil, especialmente nas camadas médias, envolvidas por lances patéticos da mídia para divertir o público, como se neles não estivesse hipotecado nosso futuro como nação. Cria-se, desse modo, legiões de incautos, cegos e fanatizados, sem a menor noção do que há por baixo de um tapete cuidadosamente vigiado pelos setores dominantes da sociedade.

Essa fanatização tem a finalidade de conter o crescente questionamento ao poder inflado dos setores ideologicamente dominantes, tendência que vem da Abolição, da Independência, da proclamação da República e da Revolução de 1930. O ciclo de governos Lula-Dilma deu mais um impulso nessa tendência ao engajar milhões de brasileiros que se multiplicavam à margem da sociedade organizada, sem cidadania e sem poder aquisitivo, ao universo político e econômico do país.

Povo empreendedor e criativo

Culturalmente, por mais que certos historiadores e antropólogos digam – corretamente, registre-se – que nossas antigas raízes coloniais e escravistas continuam crescendo, já mudamos muito. Somos hoje um povo empreendedor e criativo na vida cotidiana; um povo informal, iconoclasta, sempre propenso a diluir hierarquias rígidas de status ou de função. Mas os “doutores” não estão dispostos a entregar a rapadura.

Um caso recente, que ganhou certa repercussão na mídia, explica porque figuras obscuras, como Sérgio Moro, de uma hora para outra são alçadas à condição de autoridade suprema, com direito a pisotear as leis e garrotear o Estado Democrático de Direito.

Trata-se do juiz Antônio Merreiros, de São Gonçalo (RJ), que entrou na Justiça exigindo ser tratado por “senhor”, ou “doutor”, pelos porteiros do prédio onde mora e ganhou a causa. Se um porteiro tiver a pachorra de chamá-lo de “você”, terá de pagar multa de 100 salários mínimos. Merreiros (doutor Merreiros, desculpem) teria dito: “Doutor é uma palavra que significa pessoa formada e é assim que quero ser chamado.”

Origem no passado escravagista do país

Antes de prosseguir, é preciso esclarecer, embora sucintamente, o conceito de “doutor”. Segundo o doutor Cláudio Moreno, do site “Sua Língua”, só pode ser chamado assim aquele que cumpriu as etapas constantes no curso de doutorado, incluindo a defesa de uma tese original diante de uma banca composta por cinco outros doutores. Fora do mundo acadêmico, ainda segundo o doutor Cláudio Moreno, são também chamados de “doutores” os médicos e os advogados.

De acordo com ele, isso deve ser resquício do ensino colonial, quando os jovens brasileiros abonados iam à Europa estudar medicina e direito. Hoje em dia, em um ambiente em que historicamente pouca coisa acontece sem a marca da discriminação social “doutor” também é qualquer um com algum estudo ou cuja aparência sugira que pertence às classes dominantes. É o “doutor” usado por guardadores de carro, porteiros, vendedores dos semáforos.

Muitos desses “doutores” – os acadêmicos e os informais – agem como se o simples fato de ostentar símbolos de poder desobrigasse alguém de prestar contas, a si mesmo ou à sociedade, dos passos que executam. O doutor Sérgio Moro é um exemplo típico. Ele se enquadra naquela categoria de gente que se beneficia da fragmentação social – que tem origem no passado escravagista do país – para impor seu autoritarismo. Moro é daqueles que veem a grande massa de brasileiros pobres como seres primevos, por serem negros, índios, mestiços.

Escravidão até as barbas do século XX

Para eles, os brasileiros pobres devem ser despossuídos a ponto de não ter direito sobre seu próprio corpo e cuja vida deve ser definida pelo trabalho cruciante e pelos suplícios impostos pelos patrões. A submissão funciona como sucedâneo da lei – uma anomalia no Estado Democrático de Direito. Em um país que manteve a escravidão até as barbas do século XX – caso único no mundo – é, de certa forma, natural que esta ideologia esteja impregnada na carne dessa elite.

