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Entrevistas

Postado em 06/08/2021 5:00

Markus Gabriel: “Vivemos em um sistema letal”.

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Nossa existência sobre a Terra é cada vez mais complexa e perigosa, no entanto, temos um ativo que os governos costumam ignorar: ao longo da história da humanidade, fomos acumulando uma grande riqueza moral em termos de conhecimento.
Por isso (e não só por isso), os enormes desafios humanos e planetários não podem ficar exclusivamente nas mãos da técnica e a ciência, mas devem passar pelo escrutínio da filosofia moral, em um contexto de novo Iluminismouniversal e radical.

Este é um dos principais argumentos do último trabalho de MarkusGabrielÉtica para tiempos oscuros: Valores universales para el siglo XXI (Pasado & Presente), uma espécie de livro-manual no qual este professor de epistemologia e filosofia moderna e contemporânea, na Universidade de Bonn, pratica a reflexão moral como um físico: descreve o fenômeno para depois resolver os problemas mais complexos, por meio de abstrações e fórmulas.

Converso com ele por ocasião de sua visita a Barcelona, onde participa de um debate no CCB, dedicado à ética global.

A entrevista é de Berta Ares, publicada por Letras Libres, 28-07-2021. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Em ‘Por qué el mundo no existe’ (Pasado & Presente), desenvolveu a teoria do novo realismo que o tornou mundialmente famoso. Então, passou a ser considerado a estrela da filosofia, o filósofo mais jovem, o mais midiático. Pergunto-me se em razão deste novo livro, em que sustenta um novo Iluminismo, busca imitar Kant, por mais que sua teoria do conhecimento e as condições sejam muito diferentes.

Sim, as condições são agora muito diferentes porque vivemos, do ponto de vista filosófico e histórico, em uma época de forte sentido ontológico. O sentido de realidade é muito forte por mais que a atual propagação de mentiras pareça contradizer esta descrição.

“A ideologia e a propaganda oficiais, da atualidade, não permitem ver com clareza o que está acontecendo. Por isso, falo em tempos obscuros “

O grande paradoxo de nosso tempo é que o fenômeno da manipulação ocorre dentro do próprio saber, onde se colocou em andamento toda uma maquinaria própria dos tempos de obscuridade, ainda que a ideologia oficial o negue. Portanto, e especialmente neste sentido, as condições são muito diferentes das da época de Kant.

Pode aterrissar a ideia?

Podemos ver isso com a gestão da pandemia. Na Europa, todo mundo fala da ciência como a única solução à pandemia e, no entanto, apesar de centrar toda a gestão na ciência, a Europa foi o grande epicentro da pandemia.

ideologia e a propaganda oficiais, da atualidade, não permitem ver com clareza o que está acontecendo. Por isso, falo em tempos obscuros. Meu projeto, que chamo de novo Iluminismo, quer romper com essa obscuridade e se apoia em uma filosofia da realidade.

E no conhecimento moral.

Efetivamente, Kant dizia que não podemos conhecer a coisa em si, ou seja, a realidade tal como é, independente do ser humano. Dizia que é inacessível ao pensamento humano, que está além de seu próprio conhecimento.

No novo realismo e no novo Iluminismo que proponho, tanto a realidade como a ação ética são óbvias para o ser humano. Em certo sentido, é o oposto de várias posições de Kant.

“Agora que os problemas da globalização ultrapassaram nossas fronteiras, nossa primeira reação é a de continuar excluindo o outro”

O Iluminismo está muito ligado à Revolução Francesa. Que acontecimento histórico acompanha este novo Iluminismo?

O acontecimento em que estamos imersos, ou seja, a pandemia, que explodiu quando já tinha começado a escrever o livro. Minha editora não compreendia que eu, então, já estivesse falando em tempos obscuros. Ela dizia que tudo estava bem! E quando estourou a pandemia, com toda a manipulação e obscuridade palpáveis, chamou-me de Nostradamus da filosofia.

Esta pandemia é uma revolução profunda que irá mudar tudo. Para começar, chegaram à Europa problemas da globalização que os europeus praticamente conheciam apenas como espectadores.

Agora, esses problemas da globalizaçãojá estão aqui. E qual foi a nossa primeira reação? Excluir o outro! Agora que os problemas da globalização ultrapassaram nossas fronteiras, nossa primeira reação é a de continuar excluindo o outro.

“O princípio da ética parte do fato de que o outro pode ter razão. Justamente o contrário do que está acontecendo agora no campo da ideologia contemporânea”

Você afirma que a política de identidade e a ética não podem coexistir.

A política de identidade é contrária à ética. A ética é radicalmente universal. O princípio da ética parte do fato de que o outro pode ter razão. Justamente o contrário do que está acontecendo agora no campo da ideologia contemporânea.

Eu acredito que a política de identidade é sobretudo uma tentativa de evitar fazer bem. Às vezes, essas políticas são defendidas como aquelas que protegem as minorias, mas na realidade não é assim.

De fato, atuam como os tecnomonopólios, que utilizam as minorias como meio para ter acesso a mais mercados. Estas condições de exploração estão ocorrendo, aqui, na Europa.

