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quarta-feira, 28 fevereiro, 2024

Memória e ‘batalhas’ de Fidel Castro permanecem vivas sete anos após a morte do líder cubano

Fidel Castro morreu em 2016, aos 90 anos de idade – Juan Barreto / AFP

O comandante da revolução que derrubou o ditador Fulgencio Batista morreu em 25 de novembro de 2016, em Cuba

Gabriel Vera Lopes

Brasil de Fato | Havana (Cuba) 

A tensão era palpável no ar. Por um instante, naquela noite, o tempo parou. Dezenas de vezes tinha se espalhado como um rumor, mas sempre foi apenas outra das milhares de operações midiáticas promovidas pelos inimigos da Revolução Cubana. Mas naquela noite foi diferente.

Os telefones não paravam de tocar. Os abraços na rua se multiplicaram, buscando refúgio no afeto de um amigo, um parente, um amor. Cada esquina de Cuba guarda a história de uma lembrança. Imagens vivas de um instante em que o tempo parou.

“Querido povo de Cuba, é com profundo pesar que compareço para informar ao nosso povo, nossos amigos da nossa América e do mundo, que hoje, 25 de novembro de 2016, às 22h29, faleceu o comandante e chefe da Revolução, Fidel Castro Ruz“, lia em um breve comunicado frente às câmeras Raúl Castro Ruz, seu irmão e companheiro de milhares de aventuras.

Raúl fala em seu modesto escritório, rodeado de imagens de heróis da independência cubana. É notável o esforço que ele faz para evitar que sua voz quebre. Será que, em algum momento, ele pensou em como seria dar a notícia?

A história conta que, na noite anterior à tentativa de ataque ao Quartel Moncada, em 26 de julho de 1953, todos os combatentes que haviam sido recrutados clandestinamente nos meses anteriores se reuniram pela primeira vez. Lá, Fidel ficou surpreso ao ver Raúl, seu irmão caçula, entre os que haviam se alistado para o ataque.

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Não havia tempo para repreensões de irmão mais velho e, de qualquer forma, a preocupação não podia estar ausente. Ele sabia que a ação que enfrentariam os colocaria cara a cara com a morte. E, no entanto, foi isso que eles escolheram: fazer com que suas palavras correspondessem às suas ações, apostar seu destino junto com o do povo para lutar contra a ditadura de Fulgencio Batista. Sessenta e três anos tinham se passado desde aquele momento, uma vida inteira com Fidel.

“De acordo com a vontade expressa do companheiro Fidel, seus restos mortais serão cremados na madrugada de amanhã, sábado, dia 26. A comissão organizadora do funeral fornecerá ao nosso povo informações detalhadas sobre as homenagens póstumas que serão prestadas ao fundador da Revolução Cubana. Hasta la victoria siempre“, finalizou o comunicado.


Raúl Castro Ruz presta homenagem a Fidel Castro no cemitério Santa Ifigenia, onde estão os restos mortais do líder cubano / Estudio Revolución/ Reprodução Granma

Fidel havia feito sua última aparição pública apenas alguns meses antes. Foi no 7º Congresso do Partido Comunista Cubano, quando se despediu diante de centenas de delegados do partido.

“Esta pode ser uma das últimas vezes em que falarei nesta sala. Todos nós teremos nossa vez, mas as ideias dos comunistas cubanos permanecerão, como prova de que neste planeta, se trabalharmos com fervor e dignidade, podemos produzir os bens materiais e culturais de que os seres humanos precisam, e devemos lutar incansavelmente para obtê-los”, anunciou diante das lágrimas incontroláveis dos delegados do partido.

