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Entrevistas

Postado em 04/04/2017 7:57

Mediapart, a vitória do jornalismo

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Plenel: O propósito é construir com quem faz o jornal uma sociedade sem fins lucrativos (Jean-Luc Flemal/Belga/Zuma Press/Fotoarena)
por Leneide Duarte Plon, de Paris — Carta Capital
Edwy Plenel, o ex-diretor do Le Monde, há nove anos fundou e dirige o famoso jornal online sustentado exclusivamente por seus leitores
Jean-Luc Flemal/Belga/Zuma Press/Fotoarena
O jornal online Mediapart completou em março nove anos de jornalismo honesto. Propriedade de um grupo independente e de seus jornalistas, ele tem em Edwy Plenel, 64 anos, ex-diretor de redação do Le Monde, sua encarnação e deve a esse ex-trotskista grande parte de seu sucesso.

Foi graças a revelações do Mediapart que os franceses souberam do financiamento ilegal da campanha de Sarkozy pelo ditador líbio Muammar Kaddafi, ainda sob investigação da Justiça, com todas as informações do Mediapart confirmadas.

Foi o Mediapart que revelou a existência de uma conta não declarada na Suíça do ministro do Planejamento de Hollande, Jérôme Cahuzac. Responsável pela caça aos fraudadores, Cahuzac foi imediatamente demitido e julgado. O dinheiro vinha em parte de seu trabalho de médico em sua clínica, mas ele nunca pagara os impostos devidos.

Com 17 livros de ensaios, contos e reportagens publicados, Plenel nunca postulou uma vaga na Academia Francesa.

CartaCapital: Mediapart festeja nove anos de jornalismo investigativo online, independente de poderes econômicos, com mais de 130 mil assinantes. Qual o segredo do sucesso?

Edwy Plenel: Jornalismo, jornalismo, jornalismo. Quisemos, num momento de crise econômica da imprensa e de crise política das democracias, defender o valor do jornalismo. Valor da informação, de uma profissão, da democracia em suma.

Todo o ecossistema do Mediapart, a maneira com que foi concebido totalmente digital com uma dimensão participativa e seu modelo comercial de assinaturas, nossa única receita, repousa sobre a ideia de que estamos, jornalistas, a serviço de um direito fundamental dos cidadãos, o direito de saber. E que a defesa desse direito pode recriar a confiança do público e convencê-lo a aderir, contribuindo para a nossa independência. Nosso lema é: somente os leitores podem nos comprar.

CC: Um jornal online sem publicidade era uma condição prévia quando o Mediapart foi criado?

EP: Sim, e provamos ser possível. Precisa haver prova de que não é uma exceção francesa. A verdadeira pergunta, agora que marchamos para o décimo ano, é: o Mediapart é uma exceção francesa ou um laboratório para outros jornais no mundo? Espero que sim.

A revolução digital, informática, é uma oportunidade para criar novas mídias totalmente independentes, de qualidade, participativas, com o apoio dos leitores. Por enquanto, devo ser honesto e dizer que o modelo puro do Mediapart, mídia cotidiana, com três edições por dia, tratando de acontecimentos internacionais, de informação nacional, de economia e cultura, sem publicidade, não tem igual.

CC: A quem pertence o Mediapart?

EP: Um grupo independente, com quatro fundadores, detém 62%, ao lado dos assalariados e uma sociedade de amigos. Os 38% restantes são acionistas externos, que nos acompanharam desde o início e não pertencem à oligarquia francesa. Pouco a pouco adquirimos a parte dos acionistas. Nosso projeto, daqueles que controlam economicamente o Mediapart, é transferir o jornal à equipe que o faz, construindo uma sociedade com fins não lucrativos nos moldes de uma fundação.

A ideia é se tornar uma organização non profit, como se diz nos países anglo-saxões, o que garantiria a independência e o controle do Mediapart, o impediria de ser vendido ou comprável, que sua independência seja garantida. O objetivo dos fundadores não é nem vender nem deixar para nossos filhos, mas transmiti-lo a quem vai perpetuá-lo.

CC: Como o senhor explica a concentração do jornalismo francês nas mãos de bilionários? 

EP: Acontece na França e em outros países. A crise econômica precipitada pela revolução digital provoca um enfraquecimento econômico da mídia impressa. Isso motiva predadores a tomar esse poder. Assim, canais de televisão compram jornais, operadoras telefônicas se tornam proprietárias de jornais, oligarcas adquirem jornais para ter influência. Isso é péssimo para o jornalismo.