E por isso há entre os dois extremos sociais brasileiros uma desconfiança recíproca, uma indisposição a selar contratos sociais, uma oposição natural a qualquer tentativa de organização conjunta, nacional. A tradição brasileira é de rompimento violento desses tratados sempre que a direita se acha no direito de proteger suas benesses, suas maracutaias. Vem daí o inconsciente coletivo do país de que a política e a Justiça obedecem sempre a interesses minoritários e poderosos, de que Estado é sinônimo de opressão, de que pactos democráticos nunca favorecem o cidadão comum.

Em dois ou três séculos, pouco mudou na essência do modo como a elite e o povo se veem e se relacionam. Uns continuam abusando do seu poder inchado, sabotando a trama social existente no país e nutrindo ódios de classe. Outros continuam lutando com todas as forças pela sobrevivência. O pobre sentindo muita revolta por se perceber confinado na base da pirâmide social e o rico achando que a solução mais eficaz para erradicar a pobreza é o extermínio dos pobres.

Nunca se denunciou tanto

O mais revoltante, no entanto, é que brasileiro rico não teme a lei: ou ele salta a barreira ou passa por baixo, mas poucos se detêm na fronteira do direito. Tomemos como exemplo o resultado do noticiário da mídia, que certamente leva os incautos – os fanáticos da “Lava Jato” – a imaginar que logo o Brasil será um dos países mais honestos do mundo. Isso ocorre porque as redações publicam livremente as mais duras denúncias em relação a quaisquer denúncias.

Tomemos ainda a quantidade de comissões de inquérito no Congresso Nacional, com poderes equivalentes e recursos superiores aos da Justiça para convocar pessoas e requisitar informações, que se sucedem na investigação de tudo que se possa imaginar. E o Ministério Público, que dia sim, dia não, acusa alguém de alguma coisa. E ainda a Polícia Federal, que está sempre tocando operações com algum nome de meter medo: Anaconda, Albatroz, Lince, Vampiro, Farol da Colina, Satiagraha e assim por diante.

Levemos em conta, por fim, que vivemos em um mundo no qual parlamentares, promotores ou delegados de polícia têm facilidades inéditas para quebrar o sigilo legal que protege as contas bancárias, os telefonemas ou as declarações de imposto de renda das pessoas. Nunca se denunciou tanto, e nunca tantos foram denunciados. Conclusão: quem é que teria peito, num país como este, de fazer alguma coisa errada? A resposta é: cada vez mais gente. A prova disso está, precisamente, na própria quantidade de denúncias que a cada dia surgem no noticiário. O problema é que há denúncias e denúncias.

Dinheiro, relacionamentos e esperteza

Quando se mistura tudo no mesmo balaio de gatos, o resultado desse ambiente de inquisição geral, irrestrita e permanente, é que o delinquente envolvido de fato em delitos contra o erário ou a função pública tem aparição fugaz na primeira página dos jornais ou no noticiário da TV e do rádio – em contraste com a superexposição dos presos seletivos com base em acusações de fontes de quinta categoria surgidas em farsas como o “mensalão” e a “Operação Lava Jato”.

A seletividade dos chefes das investigações, mais o filtro da mídia, separam o joio do trigo. E aí joga-se o trigo na cadeia e libera-se o joio; com estômago firme, bons advogados e a ajuda da mídia o acusado com indícios de provas robustas acaba saindo vivo da confusão. Com o passar do tempo, seu caso vai sendo esquecido e a partir daí tudo se resume a aproveitar as vantagens incomparáveis que o sistema judicial brasileiro oferece aos acusados que dispõem de dinheiro, relacionamentos e esperteza. Possivelmente não existe no mundo civilizado um sistema judicial tão bem preparado para não fornecer justiça como o do Brasil.