A culpa é de Fidel

A história de Fidel é a história de mil e uma batalhas. Sua infância em Biran e seus estudos em uma escola jesuíta o marcaram profundamente. Seus anos de universidade e seu envolvimento com a militância estudantil no fervor da Cuba daquela época. Suas ações internacionalistas para exigir a remoção do ditador dominicano Rafael Trujillo. Sua evolução como líder político, sua amizade com Che Guevara, sua liderança no triunfo da revolução cubana. Seu papel na Crise dos Mísseis, sua atitude em relação ao colapso da União Soviética, sua liderança durante o Período Especial. Sua solidariedade internacional com as crianças afetadas pela catástrofe de Chernobyl. Sua liderança nas lutas contra o colonialismo na África. Sua amizade com líderes da estatura de Salvador Allende, Nelson Mandela e Hugo Chávez. E sua última grande batalha: a batalha das ideias.

“O Século XX, pelo menos na América Latina, teve que esperar o dia 25 de novembro de 2016 para terminar”, diz ao Brasil de Fato, sem hesitar, Dayron Roque, membro do coletivo La Tizza e educador popular do Centro Martin Luther King.

“Porque o século XX, que em nosso continente começou com a revolução mexicana em 1910, é marcado pelo triunfo da Revolução Cubana e sua sobrevivência ao longo do tempo. Isso é obra de muitas pessoas, mas essencialmente de Fidel Castro. É quase impossível pensar na configuração da América Latina e do Caribe, hoje, sem entender o terremoto que significou a revolução cubana de 1959 e a presença de Fidel Castro”, explica.

A figura de Fidel Castro tem sido central desde a segunda metade do século XX. E até hoje ele continua a ser um símbolo que desperta todo tipo de sentimentos: desde o amor mais profundo até o ódio mais visceral de seus inimigos. Mas uma coisa é certa: Fidel nunca foi indiferente à história.

Na imaginação social e política de Cuba, Fidel continua desempenhando um papel preponderante. A frase “isso não aconteceria com Fidel” é frequentemente ouvida em resposta a uma reclamação sobre uma situação social difícil, “O que Fidel faria agora?” como um ponto de interrogação diante dos desafios atuais que a ilha enfrenta. “A culpa é de Fidel” era uma expressão repetida em todo o continente americano, diante do perigo de outras rebeliões populares ocorrerem em outras latitudes.

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Batalha de ideias

A própria história de Dayron Roque como educador popular é marcada pela influência de Fidel. Após o colapso do campo socialista, Cuba ficou completamente isolada no cenário internacional, perdendo seu principal parceiro econômico e político. Naqueles anos, a ilha passou pela pior crise econômica de sua história, com uma queda de 30% no Produto Interno Bruto (PIB), fase conhecida como o “período especial”.

Apesar de todas as previsões da época, o sistema da Revolução Cubana não entrou em colapso. Mas foi profundamente danificado. Todos os avanços sociais que haviam sido construídos até aquele momento foram fortemente prejudicados.

No final daquela década difícil dos anos 90, Fidel convocou um debate ético em defesa dos avanços da justiça social, da integridade nacional e do internacionalismo da revolução. Criou uma série de programas sociais nos quais a participação social direta – principalmente dos jovens – desempenhou um papel central. Mesmo fora das estruturas estatais.

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Esse processo é conhecido como a “batalha de ideias”. O nome vem de uma frase de José Martí: “trincheiras de ideias valem mais do que trincheiras de pedras”. Foi nesse processo que Dayron começou a dar aulas e a acompanhar processos organizacionais em diferentes bairros pobres, razão pela qual decidiu se tornar educador.

A ideia de que as revoluções são feitas pelas pessoas humildes e para as pessoas humildes é uma ideia que sempre acompanhou Fidel.

“Esta é a revolução socialista e democrática dos humildes, com os humildes e para os humildes. E por essa revolução dos humildes, pelos humildes e para os humildes, estamos prontos para dar nossas vidas”. Essa foi a frase que Fidel pronunciou em abril de 1961 e que é frequentemente repetida em Cuba.