Ouvi você comparar a pandemia com o grande terremoto de Lisboa (1755). Considera que estamos vendo apenas a ponta do iceberg?

Exato. Porque a pandemia é a revolução. Ainda que já tenhamos as vacinas, estamos falando de uma pandemia. Vacinar os europeus não é o final. O fim da pandemia está em um futuro muito distante.

“Neste momento, existe um único sistema e este não é sustentável, tem que deixar de existir. Vivemos em um sistema letal. O único modo de sair dele é criar um novo modelo de sociedade e uma nova visão do bem “

Agora, só estamos no início e, em algum momento, perceberemos que a única maneira de sair de toda a crise que gera (de saúde, econômica, de fronteiras…) é aceitar que o que vemos é apenas uma pequena demonstração da crise real que é a climática. O único modo de sair dela pressupõe criar um novo modelo de sociedade e uma nova visão do bem.

Atualmente, vivemos imersos no capitalismo, na fantasia dos mercados que neste momento não estão ajudando em nada. Temos também outras fantasias, um pouco vazias, como é a admiração pela alternativa chinesa.

Mas a China não é outro sistema, entrou, e com muita velocidade, na era moderna, é de fato a região que experimentou o mais rápido processo de modernização de toda a modernidade. Nem a China é uma alternativa, nem há competição entre ela, a Europa e os Estados Unidos. Isso também é uma fantasia. Neste momento, existe um único sistema e este não é sustentável, tem que deixar de existir. Vivemos em um sistema letal.

O que propõe?

Precisamos de algo radicalmente novo para este futuro, e a ideia que exponho em meu livro é colocar em prática a existência de valores realmente universais e, portanto, transculturais.

“O primeiro Iluminismo na Europa foi acompanhado por condições coloniais, mas isso não implica que tenhamos que considerar o Iluminismo superado”

O primeiro Iluminismo na Europa foi acompanhado por condições coloniais, mas isso não implica que tenhamos que considerar o Iluminismo superado, implica a instauração de um Iluminismo necessariamente universal.

Europa poderia ter aprendido da África ou da Ásia em sua gestão da pandemia. Convém mais pensar a partir de um universalismo falível. Os universalismos clássicos tinham uma certa tendência a reivindicar uma infalibilidade.

Assim é o imperativo categórico de Kant.

O imperativo categórico de Kant é uma fórmula com tendência generalista que não possibilita princípios de ação. Por exemplo, o confinamento e o toque de recolher são morais? O imperativo categórico não nos diz nada.

Precisamos de algo novo, este é o objetivo do livro. Nele proponho teses que nos ajudem a abordar estes problemas concretos ligados aos tempos que vivemos. Toque de recolher, sim ou não? Algo mais concreto não há! O novo Iluminismo responde a estas questões porque não evita a realidade.

Os confinamentos são morais?

Eu acredito que os confinamentos são imorais porque produzem danos colaterais, são soluções ruins para o problema. A política pandêmica da União Europeia é o maior fracasso de toda a história recente desta região do mundo.

“É necessária uma solução realmente sustentável. Porque após esse vírus, vem o próximo e a crise climática. A vacinação não coloca um ponto fina”

A política pandêmica europeia é mais imoral que a política pandêmica da ditadura chinesa, porque é uma combinação dos piores fatores. Confinar-nos, fechar os restaurantes, não é uma solução!

Demonstra que a Europa não tem uma política de gestão da pandemia para além da vacinação, que é uma boa estratégia, mas não resolve a crise. É necessária uma solução realmente sustentável. Porque após esse vírus, vem o próximo e a crise climática. A vacinação não coloca um ponto final.

A pandemia fez rolar a cabeça de Donald Trump. Há um pouco mais de luz?

Sim, efetivamente há um pouco mais de luz, mas também há mais riscos. Cada progresso moral é acompanhado por novos riscos e mais graves. O próximo Donald Trump será mais perigoso que o atual.

influência da extrema direita aumenta na Europa. Mas agora também há mais consciência de que o que fazemos tem consequências éticas: o cuidado e proteção, ou não, dos idosos, o uso, ou não, de máscaras, cada decisão que tomamos tem um valor ético.

“É uma pandemia metafísica porque tudo o que fazemos, compramos, comemos, a maneira como falamos e nos comunicamos incorpora uma ética”

É uma pandemia metafísica porque tudo o que fazemos, compramos, come.mos, a maneira como falamos e nos comunicamos incorpora uma ética. A pandemia implica uma revolução moral, uma revelação do fato da realidade éticaKant a chamou de o reino dos fins, e é a capacidade do ser humano de discernir o bem e o mal.

Em uma análise retrospectiva de Kant até o presente, como é que cada vez somos menos soberanos, mas mais narcisistas?

O mundo que somos explica o próprio fracasso do Iluminismo e o fato de que tenhamos desprendido o saber científicotecnológico do saber ético. Esse é o grande fracasso: a ciência permitiu que se mate mais em massa e rapidamente, a ciência acumula mais mortes que a religião.