A parceria de inquéritos malfeitos, promotores e delegados cujo desempenho é julgado pelo número de acusações que fazem e por suas aparições na mídia, e não pelas condenações baseadas na lei que conseguem, e tribunais que a própria legislação tornou paraplégicos só pode mesmo resultar nisso. Resumo da ópera: o caso já não é de esperar que a aplicação da justiça seja mais rápida; é pedir, simplesmente, que se torne possível. Que se repeite o Estado Democrático de Direito.

Comentários:

4 ideias sobre “MÍDIA CRIA OS FANÁTICOS (E LUNÁTICOS) DA “LAVA-JATO””

  1. PRECISA-SE UM LÍDER

    No modesto entender deste escriba, o Brasil precisa urgentemente de uma liderança capaz de enfrentar o capital financeiro internacional, a Banca, como o chamarei doravante.
    Não importa a esta altura buscar origens e culpas. Basta saber que a Banca atua com um propósito, que chamaremos Objetivo Permanente: o da apropriação dos ganhos de todos os demais segmentos econômicos, públicos ou privados e, internamente, reduzindo o número de parceiros (!), numa contínua concentração de renda. Há também outro objetivo, não conflitante com o Permanente: destruir toda política nacionalista, que a afaste da governança das nações.
    Como a Banca é formada de capitais de todas as origens: drogas, corrupção, caixa 2, suborno, tráfico de pessoas, cujo montante ela lava e coloca para render, não se lhe pode cobrar atitudes éticas. Veja, nesta última eleição na Argentina, o volume de dinheiro gasto para eleger Mauricio Macri, opositor daquela que enfrentou os Fundos Abutres. Não constituiu surpresa alguma que a primeira medida do novo presidente fosse deslocar seu ministro das finanças para “negociar” com estes fundos.
    O Brasil tem dimensões maiores em tudo que se escolha para comparar. Poucos países – os Estados Unidos da América (EUA), a Federação Russa, a República Popular da China e a Índia – tem dimensões, população e recursos naturais comparáveis. Também o Brasil se coloca como detentor de vários êxitos científicos e de tecnologias de ponta, como da exploração de petróleo, que faz da Petrobrás uma presa cobiçada.
    Mas tem uma elite, que governa o País desde as capitanias hereditárias, a qual cabe a irônica avaliação que o Presidente João Baptista Figueiredo aplicou aos criadores gaúchos: cafetão. No caso de todos nós, brasileiros, esta elite é a cafetina de nosso suor e de nossas riquezas naturais que entrega aos estrangeiros por variadas comissões e pela sua manutenção no Poder. A denominada grande imprensa é a caricatura desta realidade.
    Hoje parece ser travada uma luta, que envolve os mesmos interesses, com sutilíssimas variações, além da permanente sede de poder. Governo e oposição são unânimes na submissão à Banca. Vejamos o vocabulário usado e sua real significação.
    Fala-se em “ajuste fiscal”, “medidas duras ou impopulares, mas necessárias”, “confiança dos investidores”, “manter avaliação de grau investimento pelas agências de avaliação de risco (sic)” e muitas outras que o inteligente leitor logo associará. Todas só tem um único significado: tirar salário e rendas dos pobres e da classe média para manter sempre em elevado crescimento o lucro da Banca. Infelizmente a classe média custa muito a entender esta linguagem, mais do que os pobres, e ainda se alia aos interesses da elite como riqueza e poder passassem de um para outro por contágio viral.
    A mais recente prova desta igualdade de propósito, entre Governo e oposição, deu-se na aprovação pelo Senado da exclusão da Petrobrás de obrigatória participação na apropriação da maior riqueza descoberta neste País e no mundo, nos últimos 30 anos.
    Está vaga a liderança nacionalista. A um só tempo é curioso e triste verificar que os grandes avanços por um Brasil Soberano se deram em Governos Autoritários: Vargas e Militares, a partir de Costa e Silva.
    São daquelas épocas a legislação trabalhista, a Companhia Siderúrgica Nacional, a inclusão do trabalhador rural na Previdência Social, a Telebrás, a Embratel, a Cobra, a Nuclebrás e a própria Petrobrás, orgulho de qualquer Nação, criada por Vargas, Presidente eleito, às véspera de seu suicídio/assassinato, por coincidência (?) pela mesma força vitoriosa, agora, no Senado.
    Claro que não se deixa espaço vago no Poder. Já se candidatam a esta liderança o ex-Ministro e ex-Governador Ciro Gomes, no partido fundado por Leonel Brizola, muito conveniente, sem dúvida, e o Senador e ex-Governador Roberto Requião, que já teve uma experiência no Paraná, de enfrentamento do Judiciário, onde está enquistada boa parte da elite e dos interesses alienígenas. Não fosse assim, os processos de casos como Satiagraha, Banestado (também chamado LavaJato 1), Castelo de Areia, Lista de Furnas e tantos outros não teriam conhecido o arquivamento e as gavetas sonolentas.
    E as Forças Armadas? Enfraquecidas, desinformadas, acreditando que ainda vivemos num mundo bipolar de democratas e comunistas, teriam uma liderança para enfrentar a Banca?
    Esta é uma realidade que talvez chegue às primeiras eleições onde as pessoas jurídicas, pela primeira vez, não poderão oficialmente eleger seus representantes.
    Pedro Augusto Pinho, avô, aposentado