“Até o último momento, ele esteve à frente dos esforços que tentavam dinamitar a inércia da revolução. E, para isso, ele necessariamente teve de contar com o que havia de mais vivo no elemento popular”, reflete Dayron.

“Isso muitas vezes significava sair das estruturas institucionais. O último esforço de Fidel, o que chamamos de batalha de ideias, não foi nada mais do que um esforço para retificar o que, em termos organizacionais institucionais, a revolução não conseguia mais responder ou produzir. É por isso que ele foi procurar as pessoas, é por isso que ele foi se envolver com o povo”, destaca o educador.

Eu sou Fidel

Fidel foi o líder de um processo político que foi abraçado por todas as experiências políticas que tentaram burlar o destino obstinado imposto pelos poderosos. Nos tempos de euforia neoliberal, após a queda do campo socialista, ele foi uma bússola quando tudo parecia perdido para os sonhos de emancipação.


Cubanos assistem à passagem da urna com as cinzas do líder cubano Fidel Castro na Praça da Revolução em Santiago, Cuba, em 4 de dezembro de 2016. / Rodrigo Arangua / AFP

Em Cuba não há monumentos ou estátuas com a imagem de Fidel. A determinação de que nada fosse construído em sua homenagem após sua morte foi uma de suas últimas ordens.

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“Fidel entendeu que uma das piores coisas que poderia acontecer é que sua ausência – não apenas física, mas também a ausência das coisas que ele poderia fazer – fosse preenchida com monumentos, nomes de ruas. Não permitir que nada leve seu nome, não permitir estátuas, é uma sinalização de que o que precisa ser feito não é preencher com bronze o que, na prática, o processo revolucionário não é capaz de fazer com o que ele começou. Conhecendo esse DNA latino-americano, com esse gesto ele se diferencia da tendência personalista e caudilhista, típica e cara aos heróis latino-americanos”, reflete Dayron.

Estadista e revolucionário, conspirador rebelde e militante disciplinado do partido, narrador da Revolução e educador de massas, autocrítico e exigente. Fidel foi um “guerrilheiro do tempo”.

“Para Fidel, a interpretação do momento histórico sempre desempenhou um papel crucial. Para ele, sempre foi fundamental entender as circunstâncias em que tinha de agir. Não para se adaptar. Mas para transcendê-las, para provocá-las, para pressioná-las. Essa era a maneira como ele concebia a revolução.

“Aquele famoso discurso em que ele diz que a Revolução é do ano 2000. Foi 40 anos após o triunfo da Revolução. Fidel não tem clareza sobre o que é a revolução antes de fazê-la. Não há uma ideia preconcebida do que é a revolução. O que ele está enunciando nesses versos é a experiência do que é a revolução. Até mesmo a experiência dos erros da revolução, não tendo mudado as coisas no tempo”, pontua Dayro.

O educador acrescenta que, para Fidel, a “revolução é mudar tudo o que deveria ser mudado”.

“A experiência do que acontece com outras revoluções quando elas renunciam aos princípios. É por isso que ele diz que ‘revolução não é violar princípios éticos’. Da tragédia da revolução se ela não for internacionalizada. É por isso que ele diz que “revolução é altruísmo, abnegação e internacionalismo”, ressalta.

É na complexidade dessas inúmeras dimensões que Dayron descreve o que é ser um fidelista hoje. É uma busca geracional para aqueles que devem assumir os desafios do presente e ter a coragem de ser contemporâneos de sua própria história.

“Fidel era milimetricamente comprometido com o que dizia e, ao mesmo tempo, o que ele dizia era enorme. Essa “enormidade” é algo que não agrada aos inimigos de Fidel. Eles não conseguem equilibrar o fato de que o histórico de Fidel Castro é, sem dúvida, vitorioso. Portanto, ele é como o Cid Campeador (herói castelhano ligado ao período de retomada pelos cristãos da península Ibérica), é um fantasma que de fato os persegue. Eles temem um homem morto porque temem outra possível derrota”, conclui.

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