Resulta agressiva a própria ideia segundo a qual a política tem que fazer o que a ciência diz e pronto. Não! O que resolve a crise é a ética, a autonomia das pessoas. Precisamos do saber científicotecnológico, mas fazer as coisas justas é uma precondição. Ciência e tecnologia não são o fim de uma visão do bem sustentável. Isto é justamente o que nos leva ao chamado Antropoceno, a destruição do planeta.

A ciência e a tecnologia mandam mais que a ética.

A ideia mais estúpida de todas, para dizer claramente, é a de que o progresso científico e tecnológico pode substituir o progresso ético. É a ideia mais estúpida de todos os tempos e de toda a história da humanidade, porque substituir o progresso ético pelo científico-tecnológico só nos leva à autodestruição.

“A ideologia tecnoliberal é extremamente perigosa e suas fantasias estão criando as ideologias mais agressivas de nosso tempo “

ideologia tecnoliberal é extremamente perigosa e suas fantasias estão criando as ideologias mais agressivas de nosso tempo. A crise climática é justamente o resultado do puro progresso científico e tecnológico, por mais que sejam disciplinas do saber.

A pandemia é uma chamada de atenção.

O vírus refutou plenamente a metafísica do Antropoceno. O que a pandemia nos diz é que não somos em nada importantes. E depois vem outra coisa, o fato de nosso “Ser animal”.

Antes da pandemia, o “Antropoceno” e o Pós-humanismo” concentravam boa parte do debate ontológico.

Os dois são debates falsos e perigosos. Somos e continuaremos sendo animais. O vírus nos demonstrou que estamos na mesma situação que os neandertais, mas ainda não aceitamos esta lição com a modéstia que requer, e continuamos no modelo tecnológico científico. Esta metafísica do cientificismo tem um ponto imoral.

Propõe uma ética da alteridade. Inspirou-se nos pensadores judeus da modernidade?

Certamente, muito. Para mim Spinozaé um pensador imprescindível. Sem Spinoza não há Iluminismo. Mas, além disso, sem Moses Mendelssohn, não há Kant, sem Salomon Maimon, não há Idealismo alemão, sem HansJonas – que foi o primeiro pensador que percebeu que temos deveres em relação às pessoas que ainda não existem, ou seja, gerações futuras -, não há partido verde como conhecemos, sem Lévinas, não há política do outro, sem HannahArendt, não há uma boa descrição do totalitarismo. Toda a tradição semítica é fundamental.

A tradição cosmopolita.

Por isso, é importante também a muçulmana, especialmente no momento de desconstrução de nossas próprias origens. Sendo cosmopolita, não posso ser só alemão-cristão, é incompatível com essa ideia de conhecer a si mesmo através do outro.

“Eticamente falando, é muito pior o Twitter do que Donald Trump. As redes sociais vão ao coração de nosso pensamento e o afetam. São muito perigosas”

Para você, a “ética” está intimamente ligada ao conceito de “acolhida”.

Exato. E acolher a diferença radical pressupõe evitar os estereótipos. No entanto, vivemos em uma época de estereótipos que agora já produz a inteligência artificial, máquinas de desinformação que polarizam e dividem as pessoas em estereótipos. Eticamente falando, é muito pior o Twitterdo que Donald Trump. As redes sociais vão ao coração de nosso pensamento e o afetam. São muito perigosas.

São máquinas de criar ódio.

Daí a minha insistência em que precisamos introduzir ética e filosofia já na escola, para que, entre outras coisas, saibam acolher a diferença. Mas não por autoridade, como é o “dever” kantiano, mas inspirado em um modelo democrático e compartilhado. E não antropogênico, pois a ética também deve se dirigir a outros animais, não só o humano.

Cabe destacar que você compreende a democracia não como um governo da maioria, mas como um governo eminentemente moral.

A maioria não significa democracia, isto no longo prazo é um modelo oligárquico porque a maioria não representa a todos. A moral sim. Não é fácil e é um processo falível, mas caso não seja dada certa orientação moral, para que queremos a democracia?

“A democracia real é a que aceita que existe algo acima da política, e esse algo é a dignidade humana”

Na Alemanha, foi desencadeada uma grande polêmica entre os que querem mais confinamento ou menos. Uma maioria quer mais confinamento e nem sequer permite que os vacinados possam ir ao restaurante. Isso é imoral e ruim.

Na Europa, devemos ter clareza se queremos ser uma democracia ou uma ditadura da maioria. Claro que há uma ditadura na China, mas é melhor que a ditadura das maiorias porque ao menos é eficaz, ao passo que a ditadura da maioria é ineficaz e estúpida, e por certo pode ser imoral.

Em seu livro, destaca que a pós-modernidade traiu o relativismo moral.

pósmodernidade e uma falsa concepção da democracia vêm juntas. A democracia real é a que aceita que existe algo acima da política, e esse algo é a dignidade humana.

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Esta entrevista encontra-se em: http://www.ihu.unisinos.br/611613-vivemos-em-um-sistema-letal-entrevista-com-markus-gabriel

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