Fala PlenelQuando indivíduos com interesses econômicos externos ao métier da informação passam a dominar a mídia, não o fazem para fazer jornalismo, mas para exercer influência e utilizar o jornalismo para servir a seus interesses.

Qual o desafio para os jornalistas? Precisamos lutar dentro das empresas. Criamos o Mediapart para mostrar à profissão que não há fatalidade, que podemos criar empregos, riqueza, com jornalismo independente.

CC: Ainda existe o off em política ou os jornalistas o desrespeitam cada vez mais? 

EP: Não posso responder pelo jornalismo como um todo. No Mediapart, respeitamos o segredo das fontes, diferente do off. Temos reservas quanto ao off. Tínhamos feito uma escolha de recusar citações anônimas. Percebemos que na vida política francesa é muito difícil.

Nos ministérios, temos dificuldade de ter declarações on, então no Mediapart temos o que chamamos de “caixa-preta”, onde deixamos claro os limites de nosso trabalho, os obstáculos encontrados.

CC: O rapaz que salvou vários franceses no supermercado Hyper Casher era imigrante, negro, vinha do Mali, era muçulmano. O medo do outro que o senhor denuncia em seu livro Pour les Musulmans pode levar Marine Le Pen ao Palácio do Eliseu? A França não tem anticorpos para o vírus do nacionalismo, do racismo, do ódio do outro e da xenofobia?

EP: Nunca há anticorpos naturais para evitar a virada para todo tipo de ódio e de medo. Esta é a lição da catástrofe europeia. A Alemanha é um país desenvolvido, culto, com artistas formidáveis. Contudo, o povo alemão deixou-se levar, entregou-se a uma ideologia criminosa.

Penso há muito tempo que o “homem doente” da Europa é a França, a democracia frágil da Europa é a França. A extrema-direita francesa não é ligada a uma onda europeia, tem um peso específico relacionado à nossa história. No meu primeiro livro, de 1984, quando tinha 32 anos, intitulado O Efeito Le Pen, dizia que, ao contrário do discurso dominante, aquele não seria um fenômeno efêmero. Seria durável, porque existe no cerne o fato de a França não ter resolvido sua relação com o mundo.

A França, que perdeu seu grande império colonial no início dos anos 1960, não construiu no seu mundo político, de direita ou de esquerda, um novo imaginário do mundo. Um imaginário no qual ela não esteja presa a lamentar a perda do império colonial, no qual compreenda que ao mesmo tempo esse império fez não somente sua riqueza histórica, mas forjou também seu povo. E que seu povo é composto dessa história, que está aqui, que somos uma América da Europa, na nossa constituição demográfica, que somos feitos de diversidades.

CC: Difícil fazer os políticos aceitarem esse discurso, não?

EP: Falta esse imaginário. Sempre pensei que a extrema-direita não é uma fatalidade. Como no caso do fascismo e do nazismo, vicejam os erros políticos dramáticos cometidos tanto pelos progressistas quanto pelos conservadores. As divisões da esquerda alemã permitiram o advento do nazismo, assim como o cinismo dos conservadores que imaginavam manipular Hitler.

Esses acidentes dramáticos são responsabilidade dos partidos democráticos. De certa forma, Nicolas Sarkozy e François Hollande o ilustram, pois é a geração deles que deveria ter feito a mudança para outra visão do mundo. Mas eles são prisioneiros de uma visão antiga, da visão de uma França empinada sobre suas patas de galo gaulês, em vez de compreender a complexidade do mundo. 

CC: O que ficará para a história do governo de François Hollande?

EP: Uma imensa decepção e uma realidade devastadora para a esquerda.

CC: O Mediapart vai declarar apoio a um candidato?

EP: Não. Dizemos contra o que nos posicionamos. Evidentemente, éramos contra Nicolas Sarkozy, que ultrapassara os limites da direita republicana, abrindo caminho para a extrema-direita. Somos muito críticos desse sistema eleitoral, pensamos que o presidencialismo francês é uma democracia frágil.

CC: Pode-se ser “nem de esquerda nem de direita”, como diz o candidato Emmanuel Macron, ex-ministro da Economia de Hollande?

EP: Macron é o nome que os interesses econômicos e sociais dominantes encontraram para tentar proteger seus interesses. De esquerda ou de direita, não importa. Na França, há uma tradição que se chama “bonapartismo”, que exportamos com Auguste Comte para a América Latina. O homem providencial, o caudilho, o chefe. De acordo com as épocas, pode ser um pequeno cabo, então temos Napoleão. Pode ser um general, então temos De Gaulle. Pode ser um banqueiro, então temos Monsieur Macron. 

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