  2. O Juiz Antonio Merreiros perdeu a causa no STF e continuará sendo tratado por “você” no condomínio em que mora.
    Acha que é Deus.

  3. A PREPOTÊNCIA VENCEU A PRUDÊNCIA

    Certo da eventual proteção que seu “estágio” de 2007 no Departamento de Estado (U.S. Department of State) lhe daria, o Juiz Sergio Moro atropelou o rito processual, indispensável à existência de um estado democrático de direito. Fica assim passível de um julgamento pelo Conselho Nacional de Justiça, ao qual cumpre manter a justiça dentro dos ditames legais.
    Mas é igualmente curioso verificar que os principais personagens desta Lava Jato estavam presentes no enterrado processo do Banestado que, de forma criminosa, levou do Brasil o montante, em moeda atual, de US$ 520 bilhões. São atores do Caso Banestado o mesmo juiz Moro, o criminoso Alberto Youssef e o Procurador Santos Lima.
    Enquanto isso, meu caro batedor de panelas, o sistema financeiro sorria de orelha a orelha com um lucro de até 40%, obtido apenas em um dia, na Bolsa de Valores de São Paulo, sobre algo perto de R$ 17 bilhões, além do que faturou na Bolsa de Nova Iorque com as ADR de empresas brasileiras, especialmente da Petrobrás.
    Qual o desenvolvimento de tudo isso? É difícil avaliar num momento em que as redes virtuais ganham importância, num país tomado por celulares, tablets e notebooks, e rivalizam com a monopolística televisão.
    O Instituto Vox Populi, em pesquisa realizada logo após a comoção trazida pela condução coercitiva do ex-Presidente Lula e de seu pronunciamento depois do interrogatório a que foi submetido no Aeroporto paulista, mostra que a maioria absoluta da população repudiou esta ação.
    Não se confunda, como procura fazer a Nota dos Procuradores do Estado do Paraná, uma luta pela moralidade e pela decência não só na vida pública como em todos os momentos (vale a quem coloque a carapuça). Nisto os omissos do Caso Banestado, da Lista de Furnas, da Operação Zelotes, Castelo de Areia, Satiagraha e tantas outras que foram sepultadas por envolverem aqueles que sempre governaram, antes de Lula, o Brasil devem explicações.
    E o capital financeiro internacional mais uma vez agradece.
    Pedro Augusto Pinho, avô, aposentado.

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